A Morte e a Morte de Quincas Berro D’agua
– Jorge Amado

Joaquim Soares da Cunha, conhecido pela alcunha de Quincas Berro D’Agua por ter berrado, no Mercado Modelo, após engolir um copo cheio de cachaça, foi funcionário público e ao se aposentar decidiu abandonar a família por não suportar as pressões da mulher e da filha.

Rei dos vagabundos

Cercado de amigos que conquistou nos ambientes mais promíscuos da cidade de Salvador manteve uma vida intensa de boemia e ficou conhecido como Rei dos Vagabundos da Bahia.

Por sua habitualidade ficou conhecido e adorado nos puteiros mais famosos da cidade, terminou morrendo em um deles.

Velório

a-morte-e-a-morte-de-quincas-berro-dagua-2Enquanto Vanda, sua filha, pensou em levar o corpo do pai para casa e realizar um velório à altura da importância social da família, seu esposo procurou demovê-la da ideia argumentando que o sogro não merecia tamanha dedicação diante do sofrimento causado aos familiares por ter levado uma vida boemia e promíscua.

Mesmo ressentida com a indiferença do pai, Vanda contratou os serviços de uma funerária que se encarregou de alterar, para melhor, mesmo morto, a aparência do Berro D’Agua.

“Penteado, barbeado, vestido de negro, camisa alva e gravata, sapatos lustrosos, era realmente Joaquim Soares da Cunha quem descansava no caixão funerário – um caixão régio (constatou satisfeita Vanda), de alças douradas, com uns babados nas bordas.”

Greve de sexo

A notícia circulou de boca em boca pela cidade até reunir os amigos de farra para o velório, várias mulheres deixaram de receber homens naquela noite e a cidade começou a beber mais cedo do que o habitual, tudo em expressão de luto à morte de Quincas.

“Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava?”

Devido ao ambiente do baixo meretrício, onde o velório foi mantido, e a falta de prestígio de Quincas com a família resolveram deixar o morto com os amigos de farra até próximo à hora do sepultamento.

“Vocês vão ficar a noite toda? – Com ele? Sim senhor. A gente era amigo. – Então vou em casa, descansar um pouco – meteu a mão no bolso, retirou uma nota. Os olhos do Cabo, de Curió e Pé-de-Vento acompanhavam seus gestos. – Tá aí para vocês comprarem uns sanduíches. Mas não deixem ele sozinho. Nem um minuto, hein! – Pode ir descansado, a gente faz companhia a ele.”

Moqueca de arraia

a-morte-e-a-morte-de-quincas-berro-dagua-4Cansados de cantar e a cachaça fazendo efeito, o amigo Curió lembrou-se que naquela noite ocorria a famosa moqueca de arraia do Mestre Manuel.

Negro Pastinha, Pé-de-Vento e Curió decidiram levar, com eles, o amigo Quincas, já morto, para comerem a moqueca preparada por Maria Clara, tida como a melhor da Bahia.

Noite à dentro, depois de muita cachaça, tiraram o defunto do caixão e caminharam com ele até a rampa do Mercado Modelo que funciona como cais de porto para pequenas embarcações.

Colocaram o morto no saveiro do Mestre Manuel, apesar do mar revolto, e presenciaram o amigo, por sua própria vontade, atirar-se ao mar.

Entre clarões de raios e submergido por ondas e espumas Quincas Berro D’Agua foi habitar a velha baia nos braços de Todos os Santos, deixando uma lacuna na boemia na velha cidade.

Cais do Porto do Mercado Modelo

antigo-mercado-modeloQuantos “Quincas” ainda existem nas mediações do Taboão? Muitos! Contudo, nenhum igual ao nosso Berro D’Agua, protagonista de uma história que retrata a matiz social da vela Bahia tingida de falsa moral, mas, riquíssima de personagens que ainda habitam o Cais do Porto do Mercado Modelo, as feiras de Água de Meninos e das Sete Portas, e frequentam o baixo meretrício do Taboão em busca de acolhimento de outras personagens, também carentes do olhar público.

Jorge Amado

jorge-amado-1Nasceu a 10 de agosto de 1912, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia.

Filho de João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância.

Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes.

Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931.

Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.

Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935.

Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942.

Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.

Em 1945, foi eleito membro da Assembleia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.

Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso.

Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso.

Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.

De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista. Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura.

Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e primeiro ocupante Machado de Assis.

A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, e os seus livros foram traduzidos para 49 idiomas.

Morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001, foi cremado e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.

A obra de Jorge Amado mereceu diversos prêmios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).

Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel.

O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.

Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.

Escreveu os romances: O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936), Capitães da areia (1937), Terras do Sem-Fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Seara vermelha (1946), Os subterrâneos da liberdade (1954), Gabriela, cravo e canela (1958), A morte e a morte de Quincas Berro d’Água (1959), Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso (1961), Os pastores da noite (1964), O Compadre de Ogum (1964), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966), Tenda dos milagres (1969), Teresa Batista cansada de guerra (1972), Tieta do Agreste (1977), Farda, fardão, camisola de dormir (1979), Tocaia grande (1984), O sumiço da santa (1988), A descoberta da América pelos turcos (1994), além de poesias e biografias.

A morte e amorte de Quincas Berro D'Agua

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