O autor nos instiga a refletir sobre o universo subjetivo e a relação intima que o ser humano trava consigo mesmo derivando na prática de ações e entendimentos fictícios, que levam ao autoengano e terminam por fortalecer e sustentar situações que contribuem para o bem-estar psicológico e social.

Armadilhas naturais

camaleao-1Toma por base a defesa exercida por seres da natureza para exemplificar as armadilhas, praticadas por plantas e animais, objetivando a preservação das espécies, muitas das quais conduzem à prática do autoengano na forma devastadora, a exemplo das doenças auto degenerativas.

Lembra, também, sobre o uso de medicamentos como forma de enganar os organismos e terminam por inibir a realidade dos fatos, a exemplo do uso de analgésico e anticoncepcionais.

O autoengano ocorre de forma inconsciente, numa relação traiçoeira que difere da ação de enganar o outro.

Quando a mentira parece verdade

Enganar a si mesmo parte da premissa da ausência do autoconhecimento, que nos desobriga de acreditarmos no que não cremos, ou seja: mentimos para nós mesmos e acreditamos, na mentira, como se verdade fosse, rumo à objetivos que “acreditamos” capazes de alcança-los.

A conveniência impõe-se ao texto

O autor lembra que a concepção do pensamento, quando exposto no texto, é refletida no leitor de forma reconstruída conveniente como à sua consciência.

ler-1“Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido — o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos — pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. ”

Natureza cega

Fala sobre a falta de concessões da natureza quando se trata da preservação da espécie.

“A natureza submete tudo o que vive ao jugo de duas exigências fatais: manter-se vivo e reproduzir a vida. (…) ao que tudo indica [a natureza] , é cega, perseverante e desprovida de escrúpulos. Um organismo simplesmente fará tudo o que estiver ao seu alcance para saciar suas necessidades prementes. 
(…) A arte do engano — o uso pelo organismo de traços morfológicos e de padrões de comportamento capazes de iludir e driblar os sistemas de ataque e defesa de outros seres vivos — é parte expressiva do arsenal de sobrevivência e reprodução no mundo natural. ”

Quem enganou, Deus, Adão ou Eva?

Afirma que a arte do engano não carece de intencionalidade ou premeditação.

adao-e-eva-1“No princípio foi o engano. Difícil é saber quem enganou quem. Primeiro Adão, envergonhado de seu ato, tenta enganar a Deus: esconde-se com Eva entre as árvores do Éden. Descoberto, contudo, ele admite perante Deus a traição da promessa de não tocar o fruto proibido. O que Adão tenta, então, é eximir-se da culpa acusando Eva de tê-lo oferecido sedutoramente a ele. Eva, por sua vez, responde à interpelação divina apontando o dedo acusador para a serpente: foi ela quem a teria enganado e persuadido a provar o fruto. A serpente, porém, o que disse? Ela contou a Eva que a ameaça feita por Deus era enganosa — que eles não morreriam ao comer o fruto, mas que os seus olhos se abririam e eles se tornariam semelhantes a Deus no discernimento do bem e do mal. (…) Conclui-se, então, que Deus mentiu? Que tentou abafar a aspiração humana de conhecimento e transcendência com uma falsa ameaça? Não necessariamente. No sentido literal da verdade, por estranho que pareça, a serpente foi mais honesta que Deus. O que transparece, contudo, é que a morte a que Deus se referia em sua ameaça não era a morte súbita e literal do organismo, mas a consciência antecipada da morte — a experiência aguda da amarga condição de finitude que nos junta e separa, liga e arranca da união com tudo o que vive…”

Próprio inimigo

Sobre a tragédia humana o autor cita.

“Tanto individual como coletivamente, o animal humano transformou-se em milagre e enigma aos seus próprios olhos. Conquistou o privilégio divino de suas potencialidades e a prerrogativa trágica de ser o pior inimigo de si mesmo. ”

Nas adversidades, o autoengano aparece como alternativa à sobrevivência.

“O dom de mentir com sucesso para si mesmo pode ajudar a manter a chama da vida acesa nos momentos em que a sobrevivência está por um fio. O doente grave ou terminal que entrega os pontos e se rende por completo à probabilidade avassaladora da morte iminente está praticamente morto. Mas o doente que, apesar de toda a evidência em contrário, sustenta no íntimo de sua alma a convicção cega, firme e inabalável de que vai conseguir vencer o mal parece aumentar as suas chances objetivas de recuperação. ”

A fronteira da liberdade

Sobre a morte o autor a descreve como o ponto final da vida.

“A morte é a fronteira da liberdade. Ela não é o alvo da vida, mas o seu ponto final. Morrer nos priva de um universo de possibilidades à nossa frente: tudo o que ainda poderia ser, mas não mais será. ”

O texto, rico em detalhes, nos oferece uma reflexão sobre a mente humana e a oportunidade de nos reposicionarmos sobre a observação dos movimentos da natureza na busca da sobrevivência e preservação das espécies.

Conclui-se, portanto, que sempre que a dúvida surge o indivíduo provoca um contraponto ao autoengano e possibilita um desconforto capaz de leva-lo à realidade dos fatos.

Eduardo Giannetti

eduardo-giannetti-1Nasceu em Belo Horizonte em 1957.

É formado em economia e em ciências sociais pela USP e PhD em Economia pela Universidade de Cambridge.

Foi o vencedor do Prêmio Jabuti de 1994 na categoria Estudos Literários (Ensaio) com o livro Vícios privados, benefícios públicos, e no Jabuti de 2006 ficou em segundo lugar na categoria Economia, Administração, Negócios e Direito com livro O valor do amanhã (2005).

Outras obras escritas por Giannetti: Beliefs in action (1991), Auto-engano (1997), Felicidade (2002), O Livro das Citações (2008), A Ilusão da Alma (2010), O Mercado das Crenças (2003), O Valor do Amanhã (2005).

Referência bibliográfica

Auto.engano.1Gannetti, Eduardo, 1957
Auto-engano: romance / Eduardo Giannetti – Companhia das Letras – Rio de Janeiro – Brasil, 1997.
ISBN 978-85-8086-658-2
1. Romance brasileiro I. Título. II. Ciências Humanas e Sociais. III. Psicologia e Filosofia.