A história nos leva aos idos de 1958, época em que o autor completava dez anos.

Certamente, muitos dos registros foram fisgados da memória, outros lhes foram repassados em cartas recebidas dos pais, quando lhes impuseram abandonar Todavia, aventurando-se, com mala e cuia, na capital da Bahia.

Fernando Vita aborda, de forma hilária, mas com a intensidade merecida, temas que incomodam a população brasileira.

Práticas clandestinas do fabrico de fogos de artifício

fabrico-de-fogos-saj-1“Destamanho pipoco em domingo incomum …contudo, em Todavia, e até mesmo em alguns pequenos sítios não dela tão próximos, todos os que sabiam ouvir com os ouvidos ouviram um estrondo da porra, vindo das margens plácidas do rio da Dona, na manhã daquele domingo, 13 de junho de 1958,…”

A fabricação e a campanha de marketing que envolveu o lançamento do Uísque Caxias, nas barbas das omissas e interesseiras autoridades, terminou provocando uma ressaca tremenda nos convidados a experimentá-lo.

Milho, malte e centeio

Afinal, a Vinícola Caxias só sabia, muito mal, fabricar conhaque de alcatrão e vinagre.

O único que conhecia um pouco de uísque, em Todavia, era o inglês comprador de fumo para exportação.

Ao saber como o produto havia sido fabricado, apesar de ter sido convidado para o lançamento, lá não compareceu à festa de gala no Tênis Clube Social Todaviense.

“Loucura, presunção e ingenuidade juntas, eis aí o resultado: logo no teste do produto, quase que morre gente intoxicada. É no que dá pensar-se que a água da Fonte de Santinho é igual à das terras altas da rainha; que milho de canjica é o mesmo que malte escocês; que alumã é que nem centeio…”

Observador, contumaz, dos movimentos culturais, Vita, se apoquenta com o aniquilamento dos poucos monumentos históricos de Todavia.

Cinema e estação de trem

cine-gloria-1

Derrubar o Cine Glória, palco do precário ensinamento artístico da província, sem dúvida, foi destroçar parte da referência da cidade.

Igual destino foi dado ao prédio da estação de trem, que serviu de transporte para o autor ao mudar-se, com mala de couro, fedorenta, para a capital da Bahia.

Sinceramente, eu, também, não engoli aquela demolição!

ginasio-nossa-senhora-de-fatima-1

Todas as vezes que à Tovadavia me vou, passo na rua Ruy Barbosa para me dar conta da existência do prédio do Colégio Nossa Senhora de Fátima, no qual sentei minha bunda nas cadeiras duras em busca de conhecimento.

Tenho a impressão que aquele prédio que abrigou a minha instituição não vai durar muito tempo… Derrubá-lo-ão!

 

Bravura de Caxias

O autor, debochando das autoridades, registra o evento que marcou a primeira tentativa de voo do invento de Noé, escolhe o capitão Ludovico, comandante do Tiro de Guerra 115 – o mesmo que na Revolução de 1964 mandou avisar, na véspera, aos parcos comunistas de Todavia que no dia seguinte iria prendê-los, é óbvio que não achou ninguém em casa para deter. Disse Ludovico, antes de liberar Noé para a peripécia.

“Vai, Noé, pelos ares da pátria, com a mesma coragem cívica e disposição bravia de um Caxias, de um Floriano, de um Deodoro e leva o galardão cívico de Todavia aos píncaros dos céus,…”

Noé pro céu não foi, sua máquina do chão não saiu…

Execrando autoridades

O autor enriquece a história fazendo uso de figuras quase folclóricas em Todavia: Dodô da Bicicleta, Edgar Barbeiro, Zeca Mefessi, Nego Mário, Tozinho, Faustino, Paulo Sóter, Ludovico, Bomfim Mercês, Bezerra, além de outros que se tornaram personagens importantes no contexto, contudo oferece um espaço benévolo ao monsenhor Galvani.

Sempre que possível, Vita, o introduz na história, hora execrando a autoridade eclesiástica, hora expondo-a como um bobo da corte, ou revelando sua sapiência interesseira.

A cidade sossegada que foi a minha Todavia e a Todavia do autor foi transformada em um shopping center a céu aberto.

Sinto-me sem referências quando a visito, incomodado com os desmandos e descaso cultural.

O povo não mais a tem como pátria amada, conseguiram destruir tudo, vendendo o que, erroneamente, chamam de progresso.

Não fosse isso eu iria iniciar uma campanha para substituir o seu verdadeiro nome (SAJ) para Todavia, contudo, certamente, seria uma imprudência de um filho de uma Todavia tão bem retratada e historiada pelo autor.

Mais uma bela história, companheiro, compartilho de seu desabafo!

Que venham muitas outras…

Fernando Vita

fernando-vita-1Nasceu em 22 de dezembro de 1948, em Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil.

Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou no Jornal da Bahia como repórter, editor e crítico musical.

Foi repórter freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e Istoé/Senhor.

Escreveu Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela. Recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte.

 

Referência bibliográfica

o avião de noéVita, Fernando
O Avião de Noé / Fernando Vita. – São Paulo. Geração Editorial, 2014.
240p.
ISBN 978-85-8130-248-5
1. Ficção brasileira – I. Título.
(R)

cartas-anonimas-3A divertidíssima história de uma cidade, que de fictícia só tem o nome, contada por Fernando Vita, registra fatos ocorridos quando o autor, ainda adolescente, ouviu e acompanhou o desenrolar de boatos que serviram para ocupar os desocupados e irritar os que, de alguma forma, cometiam deslizes, deixavam escapar sentimentos amorosos ou preferências sexuais.

Muito pouco do que eu me recordo passou despercebido pelo autor.

Palco da narrativa

santo-antonio-de-jesus-2O texto escrito em linguagem direta, com citações comuns em mesas de bares de cidades provincianas, a exemplo da que serviu de palco para desenrolar a narrativa, não agridem os tímpanos do leitor, devido à habilidade do autor em contar fatos ocorridos de forma hilária e desprovidos de ofensa.

Cada história se desenvolve de maneira única e terminam se entrelaçando.

As cartas anônimas, apresentadas como simples fotografias, se transformam em uma engraçada película.

O romance coloca a belíssima e desejada Boneca no centro de um contexto, fruto do imaginário do autor. Afinal, diz o autor tratar-se de uma ficção.

Personalidades e ‘meus prazeres’

Na cidade desprovida de heróis, citada por Fernando Vita, a bem da verdade existiu um.

Faça-se justiça: um dos estafetas citados no texto, Chebeu, foi agraciado com um emprego federal nos Correios e Telégrafos devido ao fato do seu pai, herói de guerra, ter lutado na Segunda Guerra Mundial.

santo-antonio-de-jesus-3O juiz Efraim, o grão-mestre Clinésio, Nadinho da Jegra, tenente Ludovico e Teófilo que tinha por profissão ser marido da professora, adornam a história de forma espirituosa.

Esse último, ao ser apresentado às pessoas dizia:

“– Sinta em suas partes os meus prazeres! Teófilo Amândio, seu criado, marido da professora Dina Gazinha, às suas ordens.”

O autor não deixou escapar a Madre Rosário, encarregada do convento que abrigava a jovem, bela e radiante Madre Maria Goretti, respeitadas obreiras educacionais.

O ócio, a vida alheia e os bêbados

santo-antonio-de-jesus-1As cartas anônimas chamavam a atenção dos desocupados que amavam comentar sobre a vida alheia.

Os conteúdos saíam dos papéis e circulavam de boca em boca acrescidos da imaginação e do azedume de quem os repicavam.

Há que perdoar os habitantes de Todavia (SAJ), afinal, nada se tinha a fazer à época.

O gerador que iluminava a cidade era desligado às vinte horas e na calada das noites enluaradas os cantores, tocadores, bêbados, políticos, poetas de meia tigela, desocupados por falta de trabalho e opções de lazer se encontravam nos bancos de jardins, botecos e puteiros – iluminados por candeeiros da marca Aladim – para comentarem sobre vidas de muitos que dormiam e de outros que perdiam o sono por terem seus nomes incluídos em muitas das Cartas Anônimas.

O livro, rico em humor, traz uma linguagem simples a exemplo dos moradores da antiga província.

Sem sombra de dúvida, é uma leitura divertidíssima para não dizer imperdível!

O risco é despertar, nos atuais moradores, a antiga prática das Cartas Anônimas, tão bem contadas por Fernando Vita.

Fernando Vita

fernando-vita-1Nasceu em 22 de dezembro de 1948, em Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil.

Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia.

Trabalhou no Jornal da Bahia como repórter, editor e crítico musical. Foi repórter freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e Istoé/Senhor.

Escreveu Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela e O Avião de Noé.

Recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte.

 

Referência bibliográfica

Vita, Fernando
Cartas Anônimas: uma hilariante história de intrigas, paixão e morte / Fernando Vita. – São Paulo. Geração Editorial, 2011.
181p.
ISBN 978-85-61501-60-0
1. Ficção brasileira – I. Título.
(R)