O livro relata as histórias de duas mulheres no Afeganistão.

Comove pela alienação religiosa que permeia a história, intensificada pelo conturbado período das guerras civis, a invasão soviética, e a ocupação americana.

Duas mulheres, amaldiçoadas pela sorte, são humilhadas de forma deplorável, jamais imaginada por povos ocidentais.

Marcadas para sofrer

a-cidade-do-sol-1Mariam, trinta e três anos, filha ilegítima de Jalil, empresário de uma cidade próxima à fronteira com o Irã, viu-se obrigada pelas esposas do pai a se casar com o estúpido Rashid, de 45 anos, tradicional comerciante de sapatos.

Ficou sabendo que tinha a obrigação de lhe dar muitos filhos.

O relacionamento tornou-se intolerável quando Rashid passou a desejar um herdeiro e a esposa teve uma série de abortos.

Ele a penalizou pela incapacidade de procriar, espancando-a sem piedade.

Laila, a outra mulher da história, filha de um professor que morava próximo à casa de Mariam e Rashid, foi surpreendida, aos quatorze anos, quando um foguete disparado durante uma guerra explodiu em sua casa, matando os seus pais.

Grávida do namorado Tariq, também adolescente, que havia mudado de cidade sem se dar conta do ocorrido, resolve aceitar o convite do estúpido Rashid e torna-se a sua segunda esposa.

Rebelião feminina

a-cidade-do-sol-2No início, o conflito entre as duas mulheres foi estimulado por Rashid ao declarar sua preferência por Laila.

Ele sabia que Laila estava grávida de Tariq, enquanto ela insinuava que o filho que carregava, na barriga, era do comerciante de sapatos.

Posteriormente, as duas mulheres se voltam contra o marido, devido às atitudes agressivas e resolveram se unir para derrotá-lo e driblar o regime político.

Agruras inaceitáveis

O livro trata, de forma emocionante, das privações, humilhações e ofensas praticadas no Afeganistão.

O reencontro de Laila e Tariq é recheado de emoção.

Ao final, a carta escrita por Jalil, à filha Mariam, apresenta uma exposição do despreparo do homem ao se deparar com as vicissitudes da vida.

“…, no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer. Viver e ter esperança.”

Khaled Hosseini

khaled-hosseini-2Médico nascido em Cabul capital do Afeganistão, com naturalização estadunidense.

Sua mãe era professora e o seu pai trabalhou no Ministério do Exterior afegão.

Em 1976 mudou-se com a família para Paris por conta do emprego do seu pai. Enquanto estavam em Paris, os comunistas assumiram o poder.

Formou-se em medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos.

Escreveu além do Caçador de Pipas, A Cidade do Sol e O Silêncio das Montanhas.

Referência bibliográfica

a cidade do solA cidade do sol: romance / Khaled Hosseini. – Nova Fronteira, 2007.
368p.:
ISBN: 978-85-209-2010-7
1. Literatura estrangeira 2. Romance.

(R)

O interesse dos portugueses pelo elefante Salomão diminuiu com o passar do tempo, até perder a importância para o rei Dom João III e para a rainha Catarina da Áustria, sua esposa.

Cornaca descuidado

O agradável elefante Salomão, que tinha o indiano Subhro como cornaca, se viu sujo, desolado, mal acomodado e esquecido pela corte portuguesa.
mosteiro-dos-jeronimos-1Para dar utilidade a Salomão e retirá-lo das proximidades do Mosteiro dos Jerónimos, localizado às margens do rio Tejo, o rei aventou a possibilidade de presenteá-lo ao arquiduque austríaco Maximiliano II, casado com a filha do imperador Carlos V, da Espanha, que ao ser consultado aceitou a oferta.
De imediato, para não haver retrocesso da aceitação, o rei Dom João III ordenou que fosse preparada uma comitiva para transportar o elefante até a cidade de Valladolid, na Espanha, onde o arquiduque se encontrava hospedado.
Para completar o presente, juntamente com a comitiva, seguiu o cornaca, responsável por cuidar de Salomão.

Shiva, Parvati e Ganesha

shiva-parvati-e-ganesha-lO cornaca, que demonstrou muita inteligência e habilidade de relacionamento, durante a viagem, terminou sendo admirado pelo comandante da comitiva, por contar histórias sobre o Deus indiano Shiva, casado com Parvati.
A história dos deuses induziu o respeito da comitiva por Salomão por que Ganesha, filho de Shiva, voltou a viver após ter sua cabeça substituída por uma de elefante.
Apesar das dificuldades do percurso, a comitiva chegou ao Castelo Rodrigo e aguardou as tropas austríacas, para adentrar no território espanhol ao encontro do arquiduque Maximiliano.
Enquanto isso, o comandante português aproveitou para mandar de volta a Lisboa os trinta trabalhadores que acompanharam a comitiva.
Após discussões entre os comandantes português e o austríaco, para saber quem tinha o direito ou obrigação de levar Salomão até Maximiliano, resolveram negociar e seguiram juntos para o cumprimento da tarefa.
O cornaca, por sua vez, preocupado com o seu destino que seria definido pelo arquiduque, observava o desenrolar das negociações.

Fritz em vez de Salomão

Ao se apresentar ao arquiduque, Subhro foi orientado a colocar uma gualdrapa sobre Salomão e foi surpreendido com a mudança do seu nome para Fritz e o do elefante para Solimão.
A tropa portuguesa retornou a Lisboa e o cornaca seguiu junto com os austríacos em direção a Viena.
Acomodaram o elefante no mesmo barco que transportou, até a Itália, a tropa, os serviçais, o arquiduque e sua mulher.
Lá chegando, uma manobra do padre da Basílica de Santo Antônio de Pádua, convenceu o cornaca a levar Solimão até a porta da igreja.

O milagre fajuto

Na presença dos fiéis, o elefante dobrou o joelho simulando um milagre.

Não ficou por menos, o arquiduque chamou Fritz para um esclarecimento e obteve a confissão da farsa.

Sem alternativa para substituição do cornaca, Maximiliano, prosseguiu a viagem sob neve, cujo percurso foi feito com dificuldade pelo animal desacostumado com o frio.

Solimão sofreu o pão que o diabo amassou, porém, aproveitou as duas oportunidades que lhe foram dadas para se redimir da simulação do milagre.

A primeira oportunidade ocorreu quando a arquiduquesa caiu numa ribanceira e, de pronto, foi resgatada pelo elefante.

A segunda oportunidade ocorreu ao entrar em Viena, o elefante enroscou a tromba numa criança de cinco anos devolvendo-a a seus pais, no momento em que todos achavam que o acidente estava por acontecer.

Estilo Saramago

pata-de-elefante-1A forma tradicional da escrita e em especial a utilizada neste texto é ainda mais descomprometida que as dos livros “Ensaio sobre a cegueira” e “As intermitências da morte”.

Saramago dá um show ao fazer citações e comparações com passagens bíblicas.

Enaltecer aspectos da inteligência de pessoas humildes e registra o afeto e preocupação do homem em relação aos animais.

O texto foi escrito devido a reação do autor pelo fato de ter encontrado, em um hotel, uma pata de elefante servindo como porta guarda-chuvas.

Leitura recomendadíssima!

José de Souza Saramago

jose-saramago-1O escritor, tradutor, jornalista, poeta, cronista, dramaturgo, contista, romancista, teatrólogo e ensaísta José de Souza Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, Portugal, no dia 16 de novembro de 1922.

Faleceu, aos 87 anos, na sua casa em Tías, Província de Las Palmas, Lanzarote, comunidade autônoma das Ilhas Canárias, no dia 18 de junho de 2010, vítima de leucemia crônica. Foi cremado e as cinzas foram depositadas ao pé de uma oliveira, na cidade de Lisboa no dia 18 de junho de 2011.

Prêmios

Saramago recebeu vários prêmios dentre eles o Nobel de Literatura de 1998 e o Camões de 1995. Foi condecorado com Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 1985, e o Grande-Colar da mesma Ordem, em 1998. Esta última honraria é concedida, normalmente, a chefes de estado.

O prêmio Camões foi instituído, em 1988, pelos governos do Brasil e Portugal outorgado a autores de língua portuguesa, pelo conjunto da sua obra e o Prêmio Nobel de Literatura foi instituído, em 1901, para premiar autores, de qualquer nacionalidade, que a sua obra tenha contribuído para o pensamento coletivo.

José Saramago recebeu, também, os seguintes prêmios: Cidade de Lisboa (1980), Literário Município de Lisboa (1982), P.E.N. Clube Português de Novelística (1983, 1985), D. Dinis (1984), Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1985), Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 1991, Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (1991), Grande Prémio Vida Literária APE/CGD (1993), Gold Medal.svg Prémio Camões 1995 e Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1995).

Linguagem e estilo

José Saramago se caracteriza pela utilização de um estilo oral. Preferiu se expressar na forma escrita com a animação característica dos contos populares de tradição oral. Preferiu a dinâmica da comunicação em detrimento da correta ortográfica formal.

A forma escolhida para desenvolver o raciocínio e exibir argumentos característicos da linguagem oral se impõe no estilo convincente.

Utiliza frases e períodos alongados, com pontuação nada convencional, que resulta em diálogos entre personagens sem a separação tradicional de travessões usuais para distinguir os diálogos de cada um dos interlocutores. Esta forma utilizada pelo autor conserva o leitor atento à história, contudo, em determinados momentos pode confundi-lo.

As citadas características tornam o seu estilo único na literatura moderna, destacando-o como um inovador no tratamento da língua portuguesa.

Relacionamentos

O primeiro casamento foi aos 25 anos com Ilda Reis. Deste relacionamento resultou o nascimento da filha Violante dos Reis Saramago. Durou de 1944 a 1970.

De 1970 a 1986 Saramago viveu com a escritora Isabel da Nóbrega.

O último relacionamento foi com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, que conheceu em 1986. Viveu a seu lado de 1988 até a morte do autor.

Crença, Política e foco literário

jose-saramago-2Saramago se dizia ateu e faz crítica à Igreja por entender encontrar-se a serviço dos tiranos. Fala de religião como um fenômeno de fantasias humanas. E diz que os episódios de violência relatados na Bíblia, como sacrifício de Isaque, a destruição de Sodoma ou a vida de Jó, por exemplo, revelam que “Deus não é de fiar”.

A Igreja Católica criticou a publicação do livro ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, em 1991, devido à releitura que Saramago faz do personagem Jesus. Fez críticas, também, quando da publicação de ‘Caim’, em 2009.

Foi membro do Partido Comunista Português.

Posicionou-se sempre atento às injustiças e vigilante das mais diversas causas sociais. Não se cansava de questionar valores sociais.

Criou, em 2007, a Fundação José Saramago para a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e defesa do meio ambiente. Mais tarde, em 2012, sua mulher Pilar del Río abriu as suas portas da fundação ao público na Casa dos Bicos em Lisboa.

Apesar das crônicas e peças teatrais Saramago se destacou com os temas abordados em seus romances.

Em ‘Levantando do Chão’ o autor retrata as dificuldades da população pobre do Alentejo.

Em ‘Memorial do Convento’ retrata o contraste entre a abastada aristocracia e o povo trabalhador.

Em seguida Saramago publicou livros cujos temas se referem a pessoas, fatos e questionamentos religiosos: ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ (1985), sobre as andanças do heterônimo de Fernando Pessoa por Lisboa; ‘A Jangada de Pedra’ (1986), em que se questiona o papel Ibérico na então CEE através da metáfora da Península Ibérica soltando-se da Europa e encontrando o seu lugar entre a velha Europa e a nova América; ‘História do Cerco de Lisboa’ (1989), onde um revisor é tentado a introduzir um “NÃO” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ (1991), no qual Saramago reescreve o livro sagrado sob a ótica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino.

Saramago deu início a nova fase publicando seis romances com tramas que abordaram os caminhos da sociedade contemporânea: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005).

Obras publicadas

Saramago publicou os romances Terra do Pecado (1947), Manual de Pintura e Caligrafia (1977), Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008), Caim (2009), Claraboia (2011) e Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (2014).

Publicou as crónicas: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opiniões que o DL Teve (1974) e Os Apontamentos (1977).

Produziu as seguintes peças teatrais: A Noite (1979), Que Farei com Este Livro? (1980), A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987), In Nomine Dei (1993) e Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (2005).

Publicou os contos Objeto Quase (1978), Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido (1979) e O Conto da Ilha Desconhecida (1997).

Publicou as poesias: Os Poemas Possíveis (1966), Provavelmente Alegria (1970), O Ano de 1993 (1975).

Diário e Memórias: Cadernos de Lanzarote (1994) e As Pequenas Memórias (2006),

Literatura infantil: A Maior Flor do Mundo (2001), O Silêncio da Água (2011).

Viagens Viagem a Portugal (1983).

Referência bibliográfica

12696 - Viagem do elefante

Saramago, José, 1922
A viagem do elefante: conto / José Saramago. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
256p.
ISBN 978-85-359-1341-5
1. Contos portugueses. I. Título.
(R)

O romance de uma família, escrito por Paulo Maciel, conta as aventuras de um vaqueiro, empregado de uma fazenda na região do Rio São Francisco, próximo à cidade de Juazeiro no estado da Bahia.

Ainda criança, o autor escolheu como ídolo o personagem que deu título ao livro e decidiu homenageá-lo.

Não teria ocorrido o fato se ele não tivesse mantido os valores e princípios de reconhecimento profissional, que o diferenciou de muitos executivos.

Não bastasse dedicar um espaço razoável para contar a história do homem simples que cumprira suas tarefas montado em um jegue, o autor o colocou como título da sua obra. Ratificando, desta forma, o respeito que tinha pelo trabalho, independente da importância social, política e intelectual do ser humano.

A história

Vaqueiro do sertao nordestino e artesao, Sr Mariano Oliveira da Silva, com indumetaria de couro, apropriada para enfrentar a caatinga com seus espinhos. / The Vaqueiro (cowboy) of the Sertao has a traditional costume adapted to the defenses of the caatinga -- all leather and very thick.

João, filho de Gilu, arrastou-se feito um bicho na caatinga, fazendo sentinela, até vingar-se de um cangaceiro do bando de Lampião, por ter sido informado das agressões do bandido à sua irmã.

Ao identificar-se como o princípio de justiça, enaltecendo a vida de João de Gilu, o autor desnuda a sua própria história e narra fatos ocorridos na família, sem se preocupar com avaliações, preconceitos, críticas e observações que possam diminuir seus feitos.

Quando os propósitos são bons e as ações não se desenvolvem na forma desejada, sempre existe a possibilidade de se redimir.

Imagino que Paulo Maciel tinha esta convicção, desnudava-se ao lutar por princípios que acreditava judiciosos.

Paulo Maciel

Nasceu em Juazeiro na Bahia.

Pai de três filhos faleceu em 2008, vítima de câncer na próstata.

Autor de mais três outros livros e colaborador de jornais de Salvador, foi presidente de fundação de previdência complementar e diretor de recursos humanos de instituição financeira.

Referências bibliográficas

Maciel, Paulo. 1934 –
João de Gilu, o romance de uma família / Paulo Maciel: ilustração de Raul Franco Vieira e Silvio Robatto. – Salvador: Corrupio. 2007.
262p.: il.
ISBN – 978-85-86551-27-7
1. Ficção brasileira. 2. Romance. I. Vieira, Raul Franco. II Robatto, Silvio. III. Título.
(R)

A narrativa conta as dificuldades da guerra civil em Serra Leoa.

Parte da história

guerra-civil-em-serra-leoa-1O protagonista, Saidu, em um dos vários momentos que fugiam da perseguição dos rebeldes.

“Quantas vezes mais vamos ter que enfrentar a morte até encontrarmos segurança?

(…) Toda vez que somos perseguidos por gente que quer nos matar, fecho os olhos e espero pela morte.

Apesar de ainda estar vivo, sinto como se, a cada vez que aceito a morte, parte de mim morresse.

Muito em breve eu vou morrer completamente e tudo que sobrar de mim será meu corpo vazio, andando com vocês.

Ele será mais silencioso do que eu”.

Crianças e adolescentes fugiam, sem sucesso, de uma guerra que não criaram e terminaram em combate, por falta de opções.

Sem forças para carregarem pesados armamentos e mantimentos, se drogavam.

Os que conseguiram ser resgatados por instituições, preocupadas com as condições de vida dos combatentes mirins, tiveram oportunidades de se recuperarem e constituírem novos projetos de vida.

Outros foram mortos em combate, nas florestas e aldeias, sem saberem por que estavam fugindo ou lutando.

Ishmael Beah

ishmael-beah-1Nasceu em Serra Leoa em 1980, mudou-se para os Estados Unidos em 1998 e atualmente vive em Nova York.

É formado pelo Oberlim College, com bacharelado em ciências políticas.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

Beah, Ishmael, 1980
Muito longe de cassa / Ishmael Beah – 2007.
224p.
ISBN 978-85-000-2121-3
1. Biografias – Memórias I. Título
(R)

As citações de Saramago, escritas em 1975, referindo-se ao que poderia ocorrer no Ano de 1993, tangenciam o entendimento e a realidade contrapondo com a contestação religiosa e política.

Revolução dos Cravos e outras coisas

revolucao-dos-cravos-1É bom lembrar que no ano que antecedeu a narrativa ocorreu a Revolução dos Cravos, responsável por derrubar a ditadura Salazar, que era inspirada no fascismo.

Certamente, este fato deve ter motivado o escritor a imaginar o que aconteceria após o conhecido dia D.

De tudo tem um pouco: comparação de ambiente a obra do pintor surrealista Salvador Dali; referências comparativas a citações bíblicas; alusões a animais movidos por energia desconhecida; habitantes pichados com números, a exemplo dos prisioneiros em campos de concentração.

Não há compromisso com estilos ou propostas, o que existe são coisas soltas e deixa, o leitor desavisado, com o sentimento da carência de aprofundamento.

São provocações sem objetivo direto, contudo induz a reflexões rápidas, desencontradas e inconclusas, para um desafio cibernético de um mundo desconhecido para o seu tempo.

“Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados (…)”

O processo político previsto por Saramago para o Ano de 1993, que não promove justiça, mas o extermínio da população, independente da importância social.

Com o passar do tempo o poder é investido, podendo parecer extravagante ou simplório.

Depende da ambição do pensamento.

Tive a impressão que o autor aproveitou a oportunidade dos movimentos políticos, ocorridos em Portugal, para estimular uma reflexão sobre o futuro incerto.

A forma da escrita, difícil de ser classificada, confunde-se com uma poesia psicodélica e futurista.

A curiosidade foi aguçada e terminei por concluir a leitura na própria livraria.

Recomendo a leitura!

José de Souza Saramago

jose-saramago-1O escritor, tradutor, jornalista, poeta, cronista, dramaturgo, contista, romancista, teatrólogo e ensaísta José de Souza Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, Portugal, no dia 16 de novembro de 1922.

Faleceu, aos 87 anos, na sua casa em Tías, Província de Las Palmas, Lanzarote, comunidade autônoma das Ilhas Canárias, no dia 18 de junho de 2010, vítima de leucemia crônica. Foi cremado e as cinzas foram depositadas ao pé de uma oliveira, na cidade de Lisboa no dia 18 de junho de 2011.

Prêmios

Saramago recebeu vários prêmios dentre eles o Nobel de Literatura de 1998 e o Camões de 1995. Foi condecorado com Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 1985, e o Grande-Colar da mesma Ordem, em 1998. Esta última honraria é concedida, normalmente, a chefes de estado.

O prêmio Camões foi instituído, em 1988, pelos governos do Brasil e Portugal outorgado a autores de língua portuguesa, pelo conjunto da sua obra e o Prêmio Nobel de Literatura foi instituído, em 1901, para premiar autores, de qualquer nacionalidade, que a sua obra tenha contribuído para o pensamento coletivo.

José Saramago recebeu, também, os seguintes prêmios: Cidade de Lisboa (1980), Literário Município de Lisboa (1982), P.E.N. Clube Português de Novelística (1983, 1985), D. Dinis (1984), Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1985), Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 1991, Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (1991), Grande Prémio Vida Literária APE/CGD (1993), Gold Medal.svg Prémio Camões 1995 e Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1995).

Linguagem e estilo

José Saramago se caracteriza pela utilização de um estilo oral. Preferiu se expressar na forma escrita com a animação característica dos contos populares de tradição oral. Preferiu a dinâmica da comunicação em detrimento da correta ortográfica formal.

A forma escolhida para desenvolver o raciocínio e exibir argumentos característicos da linguagem oral se impõe no estilo convincente.

Utiliza frases e períodos alongados, com pontuação nada convencional, que resulta em diálogos entre personagens sem a separação tradicional de travessões usuais para distinguir os diálogos de cada um dos interlocutores. Esta forma utilizada pelo autor conserva o leitor atento à história, contudo, em determinados momentos pode confundi-lo.

As citadas características tornam o seu estilo único na literatura moderna, destacando-o como um inovador no tratamento da língua portuguesa.

Relacionamentos

O primeiro casamento foi aos 25 anos com Ilda Reis. Deste relacionamento resultou o nascimento da filha Violante dos Reis Saramago. Durou de 1944 a 1970.

De 1970 a 1986 Saramago viveu com a escritora Isabel da Nóbrega.

O último relacionamento foi com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, que conheceu em 1986. Viveu a seu lado de 1988 até a morte do autor.

Crença, Política e foco literário

jose-saramago-2Saramago se dizia ateu e faz crítica à Igreja por entender encontrar-se a serviço dos tiranos. Fala de religião como um fenômeno de fantasias humanas. E diz que os episódios de violência relatados na Bíblia, como sacrifício de Isaque, a destruição de Sodoma ou a vida de Jó, por exemplo, revelam que “Deus não é de fiar”.

A Igreja Católica criticou a publicação do livro ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, em 1991, devido à releitura que Saramago faz do personagem Jesus. Fez críticas, também, quando da publicação de ‘Caim’, em 2009.

Foi membro do Partido Comunista Português.

Posicionou-se sempre atento às injustiças e vigilante das mais diversas causas sociais. Não se cansava de questionar valores sociais.

Criou, em 2007, a Fundação José Saramago para a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e defesa do meio ambiente. Mais tarde, em 2012, sua mulher Pilar del Río abriu as suas portas da fundação ao público na Casa dos Bicos em Lisboa.

Apesar das crônicas e peças teatrais Saramago se destacou com os temas abordados em seus romances.

Em ‘Levantando do Chão’ o autor retrata as dificuldades da população pobre do Alentejo.

Em ‘Memorial do Convento’ retrata o contraste entre a abastada aristocracia e o povo trabalhador.

Em seguida Saramago publicou livros cujos temas se referem a pessoas, fatos e questionamentos religiosos: ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ (1985), sobre as andanças do heterônimo de Fernando Pessoa por Lisboa; ‘A Jangada de Pedra’ (1986), em que se questiona o papel Ibérico na então CEE através da metáfora da Península Ibérica soltando-se da Europa e encontrando o seu lugar entre a velha Europa e a nova América; ‘História do Cerco de Lisboa’ (1989), onde um revisor é tentado a introduzir um “NÃO” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ (1991), no qual Saramago reescreve o livro sagrado sob a ótica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino.

Saramago deu início a nova fase publicando seis romances com tramas que abordaram os caminhos da sociedade contemporânea: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005).

Obras publicadas

Saramago publicou os romances Terra do Pecado (1947), Manual de Pintura e Caligrafia (1977), Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008), Caim (2009), Claraboia (2011) e Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (2014).

Publicou as crónicas: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opiniões que o DL Teve (1974) e Os Apontamentos (1977).

Produziu as seguintes peças teatrais: A Noite (1979), Que Farei com Este Livro? (1980), A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987), In Nomine Dei (1993) e Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (2005).

Publicou os contos Objeto Quase (1978), Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido (1979) e O Conto da Ilha Desconhecida (1997).

Publicou as poesias: Os Poemas Possíveis (1966), Provavelmente Alegria (1970), O Ano de 1993 (1975).

Diário e Memórias: Cadernos de Lanzarote (1994) e As Pequenas Memórias (2006),

Literatura infantil: A Maior Flor do Mundo (2001), O Silêncio da Água (2011).

Viagens Viagem a Portugal (1983).

Referência bibliográfica

Saramago, José, 1922-2010
O ano de 1993 / José Saramago. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
128p.
ISBN 978-85-359-1107-7
1. Contos portugueses. I. Título.
(R)