Na Colônia Penal
– Franz Kafka

O conto metafórico nos remete à reflexão dos regimes ditatoriais, cujo poder, em vez de distribuído na estrutura jurídica, é concentrado em pessoas.

A história ocorre em uma Colônia Penal, sobre os olhos de um visitante convidado a acompanhar o processo de torturas e execuções.

Sem poder expressar a sua opinião, sobre o que estava presenciando, o observador procurou manteve-se fora do contexto apesar de insultado e provocado pelo oficial juiz e executor da Colônia.

Interesses divergentes

Enquanto o observador analisava o processo, para compará-lo ao usado em seu país, o oficial almejava a sua concordância, para ganhar apoio à manutenção do método.

Durante uma das torturas, questionado sobre o crime praticado pelo condenado, o oficial juiz e executor informou que o indivíduo havia dormido em serviço.

Neste caso, a pena imputada, por ele, foi tortura seguida da execução.

na-colonia-penal-2Torturar, na Colônia Penal, quer dizer: escrever a sentença, no corpo do condenado, utilizando-se agulhas presas em uma espécie de rastelo ligado a uma máquina que deslizava no corpo imobilizado do condenado.

Sem esboçar qualquer reação, o sentenciado era amarrado na sofisticada máquina, e, depois de colocada para funcionar, a sentença era escrita, de forma cruel, no corpo seu desnudo, durante aproximadamente sete horas.

O sangue jorrava, se misturava com água e escorria para o fosso.

Depois de tatuada a sentença, a máquina concluía o procedimento com a execução.

Não bastava condenar por banalidades, torturar e executar, lentamente, de forma sádica fazia parte do processo.

Ao perceber que o método não teria o apoio do visitante, tampouco a concordância do novo comandante, o oficial juiz fez uso da geringonça que havia inventado e aperfeiçoado para o seu próprio fim, aguardando deitado, calmo e convicto a ponta do estilete, preso no rastelo, atravessar a sua testa.

Atrocidades da guerra

Kafka lembra, simbolicamente, os crimes praticados pela humanidade e antevê, em 1914, outras atrocidades praticadas na Segunda Guerra Mundial.

Induz à reflexão que a consciência pune os indivíduos envolvidos em atos e ações desastrosas, a exemplo das praticadas no holocausto.

Deixa uma mensagem escrita em letras pequenas, na lápide do antigo comandante que havia ajudado a criar o procedimento, para que todos necessitem se ajoelhar para lê-la.

Metáfora na lápide

“Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, cavaram-lhe o túmulo e assentaram a lápide. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, ressuscitará e chefiará seus adeptos para a reconquista da colônia. Acreditai e esperai!”

Esta última metáfora, escrita na lápide, remete à convicção que os crimes e as torturas voltariam a acontecer e da necessidade de vigilância social e política.

Haverá, sempre, adeptos da tortura, do autoritarismo e da crença da reencarnação.

Franz Kafka

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O escritor Franz Kafka nasceu no dia 3 de julho de 1883, em Praga e morreu, aos quarenta anos, de insuficiência cardíaca, no dia 3 de junho de 1924 em Klosterneuburg, Áustria.

Filho uma família judaica de classe média, seus pais Hermann Kafka (1852-1931) e Julie Kafka (1856-1934) eram comerciante.

A maior parte da população de Praga à época falava tcheco.

Era visível a divisão entre os que se expressavam em tcheco e alemão.

A língua era usada para fortalecer a identidade nacional.

Franz Kafka se expressava nas duas línguas, escrevia em alemão por considerar a sua língua materna.

Era o mais velho dos seis irmãos.

Georg e Heinrich, morreram antes do escritor completar sete anos e as irmãs Gabriele, Valerie e Ottilie morreram durante o holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

Formação acadêmica

Kafka começou a estudar química, mas trocou o curso pelo de direito.

Formado em direito, fez parte, junto com outros escritores da época, da Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica, uma síntese entre a racional lucidez e um forte traço irônico.

Este estilo lhe rendeu o termo ‘kafkiano’ como algo complicado, tortuoso e surreal.

franz-kafka-e-ottilieKafka é considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX.

A maior parte de sua obra, como ‘A Metamorfose’, ‘O Processo’ e ‘O Castelo’, está cheia de temas e exemplos de alienação e brutalidade física e psicológica. A burocracia, as transformações simbólicas e os conflitos familiares são marcantes na obra do escritor.

Kafka preferia comunicar-se por cartas. Além de amigos próximos escrevia para a sua noiva Felice Bauer e sua irmã mais nova, Ottla Kafka.

 

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A mais famosa das cartas escrita pelo escritor foi dirigida ao seu pai, de mais de 100 páginas, nas quais ele reclama de ser profundamente afetado pela autoridade do pais.

Publicações

Apenas algumas das obras de Kafka foram publicadas durante sua vida.

Os trabalhos inacabados de Kafka, como os romances O Processo, O Castelo e O Desaparecido, foram publicados postumamente por Max Brod.

Kafka desejou que os seus manuscritos fossem destruídos após sua morte, contudo o amigo Max decidiu publicá-los.

Incansável leitor, leu Platão, Gustave Flaubert, Fiódor Dostoiévski, Franz Grillparzez e Heinrich von Kleist.

Atividades profissionais

franz-kafka-estatua-de-bronze-de-jaroslav-rona-em-pragaDepois de formado, trabalhou em uma companhia de seguros. Nesta época começou, no tempo livre, a escrever contos.

Com a herança de Hermann Kafka, seu pai, tornou-se sócio de Karl Hermann em uma fábrica de asbesto conhecida como Prager Asbestwerke Hermann & Co.

A Primeira Guerra e a doença

Kafka recebeu sua convocação para o serviço militar na Primeira Guerra Mundial, contudo, por considerarem o seu trabalho na companhia de seguros essencial para o governo, houve adiamento.

Posteriormente foi impedido de servir devido aos problemas de saúde associados à tuberculose, diagnosticada em 1917.

No ano seguinte, 1918, o Instituto de Seguros afastou Kafka devido à sua doença. Naquela época não havia tratamento eficaz obrigando-o a passar boa parte de sua vida em sanatórios.

Vida sexual

Kafka se relacionava com mulheres de forma ativa, contudo, apesar de desejar mulheres e sexo tinha pouca autoestima. Manteve relações íntimas com várias mulheres durante sua vida.

Conheceu Felice Bauer, uma parente do amigo Brod, com a qual se correspondeu durante cinco anos.

Ficou noivo de Julie Wohryzek, mas, apesar de os dois terem alugado um apartamento e marcando uma data para o casamento a cerimônia não chegou a acontecer, possivelmente devido às crenças sionistas de Julie, que defende o direito à autodeterminação do povo judeu. Hermann, pai do escritor rechaçadas a ideia.

Depois de Julie, Kafka se relacionou com a jornalista Milena Jesenská e com a professora Dora Diamant que terminou por influenciar o interesse do escritor pelo Talmude, livro considerado pelos judeus como sagrado.

Comportamento

Apesar de pouco empenho pelo esporte na infância, interessou-se, quando adulto, por jogos e atividades físicas, tornando-se um bom ciclista, nadador e remador.

Temia que as pessoas o achassem repulsivo física e mentalmente, contudo, os mais próximos percebiam um comportamento quieto e agradável, uma inteligência óbvia e senso de humor.

Para Pérez-Álverez, Kafka sofria de transtorno de personalidade esquizoide. Esse transtorno mantinha-o distante, individual e indiferente aos relacionamentos sociais.

Outros sugeriram que ele sofreu de um distúrbio alimentar e de anorexia nervosa que pode ter o levado à depressão.

A obra

Os contos foram primeiro publicados em periódicos literários, na revista bimensal Hyperion.

Escreveu Descrição de uma luta (1904), Preparativos para um casamento no campo (1907), Contemplação (1912), O desaparecido (1912), O foguista (1912), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), O processo (1914), Na colônia penal (1914), Carta ao pai (1919), Um médico rural (1919), O castelo (1922), Um artista da fome (1922-24), e A construção (1923).

Referência bibliográfica

na-colonia-penal-1Kafka, Franz. 1883-1924.
Na colônia penal / Franz Kafka; tradução Modesto Carone. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. – (Coleção Leitura)
51p.
ISBN 85-219-0223-9
1. Ficção alemã I. Título. II. Série
(R)

 

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