No século dezenove, um rapaz da alta sociedade inglesa teve o seu retrato pintado por um artista que considerava a obra sua mais importante criação.

Ao deparar-se com o retrato, o jovem Dorian Gray encantou-se com a própria beleza e o pintor Basil Hallward e o nobre Henry Wotton encarregaram-se de instigar o seu ego.

É possível mudar o destino?

o-retrato-de-dorian-gray-1“Que coisa profundamente triste (…) eu ficarei velho, aniquilado, hediondo!… Esta pintura continuará sempre fresca. Nunca será vista mais velha do que hoje, neste dia de junho… Ah! Se fosse possível mudar os destinos; se fosse eu quem devesse conservar-me novo e se essa pintura pudesse envelhecer! Por isso eu daria tudo!… Não há no mundo que eu não desse… Até minha alma!…”

Convicto do que disse, Dorian Gray pactuou com o diabo e manteve-se jovem e belo enquanto o seu retrato envelhecia.

Paixões

o-retrato-de-dorian-gray-4Basil Hallward apaixonou-se pelo jovem e disputou com o amigo Henry Wotton a sua atenção.

A beleza do protagonista encantava a todos e lhe permitia usufruir de privilégios a ponto de manter vários e extravagantes relacionamentos amorosos.

 

o-retrato-de-dorian-gray-3Certa noite, convidado por um empresário de segunda categoria, adentrou em um teatro e se deparou com Sibyl Vane, pobre e desconhecida atriz, pela qual terminou se apaixonando.

Decidido a casar-se com ela, convidou os amigos Basil e Henry para vê-la representar e, surpreendentemente, após a sua péssima participação na peça, veio o desapontamento que resultou no rompimento da relação.

Pacto com Lúcifer

o-retrato-de-dorian-gray-6Em seguida, ocorreu um episódio que interferiu na vida do egocêntrico protagonista.

Enquanto o misterioso retrato envelhecia, em consequência do pacto feito com o demônio, o excêntrico protagonista permanecia jovem e levava a vida desregrada a ponto de aniquilar com o autor da obra e romper com o nobre Henry Wotton.

Oscar Wilde, chamar a atenção para os enganos sociais que enaltece os valores estéticos em detrimento da moral e da ética.

Mostra, com sutileza, a natureza como ela.

“No assoalho, jazia um homem morto, trajado a rigor com um punhal no coração!… Seu semblante estava macerado, enrugado e repelente!… Somente pelos anéis, conseguiriam reconhecer quem era…”

O texto publicado em 1890, na Inglaterra, permanece atual e rico de ensinamentos.

O único romance de Oscar Wilde não foi bem recebido pela sociedade da época, devido às insinuações homossexuais. Este fato o levou à prisão.

O rígido e insalubre sistema carcerário consumiu a sua saúde e, após três anos da sua soltura, veio a falecer.

Leitura recomendadíssima!

Oscar Fringall O’Flahertie Wilde

oscar-fringall-oflahertie-wilde-1

Oscar Wilde nasceu em 16 de outubro de 1854, na cidade de Dublin, República da Irlanda.

Estudou na Portora Royal School de Enniskillen, no Trinity College de Dublin e no Magdalen College de Oxford, Ingelaterrra, onde permaneceu até 1878.

Em Londres teve uma vida social bastante agitada e foi marcado pelas atitudes extravagantes.

Foi aos Estados Unidos proferir uma série de palestras sobre o esteticismo – movimento artístico deflagrado na Europa, século XIX, que enfatizou os valores estéticos em detrimento de temas sociais nas artes – visto como uma antecipação do modernismo.

oscar-fringall-oflahertie-wildeCasamento

Em 1883, vai para Paris e entra para o mundo literário local.

De volta à Inglaterra casa-se com Constance Lloyd, filha de um rico advogado de Dublin.

O casal morou em Chelsea, um bairro de artistas londrinos, e tiveram dois filhos, Cyril (em 1885), e Vyvyan (em 1886).

Dramaturgia

Em 1892, começa uma série de bem-sucedidas histórias, hoje clássicos da dramaturgia britânica: O leque de Lady Windermere (1892), Uma Mulher sem Importância (1893), Um Marido Ideal e A importância de ser Prudente (1895).

Contos e romance

Publicou contos como O Príncipe Feliz, o Gigante Egoísta e O Rouxinol e a Rosa, que escrevera para os seus filhos, e O crime de Lord Artur Saville.

Em seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, considerado por críticos como obra-prima da literatura inglesa, Oscar Wilde trata da arte, da vaidade e das manipulações humanas.

A fama de Oscar Wilde veio junto com a melhoria financeira e o sucesso literário foi seguido de uma vida mundana e cheia de excentricidades.

Logo após o lançamento do romance pela Lippinoctt’s, a crítica literária denigriu o trabalho do autor. Algumas resenhas forma publicadas de forma enfática de forma a combater as insinuações homossexuais da obra. Afinal, à época era coisa impensável de ser debatido muito mais publicado.

A pratica homossexual passou a ser considerado crime na Inglaterra e por muitos anos combatida e punida com prisão.

doryan-gray

Resenha de Daily Chronicle

Sobre a publicação do livro pela Lippincott’s:
“Parte suja, embora inegavelmente divertida, é fornecida pela história do sr. Oscar Wilde intitulada O retrato de Dorian Gray. Ela tem sua origem na literatura leprosa dos decadentes franceses – uma obra venenosa, cujo atmosfera está carregada dos odores mefíticos da putrefação moral e espiritual – um estudo, escrito com prazer malévolo, sobre a corrupção física e mental de um jovem belo e impoluto que poderia ser fascinante não fosse por sua frivolidade afeminada, pela insinceridade estudada, por seu cinismo teatral, seu misticismo barato, suas verbosas elucubrações filosóficas… O sr. Wild diz que o livro tem “uma moral”. A “moral”, tanto quanto somos capazes de perceber, é que o principal objeto do homem consiste em desenvolver sua natureza ao máximo “buscando sempre novas sensações”, e que, quando a alma adoece, o modo de curá-la é não negar aos sentidos.”

Resenha de W. E. Henley

Outro comentário da época, publicado no Scots Observer, revista literária respeitável, pelo poeta e crítico W. E. Henley:
“Por que fuçar me montes de estrume? P mundo é justo, e é grande a proporção de homens e mulheres de mentes sã quando comparada com a dos que as têm sujas, decaídas ou anormais. O sr. Oscar Wilde mais uma vez escreve coisas que não deveriam ser escritas; e, conquanto O retrato de Dorian Gray, publicado pela Lippincott’s , seja uma obra engenhosa, interessante, cheia de talento e sem dúvida o trabalho de um homem de letras, não deixa de ser o produto de uma arte falsa – pois seu interesse é médico-legal; é falsa em termos da natureza humana – pois seu herói é um demônio; e é falsa em termos morais – pois não fica suficientemente claro se o autor prefere uma trajetória de iniquidade anormal a uma vida limpa e saudável do ponte de vista físico e mental. A história – que trata de questões apropriadas apenas para o Departamento de Investigações Criminais ou uma oitava in câmera – é desonrosa tanto para o autor quanto para o editor. O sr. Wilde possui inteligência, arte e estilo; mas se só pode escrever para nobres fora da lei e jovens telegrafistas pervertidos, quanto mais cedo ele de dedicar à profissão de alfaiate (ou outra profissão decente), melhor para sua própria reputação e para a moral pública.”

Os julgamentos e prisão

oscar-fringall-oflahertie-wilde-2Por ser homossexual e ter praticado atos considerados imorais, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados.

Na prisão escreveu uma denúncia contra um dos seus amantes o Lorde Alfred Douglas, filho do Marquês de Queensberry, que levou Oscar Wilde ao tribunal.

Após a condenação a vida mudou radicalmente e o talentoso escritor viu, no cárcere, serem consumidas a saúde e a reputação.

No presídio, o autor produziu De Profundis, A Alma do Homem sob o Socialismo e a célebre Balada do Cárcere de Reading.

Foi libertado em 19 de maio de 1897 e passou a morar em Paris. Usou o pseudônimo Sebastian Melmoth e assumiu uma postura mais discreta.

Oscar Wilde morreu de um violento ataque de meningite, agravado pelo álcool e pela sífilis no dia 30 de novembro de 1900.

Foi enterrado no Cemitério de Bagneux, fora de Paris, porém mais tarde foi movido para o Cemitério de Père Lachaise.

Referência bibliográfica

Wilde, Oscar, 1854 – 1900
O retrato de Dorian Gray / Wilde, Oscar 1854 – 1900.
252p.
Tradução de: João do Rio – São Paulo: Hedra; 2009 Biografia.
ISBN 85-7715-011-9
Literatura inglesa. I. Ficção
(R)