O Jogador
– Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

O envolvimento de Alexei Ivanovich, um prospector encarregado da educação dos filhos de um general, que vive em companhia da enteada Paulina Alexandrovna como hospede em um hotel, serve como enredo para retratar os efeitos maléficos do vício do jogo.

Paulina era usada pelo general para flertar com pessoas responsáveis por financiar a sua dívida, que tinha como garantia os bens da vovó Antônia Vassilievna, cuja morte era aguardada pelo general e seus credores.

A proximidade de Alexei terminou em amor platônico e o fez querer compreender o que havia, sob sigilo, nos relacionamentos entre Paulina e outros personagens da história.

Busca pelo reconhecimento

cassino-4A admiração por Paulina não tinha limite, jurava devoção e se submetia a todas as exigências para que seus valores fossem reconhecidos por ela.

Quanto mais Alexei tentava se aproximar de Paulina ela dissimulava, estimulando o ciúme.

Alexei encontrou, na roleta, uma alternativa para ajudar a amada se desvencilhar do general, tornando-se, a mando de Paulina, um jogador.

Apesar de se transformar em um grande ganhador e conquistar, momentaneamente, o reconhecimento dos frequentadores do cassino, de nada lhe serviu.

Enquanto a história amorosa se desenrola, o general continua prisioneiro das mordaças financeiras impostas pelos agiotas Astley e Grieux.

O inesperado

Quando tudo parecia caminhar para um desfecho confortável, o grupo foi surpreendido com a chegada da vovó Antônia Vassilievna, ao hotel, que terminou criando um rebuliço com suas extravagâncias, dando curso contrário ao esperado.

Alexei que se encontrava desprestigiado pelo general, obteve apoio da vovó e passou a acompanhá-la em muitas investidas no jogo.

A preocupação com a quebradeira da excêntrica senhora, devido ao jogo, passou a não ser só do general, mas, também, dos que esperavam receber a dívida através do seu patrimônio que começava a ser desperdiçado no cassino.

Alexei de relegado passou a estratégico para o grupo, por entenderem que só ele seria capaz de fazê-la parar de jogar, o que, efetivamente, não ocorreu.

A velha terminou deixando grande parte de sua fortuna nas roletas.

Antônia Vassilievna retornou pra casa, no intuito de cuidar do que ainda restava do patrimônio, enquanto Alexei decidiu investir pesado na jogatina e terminou ganhando muito dinheiro.

Vigarice à francesa

O acontecimento chamou a atenção da Mademoiselle Blanche, uma vigarista francesa, que andava enrabichada com o general.

Mudou-se, com Blanche, para Paris e em poucos meses a trapaceira tomou-lhe a maior parte do dinheiro.

Preso, por dívida, Alexei teve sua fiança paga sem sabe por quem.

Após sua soltura encontrou-se com Astley, que lhe revelou a localização de Paulina.

Enquanto isto, a vigarista Blanche abrigou o general caduco em um apartamento decorado com o dinheiro de Alexei.

Emoções e os efeitos danosos do jogo

Ele, que era um jogador compulsivo, conseguiu revelar os danos e a angústia de tentar superar a falta de lógica a cada giro de um círculo numerado chamado roleta.

Até hoje, o jogo inventado pelo francês Louis Blanc, cria danos à maioria dos jogadores e enriquece proprietários de cassinos em todo mundo.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

dostoevskij_1872

Nasceu em Moscou, Rússia, no dia 11 de novembro de 1821. Foi o segundo filho do casal Mikhail Dostoiévski e Maria Fiodorovna.

Sua mãe morreu, de tuberculose, quando Dostoiévski tinha 15anos, deixando ele e seis irmãos em companhia do pai. Motivados pela depressão e ao alcoolismo do pai, ele e um dos irmãos foram para a Academia Militar de Engenharia de São Petersburgo.

Existem registros que afirmam que Mikhail foi assassinado por seus servos revoltados com os maus tratos. Outros asseguram que a morte se deu em consequência de um acidente vasculhar.

Fiódor Dostoiévski desejou a morte do pai, por não concordar com o seu jeito autoritário e este fato terminou causando sentimento de culpa e exercendo influência na sua obra.

Morreu em São Petersburgo no dia 9 de fevereiro de 1881, aos 59 anos.

Formação acadêmica

Fiódor Dostoiévski concluiu seus estudos de engenharia em 1843 e obteve a patente de tenente militar. Aprendeu física, matemática e literatura. Estudou as obras do alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, dos franceses Blaise Pascal e Victor Hugo, e do inglês William Shakespeare.

O escritor francês Honoré de Balzac visitou Dostoiévski em São Petersburgo, em 1844, e a visita resultou em uma tradução o primeiro grande romance de Balzac. Com o dinheiro recebido pelo trabalho quitou uma dívida que tinha com um agiota e despertou a sua vocação pela literatura. Fez outras traduções dentre as quais romances de George Sand (pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin) considerada uma das maiores escritoras memorialista francesa e precursoras do feminismo.

Início da obra literária

Em 1844, Dostoiévski deixou o exército e dedicou-se exclusivamente à escrita, iniciando o romance epistolar (na forma de carta) ‘Gente Pobre’, que recebeu elogios de influente crítico literário russo, que o considerou uma obra realista com importante visão social. O livro foi publicado em 1846, quando o autor possuía, apenas, 24 anos.

Ainda em 1846 surge o segundo romance titulado ‘O Duplo’ cujo protagonista se apresenta com dupla personalidade. Possivelmente, fruto das perturbações sofridas por Dostoiévski que forma confundidas, na época, como crises epilépticas. Há quem afirme que o escritor sofria de crise histérica. O escritor inclui a epilepsia nas histórias dos seus personagens, como o príncipe Míchkin (“O Idiota”), Kiríllov (“Os Demônios”) e Smerdiákov (“Os Irmãos Karamázov”).

Dostoiévski sofre um revés da crítica ao escrever, em 1848, ‘Noites Brancas’ e ‘Niétochka Nezvánova’. Essas obras enfatizaram o comportamento psicológico dos personagens.

O escritor volta a surpreender quando do seu retorno da Sibéria, onde estava preso, com o livro ‘Recordações da Casa dos Mortos’, publicado em 1862. O respeitado escritor Levi Tostói fez excelentes elogios à obra.

‘Crime e Castigo’, publicado em 1866 e o seu último romance ‘Os Irmãos Karamazov’, publicado em 1881, consagram o escritor com um dos mais influentes da Rússia. O último romance foi considerado pelo criador da psicanálise Sigismund Schlomo Freud como o romance mais bem escrito.

Foco nos conflitos mentais

Por ser uma obra atemporal, muito do modernismo literário e da escola teológica e psicológica sofreu influência da obra do autor. Versa sobre aspectos do estado de espírito que leva ao homicídio, ao suicídio, à loucura, ao sofrimento e por que não dizer à autodestruição.

Neste contexto a obra que recebe os nomes de ‘Memórias do Subsolo”, publicada em 1864, é vista como um marco existencialista. Segundo o filósofo alemão Walter Arnold Kaufmann trata-se da “melhor proposta para o existencialismo já escrita”.

Expatriação na Sibéria

prisao-russa-1Por participar de reuniões do grupo intelectual Círculo Petrashevski e ter lido em público uma carta aberta do escritor e filósofo russo Vissarion Grigorievich Bielinsk dirigida ao escritor, também russo, Nikolai Gogol criticando-o por suas visões políticas e sociais conservadoras, Dostoiévski foi acusado de conspirar contra o imperador Nicolau I da Rússia e Grão-Duque da Finlândia. O Círculo Petrashevski se dedicava a debater as condições de vida na Rússia.

Em 23 de abril de 1849, o escritor foi preso juntamente com outros membros do Círculo Petrashevski. Passou oito meses na Fortaleza de Pedro e Paulo até que, em 22 de dezembro, houve a sentença de morte por fuzilamento.

Em 23 de dezembro, o escritor foi levado ao lugar da execução juntamente com outros membros do grupo e amarrados aos postes em frente ao pelotão. Antes da execução por fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse substituída por prisão com trabalhos forçados e exílio, na Sibéria.

Após a prisão, Dostoiévski começou a contemplar a vida como um dom extraordinário, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista. Valorando a responsabilidade individual, a integridade física e mental além da liberdade.

Na prisão, o escritor observa que mesmo em um ambiente completamente inóspito as diferenças sociais existiam.

A soltura de Dostoiévski ocorreu em 1854 condicionada à prestação de serviço no Sétimo Batalhão, por quatro anos, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de tornar-se soldado por tempo indefinido.

Casamentos, jogos e dívidas

cassino-4Dostoiévski casou-se em fevereiro de 1857 com Maria Dmitriévna Issáieva, mulher pela qual ele havia se apaixonado quando esposa de um conhecido. Com a morte do marido de Maria a união pode ser concretizada. Ela possuía um filho de oito anos e sofria de tuberculose.

Entre 1862 e 1863, viajou a Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante o período das viagens se relacionou com Paulina Súslova, uma estudante de ideias progressistas. Retornou a Rússia sem recursos por ter perdido todo dinheiro em jogos de azar.

Desanimado pela morte de sua esposa e do irmão, teve que sustentar a viúva do irmão e seus quatro filhos, além do enteado Pável Issáiev e o irmão, alcoólatra, Nikolai.

Conheceu a jovem estenógrafa de vinte e quatro anos, Anna Grigórievna Snítkina, e terminou se casando 15 de fevereiro de 1867.

Herança literária e reconhecimento

Dostoiéviski ao lado de Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Johann Wolfgang von Goethe, Luís de Camões, Victor Hugo são tidos como escritores que influenciaram sobremaneira a literatura do século XX. Particularmente, Dostoiévski influenciou as obras dos escritores Hermann Hesse, Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez.

A obra

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévskié é autor dos romances Gente Pobre (1846), O Duplo (1846), Noites Brancas (1848), Netochka Nezvanova (1849), O Sonho do Tio (1859), Aldeia de Stiepantchikov e seus Habitantes (1859), Humilhados e Ofendidos (1861), Recordações da Casa dos Mortos (1862), Memórias do Subsolo (1864), Crime e Castigo (1866), O Jogador (1867), O Idiota (1869), O Eterno Marido (1870), Os Demônios (1872), O Adolescente (1875) e Os Irmãos Karamazov (1881).

Escreveu as novelas e os contos Senhor Prokhartchin (1846), Romance em Nove Cartas (1847), A Senhoria (1847), Polzunkov (1848), Coração Fraco (1848), O Ladrão Honesto (1848), Uma Árvore de Natal e uma Boda (1848), O Homem Debaixo da Cama (1848), Noites Brancas (1848), O Pequeno Herói (1849), Uma História Lamentável (1862), O Crocodilo (1865), Bóbok (1873), Uma Criatura Gentil (1876), O Mujique Marei (1876), e O Sonho de um Homem Ridículo (1877).

Referência bibliográfica

Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881.
O jogador / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução de Roberto Gomes. – Porto Alegre: L&PM, 2009.
208p. ; 18cm. – (Coleção L&PM Pocket)
1.Ficção russa-romances. I. Título. II. Série.

(R)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *