O texto fala sobre um misterioso crime cometido na avenida Copacabana, Rio de Janeiro, cuja provável testemunha era Princesa, uma pacata e fantasiosa moradora de rua.

Por ter sido saqueado, após a morte – se é que alguém pode ser roubado depois de se tornar defunto – o delegado Espinosa tentou convencer a sonhadora Princesa ajudá-lo a desvendar o crime, já que a identificação do morto ficou impossibilitada de ser realizada.

Testemunha dissimulada

Ocorre que a celeridade desejada pelo delegado não encontrou respaldo na provável testemunha.

A cada contato Princesa transformava a história do crime revelando uma nova paixão e quanto mais o tempo passava o delegado Espinhosa e sua equipe perdiam o rumo das investigações.

copacabana-2“…Delegado Espinosa?
— Bom dia, Welber — disse, reconhecendo a voz de seu colaborador.
— Bom dia, delegado. Desculpe a hora.
— Nenhum problema, já estou na rua. O que houve?
— O plantão recebeu um comunicado de que há um morto debaixo da marquise de um prédio na avenida Copacabana.
— E?
— Foi esfaqueado. O inspetor Hélio, que estava de plantão, me ligou. E estou aqui no local esperando a perícia.
— Por que você?
— Porque o cadáver foi saqueado. Levaram o paletó, o sapato e tudo o que ele tinha nos bolsos da calça.”

Resgate do corpo

O corpo da misteriosa vítima foi resgatado por uma mulher que apresentou documentos falsos e simulou ser a sua irmã deixando o delegado Espinosa em situação delicada.

“A irmã da vítima era um enigma para ele. Surgira na porta de seu gabinete, vinda de outro estado, movida por uma foto do irmão que encontrara na internet, sem saber que ele tinha sido assassinado havia um mês. Depois, sua única preocupação passara a ser o traslado urgente do corpo. Outra figura enigmática era Princesa. Duas esfinges, dois caminhos. Sem contar a própria vítima, cuja identidade fora determinada com os documentos trazidos pela irmã, mas cuja atividade profissional ainda era um mistério.”

Revelação de um sonho

Depois de muitas idas e vindas, versões e visões sobre o crime Princesa revela:

“…Você está me dizendo que o que acabou de me contar não aconteceu de verdade? Que foi tudo um sonho? Que você não viu nada disso naquele dia, mas apenas sonhou isso ontem? — perguntou Espinosa, irritado.
— Mas no sonho eu vejo as coisas acontecerem — disse Princesa desconsolada.
— Todo mundo vê coisas no sonho, mas são coisas que não aconteceram de verdade. Se no sonho você vê uma pessoa morrer, isso não quer dizer que a pessoa morreu.
— Foi por isso que ninguém morreu no meu sonho. O homem desceu do táxi e depois desapareceu. No meu sonho ele não morreu. Vocês é que disseram que ele estava morto. Vai ver o que morreu foi outro homem, e não o que desceu do táxi com a mala.”

Devolver a mala para o morto?

Posteriormente, uma nova versão para o fato. Princesa fantasia a sua participação no processo.

mala-1“Você não acha que ele pode ter fugido por causa da mala? 

— E por que ele ia fazer isso? Eu dei a mala para ele.

— Mas você não podia dar a mala. Ela não era sua. Era do homem que morreu.

— Pois então. Se o homem morreu, não era mais dono da mala. A mala ficou largada. Eu não podia devolver a mala para o homem, porque ele estava morto. Então dei para o Isaías. O Isaías pode fazer o que quiser com a mala.”

Ao final, Princesa continua envolvida em suas alucinações e o delegado Espinosa achincalhado por suas trapalhadas.

Quanto aos motivos do crime e seu desvendamento não cabe a revelação, mas, quando se trabalha com uma provável testemunha, cuja mente navega em planos diferentes dos normais, tudo pode acontecer.

Luiz Alfredo Garcia-Roza

luiz-alfredo-garcia-roza-1Nasceu em 1936, no Rio de Janeiro.

É formado em filosofia e psicologia, foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é autor de livros sobre psicanálise e filosofia.

Deixou a vida acadêmica para dedicar-se à ficção policial e às investigações do delegado Espinosa, personagem central de quase todas as suas histórias.

Seu romance de estreia, O silêncio da chuva (1996), recebeu os prêmios Nestlé de Literatura (1996) e Jabuti (1997). Escreveu Achados e Perdidos (1998), Vento Sudoeste (1999), Janela em Copacabana (2001), Perseguido (2003), Berenice procura (2005), Espinosa sem saída (2006), Na multidão (2007), Céu de Origamis (2009), Fantasma (2012) e Um lugar perigoso (2014).

Referência bibliográfica

Fantasma
Garcia-Roza, Luiz Alfredo, 1936
Fantasma / Luiz Alfredo Garcia-Roza – Editora Schwarcz – São Paulo – Brasil.
ISBN 978-85-8086-238-6
1. Romance brasileiro I. Título. II. Ciências Humanas e Sociais. III. Psicologia e Filosofia.