O que os psiquiatras não te contam – Juliana Belo Diniz

É normal quando o cérebro produz emoções em resposta às condições nas quais estamos imersos, mesmo quando, aparentemente, possa parecer um distúrbio emocional.

O metabolismo e as variações genéticas podem acarretar resultados não esperados quando do uso de determinas substâncias direcionadas a amenizar o sofrimento da ansiedade e da depressão. Por outro lado, a atenção prestada por profissionais qualificados que nos ofereça segurança pode dar a impressão de melhora do bem-estar, mesmo que a realidade não se altere.

“Reduzir tudo ao funcionamento do cérebro obscurece outras fontes importantes de impasses e conflitos: pressões sociais, situações de ameaça à sobrevivência, mudanças climáticas, vivências de racismo e privação, opressão política, ausência de suporte comunitário ou familiar, regimes de trabalho exaustivos, cerceamento das liberdades, aglomerações urbanas precárias, migrações forçadas, solidão extrema, entre outros. E esses são só alguns exemplos de estressores que não podem ser resolvidos com a manipulação dos neurotransmissores. Nem era essa a expectativa inicial daqueles que deram os primeiros passos na história da psicofarmacologia. Mas a criatura não seguiu os passos previstos pelos seus criadores, e aqui estamos nós, nos esforçando para desmistificar a psiquiatria, ou aquilo em que ela se transformou a partir dos efeitos dos remédios, além de reiterar que não é intensificando a busca por problemas no cérebro que encontraremos as soluções para todos os males.”

A dificuldade do tratamento dos distúrbios mentais esbarra na impossibilidade de se aferir o resultado das experiencias farmacológicas. Diferentemente de outras doenças cujo acompanhamento e a análise do resultado podem revelar, através de parâmetros, o sucesso ou insucesso da condução clínica, nos tratamentos dos distúrbios mentais se faz necessária uma parceria do médico com o paciente. Ainda que os mesmos sintomas se apresentem em vários pacientes a química e a dosagem dos medicamentos podem ser diferentes. A genética colabora para fugir do padrão esperado.


“Hoje, sabemos que todas as doenças psiquiátricas são características complexas e que nenhuma delas é ou será explicada completamente por fatores biológicos isolados.”
“Para receber o diagnóstico de depressão, por exemplo, é preciso ter, por pelo menos duas semanas, humor depressivo ou perda do prazer por atividades que costumavam ser prazerosas, mais sintomas acessórios como insônia ou sonolência excessiva, perda ou ganho de peso, fadiga ou inquietação motora, ideias de culpa excessiva etc. Esses sintomas devem causar sofrimento significativo e prejudicar a vida social, pessoal ou profissional, além de não poderem ser explicados por uma doença física descompensada, como, por exemplo, deficiências hormonais. Esses critérios não descrevem o fenômeno depressivo em todos os seus detalhes, são apenas normas operacionais.”

Ignorar a ciência porque não houve sucesso no tratamento do ansioso e do deprimido não ajuda a amenizar o sofrimento. Considerar os aspectos culturais, sociais e econômico em que o paciente está inserido é de fundamental importância.
Apesar do texto versar sobre muitos aspectos científicos a leitura por leigos (me incluo) ajuda a desmitificar o tema.
Recomendo a leitura!

Juliana Belo Diniz é doutora em psiquiatria pela Universidade de São Paulo (2011) e especialista em pesquisa clínica pela Universidade Harvard. Concluiu o pós-doutorado em 2014 e atua como psiquiatra clínica, psicoterapeuta e pesquisadora do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-USP).

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