O texto denuncia a história do Colônia, considerado o maior hospício existente no Brasil.

Localizado no município de Barbacena, Minas Gerais, a cidade recebeu a unidade hospitalar como prêmio lenitivo por ter perdido a disputa com Belo Horizonte para sediar a capital do estado.

Terminou ganhando a denominação de capital da loucura.

estacao-de-trem-barbacena-1Estação de trem

A exemplo do que ocorria com os judeus nos campos de concentração nazistas de Auschwitz, o Colônia recebia pessoas de todo o país em vagões de trem, ônibus e viaturas policiais, pelos mais diversos motivos.

 

“Os recém-chegados à estação do Colônia eram levados para o setor de triagem. Lá, os novatos viam-se separados por sexo, idade e características físicas. Eram obrigados a entregar seus pertences, mesmo que dispusessem do mínimo, inclusive roupas e sapatos, um constrangimento que levava às lágrimas muitas mulheres que jamais haviam enfrentado a humilhação de ficar nuas em público. Todos passavam pelo banho coletivo, muitas vezes gelado. Os homens tinham ainda o cabelo raspado de maneira semelhante à dos prisioneiros de guerra.”

colonia-barbacena-3A colônia

O Colônia foi criado em 1903 e encerrou suas atividades em 1994.

Nela foram jogadas vítimas do preconceito, da conveniência familiar e do desconhecimento médico.

Pessoas eram levadas ao hospício devido a sinais de tristeza, timidez, homossexualidade, valores familiares equivocados a exemplo da perda da virgindade antes do casamento, arruaça, falta de espaço nas delegacias policiais e outros motivos banais.

Comércio dos corpos

A grande maioria saia de lá para o cemitério ou vendida, como cadáveres, para instituições de ensino, cuja renda era destinada à manutenção da entidade.

O retorno ao convívio familiar era considerado impossível devido à pecha impregnada aos hóspedes daquele inferno, que muito raramente e pequeníssima minoria recebia visitas de familiares.

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“Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio do Colônia. O objetivo era que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas.”

 

Ações políticas

O presidente Jânio Quadros, em 1961, incomodado com o diagnóstico do tratamento psiquiátrico no país promoveu ações para reverter a situação, mas, apesar dos movimentos opostos aos procedimentos usuais nos manicômios o ‘tiro de misericórdia’, no Colônia, só aconteceu em 1994, com a desativação da última cela, após vitimar aproximadamente 60 mil brasileiros entre 1930 e 1980.

Extinção dos manicômios

“De lá para cá, os discursos ganharam novo viés, como a necessidade de extinção dos leitos de baixa qualidade, com a garantia de contratação de leitos psiquiátricos em hospitais gerais. E apesar dos equívocos e acertos na construção de um novo paradigma para a saúde pública, a loucura ainda é usada como justificativa para a manutenção da violência e da medicalização da vida. É como se a existência pudesse ser reduzida à sua dimensão biológica e para todos os sentimentos existisse um remédio capaz de aliviar sintomas e de transformar realidade em fuga.”

Reforma dos hospícios

Apesar das manifestações no meio acadêmico que instigaram a necessidade de reforma nos tratamentos psiquiátricos a Lei Federal 10.216 só foi sancionada em 2011, com críticas, contundentes, de personalidades intelectualizadas da sociedade brasileira.

O documento, riquíssimo em detalhe, retrata uma realidade vergonhosa e acena à reflexão de outros holocaustos a exemplo dos que ocorrem nos presídios e nos procedimentos públicos relativos a usuários de droga. Nos convida a uma reflexão sobre a ‘lavagem cerebral’ imposta pela mídia preconceituosa, excludente e conveniente.

O texto, atual, é de uma excelência invejável e deve ser lido pelos sociólogos de plantão.

Onde comprar

Holocausto Brasileiro – Livraria Cultura

Holocausto Brasileiro – Livraria da Folha

Holocausto Brasileiro – Extra

Daniela Arbex

daniela-arbex-2Nasceu 19 de abril de 1973 em Juiz de Fora, Minas Gerais. É formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1995, iniciou a carreira no jornal Tribuna de Minas.

Conseguiu reconhecimento para o seu trabalho de repórter investigativa, especialmente a partir da série Cova 312, publicada em 2002.

A investigação sobre a sepultura do guerrilheiro Milton Soares de Castro, dado como desaparecido durante a Ditadura Militar, ganhou o Prêmio Esso, além de menções honrosas no Prêmio Vladimir Herzog e no Prêmio Lorenzo Natali.

Tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série “Holocausto brasileiro”, o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa).

Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa).

Referência bibliográfica

holocausto brasileiroArbex, Daniela, 1973
Holocausto brasileiro / Daniela Arbex. 1. Ed. – São Paulo: Geração Editorial, 2013.
ISBN 978-85-8130-156-3
1. Direitos humanos – Violação 2. Genocídio 3. Hospitais psiquiátricos 4. Hospital Colônia – Barbacena (MG) – História 5. Livro-reportagem 6. Pacientes hospitalizados – Maus-tratos I. Título.