República dos Mentecaptos
– Fernando Vita

O romance tem como cenário a cidade de Todavia habitada por desmiolados, mentirosos, trapaceiros, fofoqueiros, aproveitadores, cornudos, informantes e comunistas de meia tigela. Os adjetivos que traçam o perfil dos todavienses guardam semelhanças aos residentes nas demais cidades interioranas, o que os difere dos moradores de outras urbes é o olhar crítico e perspicaz do autor que transforma a pacata província em um universo de aloprados.
A façanha ocorre graças à habilidade de Fernando Vita em narrar os acontecimentos, muitos dos quais extravagantes, contudo, providos de seriedade subjetiva, em um espaço de tempo encurtado promovendo uma dinâmica narrativa que mantem a atenção do leitor do início ao fim da história.

O prefeito

Vita se vale do prefeito, Augusto Magalhães Braga, para compartilhar com o leitor valores éticos e morais. Apesar de não ser político esteve muito próximo do poder. Constrói o personagem central do enredo com características folclóricas tornando-o um político abestado que idolatrava o governador imaginando um dia absorver seus atributos. Por ser um fraco e debiloide se cagava de medo do alcaide empenhando-se em duplicar o seu estafe aos moldes do existente no palácio, de modo que pudesse assemelhar-se ao seu líder. Como se isso não bastasse procurava se antecipar na comunicação das ocorrências comezinhas, mesmo quando essas não lhe eram favoráveis. Para não ser pego de calças curtas rogou ao governador aconselhamento de como se comportar após ter sofrido traição da amante, Ariana, com os seus correligionários e prefeitos das cidades vizinhas. Foram tantos os chifres postos pela vendedora de perfumes no abestado prefeito que o governador requereu consultoria dos mais chegados antes de responder sobre como o assecla deveria se comportar para evitar estrago político maior do que o já ocorrido.

Negação ao divã

Depois de muitas andanças, relatos sobre a sua infância e formação acadêmica o autor – inserido na história como narrador – toma lugar de personagem principal tornando-se o escriba da própria história. Conversa com o leitor e lhe oferece oportunidade para questionamentos. Corajoso! Controverte suas convicções como estivesse estudando a si mesmo – na escrivaninha da criação – sem necessidade de quedar-se em um divã de psicólogo experiente ou famoso. Atitude própria de indivíduos que conhecem o potencial do pensamento e o quanto ele, o pensamento, é capaz de transformar a vida ruim em boa e a boa em ruim… Vita vai mais longe ao testar a aceitação da sua escrita registrando as suas controvérsias na forma de carta, como se leitor o fosse, criticando o que é admoestado por ele. Ao que parece a história não teria sentido se  o autor não tivesse se incluído nos vexames cotidianos. Foi uma posição digna do intelectual perceptivo das sutilezas de cada personagem, como se partes de cada um o tivesse ajudado a aperfeiçoá-lo não só no requinte, mas, também na imperfeição humana. Vejamos…

[…] de tão à vontade você se encontra junto aos seus concidadãos, que não resisto vaticinar, você pode ter um dia ter deixado Todavia, o diabo é que Todavia nunca lhe deixou, e creio mesmo que jamais o deixará, os dois estão atados, como verdadeiros irmãos siameses que são.”

Influências literárias

No caminhar da história faz referências a autores que de certa forma influenciaram a sua carreira literária sem textualizar suas influências, exceção se faça ao seu querido João Ubaldo Ribeiro, que segundo consta – em outra obra – assinou a sua primeira Carteira de Trabalho. Que chamego ele tem por essa carteira… Jorge Amado, José Saramago, Gabriel Garcia Márquez, Drummond de Andrade, Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves Dias e até Marcel Proust – se não me engano – referindo-se ao “No Caminho de Swann” aparecem sutilmente na formulação dos valores literários. Arrisco em apostar que Ubaldo, Jorge e Gabo têm lugares garantidos…

As décadas de 60 e 70

A maioria dos jovens dos anos 60/70 cultivavam a curiosidade aguçada a respeito dos movimentos esquerdistas. O autor cultua por Quito Alfaiate a imagem de um comunista mor. À época não tinha cabimento se ver na cidade de Todavia um seguidor de Max, Lênin ou Stálin tratava-se de mera curiosidade a respeito do regime que contestava a democracia e o capitalismo. Os modelos do quepe usado por Fidel Castro e a boina de Che Guevara teriam sido, possivelmente, as únicas alegorias comunistas que chegaram a Todavia. Prenderam Quito e logo o devolveu às suas agulhas, alfinetes, tesouras e máquina de costura. As beatas começaram a espalhar a falsa notícia que o pacato “comunista” pudesse fazer uso da sua afiada tesoura para arrancar as unhas das crianças, fato que inspirou os pequenos todavienses a evitarem transitar na calçada da alfaiataria.

Em relação ao monsenhor Giuseppe Galvani o autor é mais incisivo nas críticas. Caso fosse possível o teria mantido em um freezer ficcional e o ressuscitaria em uma noite de malhação do Judas. O monsenhor prendia os pássaros em um viveiro que havia construído na casa paroquial com base em uma interpretação equivocada da pregação franciscana. Para os que acreditam na eternidade, o dito padre deve encontrar-se escovando as sandálias do São Francisco de Assis, como parte da penitência imposta para chegar ao céu.

Na política são muitos! ACM é personificado nas mais diversas ocasiões: no jeito de falar e de impor métodos, de comprar brigas, de meter medo e dar guarida aos mais queridos.

Vita conta histórias fascinantes de uma vida interiorana relatando o seu fascínio por sua professora, seus vexames sexuais no pasto de um surdo que gostava de fazer sexo com uma anã, sua participação em um concurso esdrúxulo de lançamento de sêmen, as peripécias ocorridas nos puteiros de Salvador, e o vexame de ter acompanhado o prefeito e a primeira-dama a países da Europa. Como podem ver a história começa em Todavia e termina longe!

O autor traz a luz outras personagens folclóricas a exemplo do prepotente editor do único jornaleco, do esperto inglês comprador de tabaco, da informante telefonista que sabia da vida da maioria dos moradores, do simpático vendedor de flores transformado em estafeta bisbilhoteiro, do fofoqueiro da barbearia, da freira educadora e do incansável maestro.

O texto foi concebido de forma inusitada, como uma salada de frutas bem cortadas cujo sabor pode ser identificado em cada pedaço, alguns mais doces outros mais azedos. Ao final, o sabor se espalha harmoniosamente na boca para grandeza do pensamento que nos remete à infância, à adolescência e a história política de admirada Todavia.

A leitura é recomendadíssima!

Fernando Vita

Nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 22 de dezembro de 1948. Lá iniciou seus estudos. Mudou-se em 1965 para Salvador, e em 1973 formou-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Iniciou sua vida profissional no extinto Jornal da Bahia, onde foi repórter, editor e crítico musical. Foi repórter da sucursal baiana do Correio da Manhã, freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e IstoÉ/Senhor. Nos anos oitenta escreveu crônicas semanais para o Jornal A Tarde e para o semanário Pasquim. Em 2006, com o romance Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela, recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte e teve seu primeiro livro publicado pelo selo Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge Amado. Pela Geração Editorial, lançou em 2011 Cartas Anônimas, uma história hilariante. O Avião de Noé, uma hilariante história de inventores, impostores, escritores e outros malucos de modo geral.

Referência bibliográfica

V853r Vita, Fernando
República dos Mentecaptos /
Fernando Vita. – São Paulo: jardim dos Livros, 2019.
320p.
ISBN 978-85-8130-416-8
1. Literatura brasileira 2. Romance – I. Título.

2 comentários

  1. Livro de leitura imprescindível, certamente. Haverá lançamento com a presença do autor? Parabéns, Eduardo, pela ótima resenha.

    1. Lançamento do livro no próximo dia 12/09, na Livraria Saraiva do Salvador Shopping, com a presença do autor, das 18 às 22:00. Grato!

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