O protagonista estabelece uma relação com a filha de um bem sucedido empresário, que tenta subjuga-lo.

Convence a sua esposa, Maria Clara, a manter-se afastada dos negócios da família e decide construir uma vida independente.

Jantar, sal e toalha

As inúmeras críticas do supersticioso sogro estimularam uma acirrada competição, sempre acomodada pela leniência da sua esposa.

“Uma noite, durante o jantar, pedira o saleiro para temperar a salada, a copeira enchera demais o vidrinho, ao retirar a tampa ele deixara cair uma meia-lua de sal sobre a toalha.
Bastou isso. O velho, apoplético, abandonara a cabeceira, viera com o guardanapo catar o sal, esfregar a faca na toalha, até puí-la. Depois, comandou a família na retirada da toalha, houve polêmica sobre se bastava sacudi-la ou queimá-la, na dúvida, o velho ordenou:
— Queimem a toalha! Não brinco com essas coisas! Tem dado certo até agora, se a gente começa a facilitar, as coisas mudam e eu termino passando fome na rua!”

Relação inesperada

cabo-frioCom uma vida financeira razoável decide construir uma casa de praia em Cabo Frio, e, em vez do plano possibilitar momentos de felicidade e descontração terminou contribuindo para aflorar descontentamentos.

As discordâncias começaram na concepção do projeto arquitetônico e a desconfiança foi instigada depois da visita de Pepino, um amigo dos filhos, logo que inaugurou a casa.

Prostrado numa cama o sogro exigiu a presença da filha enquanto Luís aproveitava da exigência para dar manutenção na casa e afastar-se do convívio.

Foi que, do nada, apareceu Dréia e lhe envolveu numa relação inusitada.

“Acabara de discutir com Maria Clara, duelo de palavras e sentidos ocultos, e, além disso, traz em seu corpo o cansaço de ter lutado contra o desejo de agarrar Dréia na casa dela, e possuí-la, como ela quase pedia para ser possuída.”
“Descobre, com amargura, que de agora em diante jamais será completo com ela. Sente-se penetrado por um punhal estranho e não querido, punhal que lentamente vai sendo assimilado, integrando-se em seu gosto, em sua fome.
— Bom, desço amanhã, ou depois. Até lá.
— Até lá.
A impressão é de que desligaram ao mesmo tempo, cansados reciprocamente de se esconderem atrás das palavras.”

Relação conflituosa

Os conflitos, insatisfações e desconfianças agitam a cabeça do protagonista que termina surpreendido com a decisão da esposa de ultimar a relação.

Na última noite, que ficaram juntos, o protagonista resolve anotar os sentimentos e perspectivas.

“Isso poderia ser o início ou o fim de um romance — e o é realmente, início e fim ao mesmo tempo. Afinal, terminamos o nosso prazo, esgotamos a clemência que atiramos um ao outro como esmola ou paga — e amanhã fecharemos essas portas e janelas e nunca mais retornaremos, nunca mais repetiremos o rito de verões e invernos que juntos consumimos, apoiados em nossos medos e redimidos em nossas alucinações.”
“Tudo passou depressa, parece que foi ontem que aqui chegamos e abrimos essas janelas que agora fecharemos e que tão cedo não se abrirão — e serão mãos estranhas que abrirão essas janelas para outros rostos receberem outros ventos.”

Ao final o autor decide fechar fisicamente as portas e janelas e deixar abertas as expectativas para novas relações.

“É certo, a vida logo se recomporá. Com mais ou menos sorte, continuaremos íntegros — e isso é o que importa. Talvez sejamos melhores que agora, mais plácidos, ou mais conformados.”

O texto refere-se às frustrações criadas a respeito dos projetos familiares, comum a muitos casais.

Carlos Heitor Cony

carlos-heitor-cony-1Nasceu no Rio de Janeiro em 14 de março de 1926 é jornalista e escritor filho de Ernesto Cony Filho e Julieta Moraes Cony.

Foi seminarista, cursor a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil e teve sua primeira experiência como jornalista no Jornal do Brasil.

Trabalhou como funcionário público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro até 1952, quando se tornou redator da Rádio Jornal do Brasil em 1960 entrou para o Correio da Manhã.

Foi preso por seis vezes ao longo do período do regime militar devido aos editoriais e textos escritos no Correio da Manhã criticando aos atos da ditadura militar.

Cony publicou contos, crônicas e romances.

Seu romance mais famoso é de 1995, Quase Memória, que vendeu mais de 400 mil exemplares. Esse livro marca seu retorno à atividade de escritor/romancista.

Seu romance, A Casa do Poeta Trágico (1997), foi escolhido o Livro do Ano, obtendo o Prêmio Jabuti, na categoria ficção.

Além dos citados romances o escritor escreveu O Ventre (1958), A Verdade de Cada Dia (1959), Tijolo de Segurança (1960), Informação ao Crucificado (1961), Matéria de Memória (1962), Antes, o Verão (1964), Balé Branco (1965), A Travessia (1967), Pilatos (1973), O Piano e a Orquestra (1996), Romance sem Palavras (1999), O Indigitado (2001), A Tarde da sua Ausência (2003), O Adiantado da Hora (2006), A Morte e a Vida (2007) além das crônicas Da Arte de Falar Mal (1963), O Ato e o Fato (1964), Posto Seis (1965), Os Anos mais Antigos do Passado (1998), O Harém das Bananeiras (1999), O Suor e a Lágrima (2002), O Tudo ou o Nada (2004), Para ler na Escola (2009), e os Contos Babilônia! Babilônia! (1978) e O Burguês e o Crime e Outros Contos (1997).

Referência bibliográfica

antes, o verãoCony, Carlos Heitor – 1926
Antes, o verão [recurso eletrônico] / Carlos Heitor Cony. – Rio de Janeiro : Objetiva, 2010.
Recurso digital
Formato: ePub
121p.
ISBN 978-85-7962-039-3 (recurso eletrônico)
1. Romance brasileiro. 2. Livros eletrônicos. I. Título.