Para mim que nasci na Todavia do conterrâneo Fernando Vita e tive o prazer de compartilhar parte das memorias relatadas, de forma hilária, sobre o período do golpe militar de 1964, ler sobre as travessuras do Capitão Ludovico César Roldão Ramos Neto me remete a uma adolescência vivida em uma cidade bucólica, sem serviços de água e esgoto tratados, com energia elétrica e telefonia deficientes, transporte das mercadorias feito no lombo dos burros e jovens estudantes se deslocando à pés sob o escaldante sol do meio dia.
Conheci, também, o comandante do Tiro de Guerra 115, protagonista dessa história, que usava o transloucado maconheiro Cabo ‘Mondrongo’ para investigar suspeitos de simpatizantes de regimes políticos, aí se inclui não só comunistas, mas, também, integralistas, monarquistas, anarquistas e até republicanos. Possivelmente, em relação à essa última categoria, o desastrado Capitão deve ter esquecido que o Marechal Deodoro da Fonseca foi apoiado por um grupo de republicanos para o levante militar que depôs o imperador Dom Pedro II.
O exímio contador de histórias, Fernando Vita, utiliza personagens reais para narrar o ocorrido. A cidade, Todavia, era assim, conforme descreve o autor. O que de mais importante acontecia eram as chegadas e partidas dos trens que circulavam sobre trilhos que dividiam a província ao meio, exalando fuligem sobre as residências e as palmeiras imperiais. Pelo visto, não restam palmeiras imperiais tampouco a estação do trem. Destruíram parte da história para dar lugar aos automóveis. Ou paisinho danado…
Fernando Vita habita em cada um dos personagens das histórias contadas por ele. Digo das histórias contadas por Vita porque li todas as suas obras e ele sempre teve muito carinho por seus personagens, usando-as em situações diversas, sem perder a coerência estrutural, mas, tenho a impressão de que o autor tem um chamego especial (nunca conversamos sobre isso) pelo poeta, boêmio, farrista e irreverente tabelião de cartório de ofícios e notas e registros José Correia de Melo. Correia de Melo, como era mais conhecido, foi o nosso ‘Vinicius de Moraes’ na Todavia. Gozava do poder de ser tabelião e exortava a ‘moral’ provinciana. O próprio fenótipo do tabelião somado à ‘extravagância’ do corte do cabelo, do bigode e das roupas que usava eram indicativos de que algo de diferente existia. Correia de Melo não era um homem comum, possivelmente teria sido uma mistura de Vinicius, Glauber e Rauzito. Que venham muitos Correias de Melos, pacíficos, extravagantes e aculturados para habitar a atual Todavia!
Vita foi muito feliz em escolher o tema dessa obra. Adorei lê-la e rogo para que outras aconteçam.
Recomendo a leitura!
Fernando Vita

Nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 22 de dezembro de 1948. Lá iniciou seus estudos. Mudou-se em 1965 para Salvador, e em 1973 formou-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Iniciou sua vida profissional no extinto Jornal da Bahia, onde foi repórter, editor e crítico musical. Foi repórter da sucursal baiana do Correio da Manhã, freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e IstoÉ/Senhor. Nos anos oitenta escreveu crônicas semanais para o Jornal A Tarde e para o semanário Pasquim. Em 2006, com o romance Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela, recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte e teve seu primeiro livro publicado pelo selo Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge Amado. Pela Geração Editorial, lançou em 2011 Cartas Anônimas, uma história hilariante. O Avião de Noé, uma hilariante história de inventores, impostores, escritores e outros malucos de modo geral e Desirée a sexóloga que não sabia amar.