o-mito-de-sisifo-1

Camus utilizou-se de Sísifo, personagem da mitologia grega, para centralizar questionamentos filosóficos na busca da percepção da vida e o determinismo de responsabilidade das ações que possam nortear o caminhar do homem no sentido metafísico e nas relações interpessoais.

 
 

Mitologia grega

Sísifo age de forma talentosa e consegue amenizar a fúria de Zeus, rei dos deuses, quando ordenou Tânatus, deus da morte, a levá-lo ao mundo subterrâneo.

Ele elogia a sua beleza e obtém a concordância de Tânatus para colocar um colar em seu pescoço, com o qual manteve a morte aprisionada.

Hades, que governava o mundo subterrâneo dos mortos, se uniu a Ares, deus das guerras, e fisgou Sísifo, que antes de se afastar da mulher pediu a ela que não o enterrasse após sua morte.

Tão logo se viu no inferno, conseguiu a concordância de Hades para retornar e se vingar da atitude da esposa. Desta forma ele retomou ao corpo e fugiu.

Devido à habilidade de Sísifo, a morte só lhe alcançou na velhice.

Insatisfeitos, os deuses o condenaram, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha e sempre que chegava próximo ao topo uma força poderosa a rolava de volta até o ponto de partida.

Assim, segundo a mitologia grega, a humanidade ficou sabendo que não teria a mesma liberdade divina.

Mais perto da morte

Ao se referir ao raciocínio absurdo, Albert Camus, fala da construção da vida sobre o amparo da esperança. Quanto mais se espera o amanhã mais próximo estamos da morte e conclui que o mundo cruel é estranho.

“Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).”

“Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”

“Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que ficar, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que se pode atribuir às conclusões da filosofia existencial.”

O homem absurdo

camus-2“Pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado.

“(…) Se eu me convencer que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o seu equilíbrio reside na perpétua oposição entre minha revolta consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais.”

Albert Camus aborda as questões do homem absurdo (aquele que não se separa do tempo) referindo-se ao amor, o ator e o conquistador.

Em relação ao amor cita o personagem Don Juan lembrando que quanto mais se ama mais se concretiza o absurdo.

A representação teatral oferece ao homem absurdo a possibilidade de ver além de si mesmo, contudo, não o impõe mudança que possa lhe submeter qualquer angústia.

Sobre as conquistas interpreta como uma escolha do homem em prejuízo da contemplação, como algo necessário a mantê-lo atuante, apesar da percepção que um dia terá que cessar.

O autor aborda a arte como alternativa para expressar o mundo inexplicável. Cita Dostoievski, Kafka, Malraux, Balzac e Sade como romancistas capazes de explorar o suicídio filosófico.

Faz analogia ao trabalho repetitivo dos dias atuais à tarefa determinada pelos deuses a Sísifo. Intui que a busca do homem pelo cotidiano o afasta da tomada de consciência da vida, impondo-se à mediocridade mental conformista.

Conclusão

O Mito de Sísifo é um texto questionador, não só pelas características do ensaio literário, mas, também, pela abordagem filosófica que adiciona incômodo reflexivo diante de um cotidiano e valores morais.

Onde comprar

O Mito de Sísifo – Livraria da Folha

O Mito de Sísifo – Travessa

Albert Camus

camur-1

Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.

A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.

Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.

O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.

Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.

Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.

Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.

Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.

A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.

Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.

Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.

albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.

A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.

Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.

Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.

Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.

albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.

Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.

Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.

Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.

Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.

Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

Camus, Albert, 1913-1960
O mito de Sísifo / Albert Camus; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. – Rio de Janeiro: Record, 2010.
138p.
Tradução de: Le mythe de Sisyphe
ISBN 987-85-7799-269-0
Ensaio francês. I. Roitman, Ari. II. Watch, Paulina. III. Título

(R)

laranja-mecanica-3

O texto, escrito em 1962, conta a história de um adolescente que vive em Londres.

O autor cria uma sociedade futurista na qual a violência, sem causa perceptível, atinge proporções gigantescas e passa a ser retratada na prática de roubos, estupros, espancamentos e assassinatos.

Incapacidade e selvageria

O governo, por incapacidade interpretativa, se aparelha para combatê-la de forma totalitária, estimulando, ainda mais, a selvageria.

Anthony Burgess utiliza uma linguagem curiosa, carregada de gírias nadsat, com palavras rimadas, exigindo do leitor o seu aprendizado e o remete ao centro do contexto para vivenciar a história como observador da gangue comandada pelo idiota Alex, que tem a companhia dos não menos retardados Pete, Georgie e Tosko.

Escolha das vítimas

As vítimas da gangue, na maioria, são pessoas idosas e intelectuais.

laranja-mecanica-1As escolhas das vítimas, com essas características, criam ambiente que buscam consagrar frustrações relacionadas à intelectualidade socialista e a ausência de práticas familiares voltadas para a preparação e bem-estar dos jovens.

A solução encontrada pelo governo para combater as ações de Alex não se apresentou menos hostil.

“O diretor olhou para mim com uma cara muito cansada e disse:- Acho que você não sabe quem era aquele hoje de manhã, sabe 6655321? – E, sem esperar que eu dissesse não, ele disse: – Ninguém menos que o Ministro do Interior, o novo Ministro do Interior que eles chamam de reformador. Bem, essas novas ideias ridículas finalmente chegaram e ordens são ordens, embora cá entre nós eu lhe diga que não aprovo.”

Insatisfação social

O texto se firma atualíssimo, haja vista as demonstrações de insatisfação social dos jovens e adolescentes e a resposta do poder para a solução dos conflitos.

laranja-mecanica-2A diferença entre o texto e a atualidade ocorre na diversidade da escolha das ações para possíveis soluções, contudo, o capitalismo se vale da força para amordaçar o discurso proveniente da segregação social e racial, encobertada e distorcida pela imprensa, em vez da prática democrática saudável e construtiva.

O autor, Anthony Burgess, joga, sem piedade, o leitor para conviver com o abestalhado Alex no intento de fazê-lo entender a deformidade de caráter provocada por mentes vazias e desocupadas, cuja sociedade intelectualizada demonstra incapacidade para definir políticas não excludentes.

O texto, aparentemente descomprometido, traduz uma polêmica social que mesmo os países com economias sólidas e estruturadas não conseguem elaborar e implantar políticas voltadas para a inclusão social.

Alex diz: “- Eu, eu, eu. Eu? Onde é que eu entro nisso tudo? Será que eu sou apenas uma espécie de animal ou cão? – E isso fez com que eles começassem a govoretar (falar) ainda mais alto e lançar slovos (palavras) para mim. Então eu krikei (gritei) mais alto, ainda krikando (gritando): – Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?

A leitura é recomendadíssima!

Anthony Burgess

anthony-burgess-1Nasceu em Manchester em 1917, formou-se em Inglês pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1966, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Foi neste período que começou sua carreira literária.

Ao retornar a Inglaterra, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro: os dois médicos lhe deram até um ano de vida.

Mudou-se para a cidade costeira de Hove, no sul da Inglaterra, com a intenção de escrever vários livros para que os direitos autorais pudessem ajudar no sustento de sua esposa após a sua morte. Mas, o diagnóstico estava errado, e Burgess viveu até 76 anos.

Referência bibliográfica

Burgess, Anthony – 1955
Laranja Mecânica / Anthony Burgess; tradução Fábio Fernandes.
-São Paulo: Aleph, 2004.
Título original: A clockwork orange.
199p.
ISBN 978-85-7657-003-5
1. Ficção inglesa – I. Título.

(R)

memorias-de-minhas-putas-tristes-2Um homem que nunca fizera sexo sem pagar decide se presentear ao completar noventa anos.

O presente escolhido foi uma noite de amor com uma mulher virgem.

Queria uma mulher que exalasse pureza, diferentemente das muitas promíscuas que passaram por sua vida.

Juntou parte de suas economias acumuladas da aposentadoria e da remuneração como jornalista de um periódico e saiu em busca do seu objetivo.

Com a colaboração da amiga Rosa Cabarcas – proprietária de um prostíbulo – conseguiu contatar uma jovem de quatorze anos. A jovem terminou por desencadear a paixão do idoso a ponto de influenciar os textos de suas crônicas divulgadas no jornal aos domingos.

Apesar de o tema tangenciar a pedofilia, o texto é escrito de forma arguciosa e o leitor, sem perceber, é levado a desviar a atenção para outro ponto: a carência afetiva de um indivíduo de noventa anos.

Preconceito

A história chama a atenção para o amor e admiração entre parceiros, independentemente da idade, e coloca em discussão a possibilidade de pessoas viverem noventa anos sem experimentarem relações desprovidas de preconceitos e barreiras.

O idoso que sempre pagava pela companhia de mulheres, para não se comprometer, terminou experimentando sentimentos próprios de jovens apaixonadas a ponto de transbordá-los nas crônicas semanais no jornal El Diário de La Paz.

O envolvimento amoroso lhe possibilitou deixar de ser um colunista medíocre e tornar-se um escritor da primeira página, tal era a emoção imposta nos textos. Os leitores, por sua vez, aguardavam, com ansiedade, as edições dominicais.

memorias-de-minhas-putas-tristes-3Com a jovem Delgadina, o jornalista não mantinha relações sexuais. Contemplá-la, ao vê-la dormir em um dos quartos do bordel da cafetina Rosa, era o suficiente para mantê-lo vivo.

Após a ocorrência de um assassinato no bordel os amantes foram separados e o desencontro provocou, no idoso, sentimentos doentios de adolescentes.

Durante meses o velho cronista pôde sentir a intensidade da vida e se permitiu aguardar a morte, satisfeito por ter conseguido amar alguém.

A história apresenta um colorido psicológico contrapondo-se a valores morais e lembra a complexidade do que é envelhecer.

Leitura recomendadíssima!

Onde comprar

Memórias de Minhas Putas Tristes  – Lojas Americanas

Memórias de Minhas Putas Tristes – Livraria da Folha

Gabriel José García Márquez

gabriel-garcia-marques-10

Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, na cidade de Aracataca, Colômbia.

Seus pais, Gabriel Eligio García e Luisa Santiaga Márquez, tiveram ao todo onze filhos.

Logo depois que García Márquez nasceu o seu pai se tornou um farmacêutico.

Dois anos após o nascimento do escritor seus pais se mudaram para Barranquilla. García Márquez permaneceu em Aracataca em companhia dos seus avós maternos, Nicolás Ricardo Márquez Mejía e Tranquilina Iguarán.

Aos oito anos, com a morte do avô, o escritor se mudou para Barranquilla (casa dos pais) e iniciou seus estudos no Liceu Nacional de Zipaquirá.

Em Bogotá cursou direito e ciências políticas na universidade nacional da Colômbia, mas abandonou a universidade antes da conclusão do curso.

Casou-se, em Barranquilha no México, com Mercedes Barcha com quem teve dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Influências na obra do autor

as-mil-e-uma-noites-2Seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias e suas histórias seduziram o neto.

Além dos contos baseados na coleção de histórias ‘As Mil e Uma Noites’ a sua avó Tranquilina, também, influenciou a criatividade do autor.

A adolescência de Gabo, como o autor era conhecido, foi marcada por livros. Um em especial chamou a sua atenção: A Metamorfose, de Franz Kafka.

Gabo se permitiu extrapolar a barreira da forma tradicional de contar histórias depois de ler Kafka.

Ora, se Kafka podia transformar o protagonista Grégor Samsa em um inseto, então, ele, também, poderia usar a ficção como forma impositiva sobre a realidade das suas histórias políticas, sociais e regionais.

Este fato resultou na criação do conhecido ‘Realismo Mágico ou Fantástico’ na literatura latino-americana.

Gabriel Márquez escolheu para sua referência William Faulkner, considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX.

Trabalhos, obras e prêmios

gabriel-garcia-marquez-5Gabriel García Márquez trabalhou como jornalista em vários periódicos da Colômbia e desempenhou trabalhos, como correspondente internacional na Europa e nos Estados Unidos.

É considerado um dos escritores mais importantes do século XX. Seus livros foram traduzidos em 36 idiomas e vendeu mais de 40 milhões de livros.

Escreveu: O enterro do diabo: A revoada (1955), Maria dos prazeres, Relato de um náufrago (1955), A sesta de terça-feira, Ninguém escreve ao coronel (1961), Os funerais da mamãe grande (1962), Má hora: o veneno da madrugada, Cem anos de solidão (1967), A última viagem do navio fantasma, Entre amigos, A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada, Um senhor muito velho com umas asas enormes, Olhos de cão azul, O outono do Patriarca, Como contar um conto (1947-1972), Crônica de uma morte anunciada (1981), Textos do caribe, Cheiro de goiaba, O verão feliz da senhora Forbes, O Amor nos tempos do cólera (1985), A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, O general em seu labirinto, Doze contos peregrinos (1992), Do amor e outros demônios (1994), Notícia de um Sequestro (1996), Memória de minhas putas tristes, dentre outros trabalhos.

Em 2002, após ter sido diagnosticado um câncer linfático, publicou sua autobiografia ‘Viver para contar’.

Recebeu os seguintes prêmios: Prêmio de Novela ESSO por “má hora: o veneno da madrugada” (1961), Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia em Nova Iorque (1971), Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, Medalha da Legião Francesa em Paris (1981), Condecoração Águila Azteca no México (1982), Nobel de Literatura (1982), Prêmio quarenta anos do Círculo de jornalistas de Bogotá (1985), Membro honorário do Instituto Caro y Cuervo em Bogotá (1993), Doutor Honoris Causa da Universidade de Cádiz (1994).

Morte

gabriel-garcia-marquez-6Em 2009 García Márquez declarou que não pretendia escrever mais livros.

A notícia foi confirmada, mais tarde, quando o seu irmão, Jaime Garcia Marquez, anunciou que o escritor foi diagnosticado com uma demência, embora estivesse em bom estado físico, havia perdido a memória.

O autor lutava contra a reincidência de um câncer que atingia seus pulmões, gânglios e fígado. Morreu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, após completar 87 anos.

Referência bibliográfica

memorias-de-minhas-putas-tristes-4García Márquez, Gabriel, 1928 – 2014
Memória de minhas putas tristes / Gabriel García Márquez; tradução Eric Nepomuceno. 8ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2005.
127p.
ISBN 85-01-07265-6
Tradução de: Memoria de mis putas tristes
1. Romance colombiano. I. Nepomuceno, Eric, 1948. II. Título.
(R)

caim-e-abel-2Uma criança pobre nasceu em 18 de abril de 1906 em uma floresta de Slonim, na Polônia. Foi encontrada por um garoto ao lado da mãe morta, em consequência do parto. Socorrida por uma família, extremamente pobre, que possuía seis filhos terminou sendo tratada como filho do casal, Jasio Koskiewicz e Helena, que moravam em uma cabana nas terras do poderoso Barão Rosnovski.

Apesar das dificuldades financeiras dos pais adotivos, o franzino Wladeck Koskiewicz foi bem cuidado inclusive por Florentyna, sua irmã adotiva.

Ida para o castelo

Certo dia, tiveram uma grande surpresa: o Barão Rosnovski, patrão de Jasio, se interessou por conhecer o garoto, atraído pela fama de sua inteligência.

Após o encontro, o Barão o convidou a frequentar seu castelo para fazer companhia ao seu filho, Leon, e ajudá-lo nos estudos.

A aceitação do convite foi condicionada, por Wladeck, à companhia de sua irmã, Florentyna, que passou a frequentar outros ambientes no castelo.

A convivência pacífica com Leon permitiu maior aproveitamento do aprendizado de Wladeck, devido à disponibilidade dos capacitados professores que frequentavam o castelo.

Invasão russa

As forças revolucionárias, ao adentrarem no castelo durante a invasão russa na Polônia provocaram a morte de Leon e as prisões de Wladeck e do Barão, na masmorra do castelo, juntamente com alguns serviçais.

O sofrimento pela perda da liberdade, do poder e do filho Leon deprimiu o Barão e estreitou as relações com Wladeck, que lhe dedicou carinhosa atenção.

Os dias se passaram e, por força do acaso, diante do insuportável calor existente no cubículo que habitavam, Wladeck tirou a camisa e o Barão percebeu que o garoto, assim como ele, apresentava o mesmo sinal de nascença.

De pronto o reconheceu com seu filho e decidiu lhe passar, antes de sua morte, uma grossa pulseira de prata símbolo da família Rosnovski.

Depois de aprisionado pelos russos e alemães, durante a primeira guerra mundial, Wladeck fugiu da Sibéria em um trem. Durante o processo de fuga terminou sendo salvo da espada de um carrasco turco. Graças à pulseira recebida do pai, foi identificado por um dos presentes, com membro da importante família e terminou sendo poupado.

Nova York como destino

Com a ajuda de Pawel Zaleski, da embaixada da Polônia, em Constantinopla, embarcou em um navio com destino a Nova York. Durante a viagem conheceu o amigo George e a namorada Zaphia.

Ao desembarcar nos Estados Unidos, devido à dificuldade de comunicação, um policial americano da imigração resolveu trocar o nome de Wladeck para Abel Rosnovski.

Abel trabalhou como ajudante de açougueiro e em restaurante de hotel.

Casou-se com Zaphia, teve uma filha e pôs o nome de Flotentyna, em homenagem à sua irmã.

Destacou-se no que fazia, e foi convidado para trabalhar como subgerente na rede de Hotéis Richmond, do empresário Davis Leroy cuja única filha, Malanice Leroy, se interessou pelo imigrante.

Coincidência

No mesmo dia que Wladeck (Abel) nasceu na Polônia, Ane Kane casada com Roberts tradicional banqueiro americano, deu a luz ao filho William Lawelle Kane (Caim) em uma maternidade na cidade de Boston.

Após o nascimento do filho, o banqueiro Roberts se preocupou em planejar seu futuro e telegrafou para o diretor do respeitado Colégio St. Paul´s School para reservar uma vaga, para o filho, no colégio.

Após a morte do banqueiro, sua esposa Ane casou-se com o jogador Henry Osborne que lhe prometeu negócios fictícios e terminou por lhe roubar a herança de quinhentos mil dólares. Caim mandou investigar Osborne e descobrindo suas falcatruas.

Disputa pelo poder

Como diretor do banco do pai, e conhecedor teórico dos negócios financeiros, Caim, ainda jovem, foi submetido a uma disputa interna até se tronar presidente da instituição, cujo pai havia sido seu maior acionista.

A presença de um amigo de colégio no banco enfraqueceu Caim perante o conselho da instituição, devido à aparente falta de interesse e seu estilo de vida.

A crise de 1929

caim-e-abel-7A dificuldade financeira da rede de Hotéis Richmond provocada pela crise de 1929, época em que se encontrava em ativa expansão nos Estados Unidos, terminou com o endurecimento do crédito, necessário a continuidade do projeto de expansão. O banco resolveu negar apoio ao empresário Davis Leroy e este cometeu suicídio.

Abel tornou-se proprietário da rede de hotéis, disposto a vinga-se da morte do amigo Davis Leroy.

Influente na política foi grande colaborador de governos. Juntou-se a Henry Osborne, ex-marido da mãe de Caim, para destruir aquele que imaginou ter sido o mentor da ruína do seu amigo Davis.

Relacionamento indesejado

A história fica mais intrigante quando o filho de Caim se apaixona por Florentyna, filha de Abel. De um lado, Caim torce pela separação do casal e do outro, com a ajuda de George, seu fiel escudeiro, Abel usa de chantagem na tentativa de trazer de volta a filha para perto dos seus negócios.

O casal resolve mudar-se de cidade para não ser importunado e, anos depois, Florentyna abre uma cadeia de lojas com o seu nome.

Ao inaugurar uma das Lojas Florentyna, Caim e Abel se encontram e uma revelação foi feita.

Conclui-se que o ódio foi inútil, equivocado e carente de fundamento.

A saga de sessenta e cinco anos das vidas de Abel Rosnovski e William Kane é contada de forma extraordinária. Os capítulos alternam as histórias dos personagens até o momento que os interesses se conflitam.

Daí em diante, a emoção, que já abarca o início do texto, cresce como um duelo de titãs.

O enredo e a forma prende o leitor até a conclusão da história.

Recomendadíssima a leitura!

Jeffrey Archer

jeffrey-archer-2Ex-vice-presidente do Partido Conservador britânico e membro da Câmara dos Lordes, é aclamado como um dos mais talentosos escritores. Possui mais de 30 livros publicados, entre eles A filha pródiga e O quarto poder.

 

 

Referência bibliográfica

caim-e-abel-4
Caim & Abel /Jeffrey Archer – tradução de José Antônio Arantes. – Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Tradução de: Kane & Abel
409p.
ISBN 978-85-99296-31-8
1. Ficção inglesa. I. Arantes, José Antonio. II. Título.
(R)

A história coloca três personagens em um inferno hipotético, onde são obrigados a conviverem sem elementos que possam refletir a própria imagem, a não ser os olhos dos habitantes do confuso ambiente.

A filosofia existencialista, defendida por Sartre, responsabiliza o indivíduo na escolha do caminho que melhor lhe agrada e orienta sobre a importância dos sentimentos na vida das pessoas.

O seu carrasco

“Aquele que me olha é sempre o meu carrasco.”

Ou seja, apesar do indivíduo desejar ser refletido na melhor forma, os olhos dos outros ignoram esta aspiração e o enxerga, em profundidade, com o rigor que efetivamente ele, o indivíduo, não gostaria.

Sendo assim, a importância dos outros para cada um de nós gera influências que podem se tornar um inferno, devido à incapacidade humana de compreender nossas fraquezas.

Cita Sartre: “o inferno são os outros” numa alusão à imagem, de cada um de nós, refletida nos olhos de quem nos observam.

O paraíso é possível

A afirmação sobre a vigilância e o julgamento constante aos quais somos submetidos, não elimina a possibilidade de um paraíso.

Nesse caso, cabe ao indivíduo a responsabilidade da escolha do caminho que mais lhe agrada.

Resumidamente: apesar de o inferno ser os outros é possível a conquista do paraíso.

Convivência intensa

entre-quatro-paredes-3Entre quatro paredes, sem janelas, sem pausas para a vida cotidiana e descanso da observação aos olhos dos outros personagens, os três protagonistas foram obrigados a conviverem em plena intensidade.

Cita um dos protagonistas referindo-se ao piscar dos olhos, como fuga ao julgamento dos outros, como se os seus olhos fechados impossibilitassem as críticas de quem o observa.

“A gente abria e fechava; isso se chamava piscar. Um pequeno clarão negro, um pano que cai e se levanta, e aí a interrupção. (…) Quatro mil repousos em uma hora. Quatro mil pequenas fugas”.

O jornalista

Entre as quatro paredes, Garcin, um jornalista pacifista, que pretendia ser herói, mantinha um disfarce e tentava esconder o seu crime.

Sua maior agonia era a possibilidade das duas companheiras, no inferno hipotético, descobrirem a sua fraqueza ou covardia que, naquela situação, não poderia ser alterada.

Mulherengo, péssimo marido, insensível aos sentimentos da esposa, precisava dos olhos de Inês, outra protagonista, para se desculpar.

A funcionária

Inês, uma funcionária dos correios, com atitudes hostis, cujo ódio e a crueldade lhe nutrem, é a única entre os protagonistas que admite a culpa.

Reconhece estar no inferno e mostra o seu caráter, admitindo a situação que se encontram.

Adere ao fato e tenta tirar proveito dele.

Tinha uma reflexão interior profunda e consciência clara do papel a ocupar.

A burguesa

A burguesa Estelle cujo casamento foi realizado com um homem mais velho, por interesse financeiro, esconde o seu crime e tenta convencer Garcin e Inês que havia um engano em mantê-la no inferno.

Fútil, superficial e desorientada, necessitava dos olhos do jornalista, Garcin, para manter-se desejada vez que os valores superficiais a impediam de enxergar na forma mais adequada e consciente.

O inferno

Independente da intensidade, todos os protagonistas se olhavam e essa visão não passava do inferno de cada um. Cada um sabia os motivos de estar ali, conduto, tentavam esconder dos outros os fatos que os levaram à situação, para serem vistos como pessoas boas, exceto Inês, que não tinha esperança de mudança.

Enquanto Estelle e Garcin tentaram esconder os seus crimes, Inês expõe o por ela praticado e chama a atenção dos demais condenados, igualmente a ela, a permanecerem de forma irreversível, no lugar onde um é o espelho do outro. Tenta fazer com que Estelle enxergue Garcin através da avaliação dos seus olhos, como alternativa, já que ela o avaliava de forma superficial.

entre-quatro-paredes-2

A história segue com Inês tentando conquistar Estelle, que por sua vez procura se relacionar com Garcin, e, sabedores de que a consciência é liberdade condenada a existir, sem possibilidade de fuga Garcin se antecipa ao fechamento das cortinas e diz:

“Pois bem, continuemos…”

 

Jean-Paul Charles Aymard Sartre

jean-paul-charles-aymard-sartre-1Filósofo, escritor e crítico francês, conhecido representante do existencialismo.

Era um militante e apoiou causas políticas de esquerda.

Recusou a receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1964.

Dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma essência posterior à existência.

Escreveu Os Dados Estão Lançados, Os Caminhos da Liberdade, O Sequestro de Veneza, As Palavras, A Náusea, e O Muro.

Referência bibliográfica

Sartre, Jean-Paul, 1905 – 1980
Entre quatro paredes / Jean-Paul Sartre; tradução de Alcione Araújo e Pedro Hussak. – 4ª ed.. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
Tradução de: Huis clos
INBN 978-85-200-0559-0
1. teatro francês (Literatura). I. Araújo, Alcione. II Hussak, Pedro. III. Título.
(R)

meditacao-3O texto é desenvolvido com base na afirmação filosófica de que o passado e o futuro não existem.
A clareza como o autor desenvolve o tema permite a reflexão sobre questões que levam o indivíduo a assumir a vida que não é a sua, imaginando retroceder no passado e projetando um futuro inexistente.

Realidade distorcida

As mudanças sugeridas, certamente, influenciarão na percepção de novos valores, responsáveis pela alteração nos relacionamentos e no bem-estar das pessoas.

Este estado de espírito é inibido devido à obscuridade imposta pelo ego.

Quantas vezes já ouvimos das pessoas que nos cercam a citação a respeito do Agora?

São muitas as justificativas para alteração do comportamento a respeito do futuro.

Algumas passaram por situações de risco de vida, outras romperam com relacionamentos duradouros, sobreviveram a crises financeiras ou encontram-se com idades avançadas.

Todas entendem que o Agora é determinante para usufruírem daquilo que construíram no passado.

Vale lembrar, para entendimento da questão, que o passado e o futuro não existem.

O autor chama a atenção para o fato de que a nossa mente psicológica se encarrega de impedir o bem-estar.

Exerce a influência do nosso ego e impede a nossa percepção do Agora.

Em vez do Agora a mente psicológica nos remete ao passado e ao futuro como forma de evitar a percepção do Ser.

Mente psicológica

Para nos precavermos da influência da mente psicológica precisamos observá-la de forma crítica e analítica identificando para onde ela pretende nos levar.

Seria um exercício de distanciamento de algo que nos incomoda.

A destreza dessa percepção permite nos manter no Agora, todas as vezes que a mente psicológica tentar influenciar nas ações baseadas no passado e no futuro, como sempre o faz.

O sucesso está em considerarmos que a mente psicológica não é parte de nós, mas, algo responsável por manter o ego sempre no comando das nossas ações.

O excesso de futuro nos traz como consequências o desconforto, a ansiedade, a tensão, o estresse e a preocupação.

O excesso de passado acarreta o sentimento de culpa, arrependimento, ressentimento, injustiça, tristeza e amargura.

Sendo assim, a convivência com a mente psicológica, atuando nestes dois contextos, impede o bem-estar sentido na convivência com o Agora.

“Por que o Agora é a coisa mais importante que existe? Primeiramente, porque é a única coisa. É tudo o que existe. O eterno presente é o espaço dentro do qual se desenvolve toda a nossa vida, o único fator que permanece constante. A vida é agora. Nunca houve uma época em que a nossa vida não fosse agora, nem haverá. Em segundo lugar, o Agora é o único ponto que pode nos conduzir para além das fronteiras limitadas da mente. É o nosso único ponto de acesso à área atemporal e amorfa do Ser.”

“Nada jamais aconteceu no passado, aconteceu no Agora. Nada jamais irá acontecer no futuro, acontecerá no Agora. O que consideramos como passado é um traço da memória, armazenado na mente, de um Agora anterior. Quando nos lembramos do passado, reativamos um traço da memória e fazemos isso Agora. O futuro é um Agora imaginado, uma projeção da mente. Quando o futuro acontece, acontece como sendo o Agora. Quando pensamos sobre o futuro, fazemos isso no Agora. Obviamente o passado e o futuro não têm realidade própria.”

ego-1

“Enquanto o ego dirige a nossa vida, não conseguimos nos sentir à vontade, em paz ou completos, exceto por breves períodos, quando acabamos de ter um desejo satisfeito. O ego precisa de alimento e proteção o tempo todo. Tem necessidade de se identificar com coisas externas, como propriedades, status social, trabalho, educação, aparência física, habilidades especiais, relacionamentos, história pessoal e familiar, ideais políticos e crenças religiosas. Só que nada disso é você.”

 

O medo

medo-1O autor trata o medo como uma algo fora de um contexto real, até porque ele pode ser resumido a uma projeção mental de algo que não aconteceu e poderá nunca vir a acontecer.

Difere de situações reais nas quais se apresentam dificuldades que requerem atenção específica para gestão.

 

“A doença psicológica do medo não está presa a qualquer perigo imediato concreto e verdadeiro. Manifesta-se de várias formas, tais como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, pavor, fobia, etc. Esse tipo de medo psicológico é sempre de alguma coisa que poderá acontecer, não de alguma coisa que está acontecendo neste momento. Você está aqui e agora, ao passo que a sua mente está no futuro. Essa situação cria um espaço de angústia. E caso estejamos identificados com as nossas mentes e tivermos perdido o contato com o poder e a simplicidade do Agora, essa angústia será a nossa companhia constante. Podemos sempre lidar com uma situação no momento em que ela se apresenta, mas não podemos lidar com algo que é apenas uma projeção mental. Não podemos lidar com o futuro.”

Projeções do futuro

Sobre o tempo psicológico o autor classifica com uma doença mental.

Considera que muitas das projeções feitas a respeito da busca do futuro ideal levam os indivíduos a cometerem atrocidades e manifestações coletivas desastrosas, ao apostarem em um suposto bem maior, no futuro, acreditando que o fim justifica os meios.

“O fim é uma ideia, um ponto na mente projetado no futuro, quando a salvação, sob a forma de felicidade, satisfação, igualdade, libertação, etc., será alcançada. Muitas vezes, os meios para atingir o fim são a escravidão, a tortura e o assassinato de pessoas no presente.
Por exemplo, estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas foram assassinadas para promover a causa do comunismo e levar a um “mundo melhor” na Rússia, na China e em outros países. Esse é um exemplo terrível de como uma crença em um paraíso no futuro cria um inferno no presente.”

Sem padrões

O autor propõe a observância constante da mente psicológica, cujo ego impede o comando da vida, sem padrões e condicionamentos mentais que possam dificultar vivenciar o Agora. Lembra que ao nos aproximarmos da morte renunciamos ao ego e a verdade aparece de forma despojada e leve.

Por que meditar

Para os que ainda não possuem familiaridade com a meditação o autor descreve o processo e sugere a prática durante 10 a 15 minutos. Posso assegurar que a prática libera a mente para as atividades diárias, promove o equilíbrio psicológico e ajuda a manter boas relações interpessoais.
Aventure-se!
Experimente uma, duas, três ou mais vezes até obter, com a prática, facilidade do processo!

Como meditar

meditacao-2“Providencie para que não haja distrações externas, como telefonemas ou pessoas que possam interromper. Sente-se em uma cadeira, mas não encoste. Mantenha a coluna ereta. Isso ajuda a ficar alerta. Você também pode escolher uma posição favorita para meditar.

Certifique-se de que o seu corpo está relaxado. Feche os olhos. Respire profundamente algumas vezes. Sinta a respiração na parte inferior do abdômen. Observe como ele se expande e se contrai levemente, a cada entrada e saída do ar. Depois, tome consciência de todo o campo de energia interior do seu corpo. Não pense a respeito, apenas sinta-o. Ao fazer isso, você retira a consciência do campo da mente. Se ajudar, visualize a “luz” que descrevi anteriormente.

Quando você não encontrar mais obstáculos em sentir o corpo interior como um campo único de energia, descarte, se possível, qualquer imagem visual e se concentre apenas na sensação. Se possível, descarte também qualquer imagem mental que você ainda tenha do corpo físico. O que sobrou é uma abrangente sensação de presença ou “existência” e uma percepção de um corpo interior sem fronteiras. A seguir, concentre sua atenção mais fundo nessa sensação. Forme uma unidade com ela.

Junte-se de tal modo ao campo de energia que você não mais perceba a dualidade entre o observador e o observado, entre você e seu corpo. A separação entre o interior e o exterior também se dissolve nesse momento, e, assim, não existe mais um corpo interior. Ao entrar profundamente no corpo, você transcendeu o corpo.
Permaneça nessa região do puro Ser pelo tempo que você se sentir bem. Depois, retome a consciência do corpo físico, da sua respiração, dos sentidos, e abra os olhos. Observe o que está à sua volta por alguns minutos, em um estado meditativo, isto é, sem dar nome a nada, e continue a sentir o corpo interior enquanto faz isso.”

Eckhart Tolle

eckhart-tolle-1Pseudônimo de Ulrich Leonard Tolle nasceu em Lünen, na Alemanha, em 16 de fevereiro de 1948.

É escritor e conferencista, residente no Canadá.

Depois de se formar pela Universidade de Londres, tornou-se pesquisador e supervisor da Universidade de Cambridge.

Aos 29 anos, depois de vários episódios depressivos, passou por uma profunda transformação espiritual, dissolveu sua antiga identidade e mudou o curso de sua vida de forma radical.

Os anos seguintes foram dedicados ao entendimento, integração e aprofundamento desta transformação, que marcou o início de uma intensa jornada interior.

Escreveu O Poder do Agora (2001), A prática do poder do agora: meditações, exercícios e trechos essenciais (2002), A voz da serenidade (2003), Um novo mundo: despertar para a essência da vida (2007), Guardiões do ser (2009) e O silêncio no mundo: lições do retiro de Findhorn (2011).

Referência bibliográfica

o poder do agoraTolle, Eckhart, 1948-
O poder do agora [recurso eletrônico] / Eckhart Tolle [tradução de Iva Sofia Gonçalves Lima]; Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
Recurso digital
Tradução de: The power of now
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Multiplataforma
Modo de acesso:
ISBN 978-85-7542-631-9 (livro eletrônico)
1. Vida espiritual. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

A história tem como protagonista um elegante dançarino que se especializou em satisfazer os caprichos de mulheres abastardas, solitárias ou afeitas a aventuras sexuais, por opção ou atraídas pelo encanto de Max Costa.

Buenos Aires

buenos-aires-2O compositor Armando de Troeye viajou, em um cruzeiro, à Buenos Aires em companhia da sua esposa, Mecha Inzuanza, com o intuito de compor um tango.

Ao perceber que Max Costa, contratado do navio para animar os salões de baile, era um exímio dançarino de tango, estimulou a aproximação dele à sua companheira.

 

“…Armando de Troeye já havia felicitado Max por sua habilidade na pista de dança e mantinham uma conversa ligeira, adequadamente social, sobre transatlânticos, música e dança profissional. O autor dos “Nocturnos” — além de outras obras famosas, como “Scaramouche” ou o balé “Pasodoble para don Quijote”, que Diaguilev tornara mundialmente conhecido — era um homem seguro de si, constatou o dançarino mundano…”

“O tango, explicou Max, é uma mistura de várias coisas: tango andaluz, habanera, milonga e dança de escravos negros. Os gaúchos crioulos, à medida que foram se aproximando, com seus violões, de mercearias, armazéns e prostíbulos dos arredores de Buenos Aires, chegaram à milonga, e finalmente ao tango, que começou como milonga dançada. A música e a dança negra foram importantes, porque nessa época os casais dançavam enlaçados, não abraçados. Mais soltos que agora, com cortes, recuos e voltas simples ou complicadas.”

A periferia do tango

tango-3Armando revela a Max o seu interesse em conhecer particularidades do ritmo e o convence a leva-lo a ambientes que executem o estilo musical, na sua origem.

Receoso, Max concorda em leva-los para conhecer ambientes promíscuos na periferia da capital Argentina.

A aventura termina revelando segredos entre o casal, envolvendo o protagonista em um contexto inesperado, ao retornarem, bêbados, para o hotel onde o casal estava hospedado.

Sem pudor, o protagonista atua procurando tirar vantagem financeira.

Não fosse a beleza e elegância de Mecha, certamente, a história teria parado por ai: um casal, um dançarino e uma música emblemática.

Max e Mecha se apaixonam sem revelar ao outro o sentimento e Armando, com astúcia, estimula a aproximação entre eles e promove oportunidades para a quebra de convenções morais.

Apesar do protagonista não entender a intenção do casal Mecha conhecia as ideias permissivas do marido, reveladas e praticadas em outras oportunidades.

Enquanto Max procura entender o contexto que havia sido inserido o casal deleitava os prazeres mundanos em companhia do protagonista e cria situações desprovidas de segurança.

Xadrezista

sorrento-italy-1A história é desenvolvida em épocas e locais diferentes.

Começa em 1928 com a viagem do casal para Buenos Aires, Argentina, onde conheceram Max, migra para Nice, França, em 1937 tendo como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola e o envolvimento de Max em aventuras políticas. Termina na cidade de Sorrento, Itália, com o aparecimento do xadrezista Jorge Keller.

Em Sorrento, Mecha revela a Max um segredo e o envolve no roubo das anotações do campeão mundial de xadrez, o russo Mikhail Sokolov, adversário de Keller.

As consequências foram desastrosas.

Salvo, apesar de quase triturado pelos seguranças do Sokolov, Max recebe os cuidados de Mecha e ao deitar-se para descansar ouve a revelação:

“— Toda minha vida se alimentou daquilo, Max. Do nosso tango silencioso no salão das palmeiras do Cap Polonio… Da luva que coloquei em seu bolso naquela noite no La Ferroviaria: a mesma que no dia seguinte fui buscar no seu quarto, na pensão de Buenos Aires.”

Max, por sua vez, destroçado, aproveita para contar a Mecha o início da sua história:

“— Estive pela primeira vez com uma mulher quando tinha 16 anos — lembra, lentamente, em voz baixa — e trabalhava como mensageiro no Ritz de Barcelona… Eu era muito alto para a minha idade, e ela uma hóspede madura, elegante. Finalmente, deu um jeito de me fazer entrar em seu quarto… Ao compreender, fiz o melhor que pude. E quando terminei, enquanto me vestia, ela me deu uma nota de 100 pesetas. Quando estava saindo, aproximei, ingenuamente, o rosto para lhe dar um beijo, mas ela afastou a face, irritada, com expressão de tédio…”

O colar de pérolas

Max revela a Mecha que a sua ida a Sorrento foi estimulada pela devolução do colar de pérolas que certa vez havia lhe roubado. Deixou a entender que a relação já não tinha mais a mesma importância, até porque a idade avançada era um fato limitante.

Ao despertar, Max, percebeu que a sua bagagem estava pronta para a viagem de fuga e no criado mudo a luva branca e o colar de pérolas tinham sido deixados por Mecha.

Com essa cena, o autor brinca com a imaginação do leitor, deixando-o imaginar porquê Max levou consigo apenas um dos objetos depositados por Mecha sobre o criado mudo.

O texto é rico em detalhes e a história envolve amor e aventura.

O leitor passa a imaginar possível o amor de um cafajeste e uma bela mulher, que se deixa usar pelos caprichos de um marido cujo caráter deixa a desejar.

Recomendo a leitura!

Arturo Pérez-Reverte

arturo-perez-reverte-1Nasceu na Espanha, Cartagena, em 24 de novembro de 1951.

É jornalista, escritor e membro da Real Academia Espanhola da língua.

A sua obra está traduzida em vários idiomas.

Antigo repórter de guerra, dedica-se à escrita desde finais dos anos 1980.

Editou os romances “O cemitério dos barcos sem nome”, “Território Comanche”, “O hussardo”, “O pintor de batalhas”, os seis romances da série de aventuras “Capitão Alatriste” e “O tango da velha guarda”.

Referências Bibliográficas

O tango da velha guardaPérez-Reverte, Arturo, 1951-
P516t
O tango da velha guarda [recurso eletrônico] / Arturo Pérez-Reverte tradução Luís Carlos Cabral. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Record, 2013.
Formato: ePub
ISBN 978-85-01-40366-7
Título original – El tango de la Guardia Vieja
1. Romance espanhol 2. Livros eletrônicos. I. Cabral, Luis Carlos. II. Título.

O texto denuncia a história do Colônia, considerado o maior hospício existente no Brasil.

Localizado no município de Barbacena, Minas Gerais, a cidade recebeu a unidade hospitalar como prêmio lenitivo por ter perdido a disputa com Belo Horizonte para sediar a capital do estado.

Terminou ganhando a denominação de capital da loucura.

estacao-de-trem-barbacena-1Estação de trem

A exemplo do que ocorria com os judeus nos campos de concentração nazistas de Auschwitz, o Colônia recebia pessoas de todo o país em vagões de trem, ônibus e viaturas policiais, pelos mais diversos motivos.

 

“Os recém-chegados à estação do Colônia eram levados para o setor de triagem. Lá, os novatos viam-se separados por sexo, idade e características físicas. Eram obrigados a entregar seus pertences, mesmo que dispusessem do mínimo, inclusive roupas e sapatos, um constrangimento que levava às lágrimas muitas mulheres que jamais haviam enfrentado a humilhação de ficar nuas em público. Todos passavam pelo banho coletivo, muitas vezes gelado. Os homens tinham ainda o cabelo raspado de maneira semelhante à dos prisioneiros de guerra.”

colonia-barbacena-3A colônia

O Colônia foi criado em 1903 e encerrou suas atividades em 1994.

Nela foram jogadas vítimas do preconceito, da conveniência familiar e do desconhecimento médico.

Pessoas eram levadas ao hospício devido a sinais de tristeza, timidez, homossexualidade, valores familiares equivocados a exemplo da perda da virgindade antes do casamento, arruaça, falta de espaço nas delegacias policiais e outros motivos banais.

Comércio dos corpos

A grande maioria saia de lá para o cemitério ou vendida, como cadáveres, para instituições de ensino, cuja renda era destinada à manutenção da entidade.

O retorno ao convívio familiar era considerado impossível devido à pecha impregnada aos hóspedes daquele inferno, que muito raramente e pequeníssima minoria recebia visitas de familiares.

colonia-barbacena-1

“Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio do Colônia. O objetivo era que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas.”

 

Ações políticas

O presidente Jânio Quadros, em 1961, incomodado com o diagnóstico do tratamento psiquiátrico no país promoveu ações para reverter a situação, mas, apesar dos movimentos opostos aos procedimentos usuais nos manicômios o ‘tiro de misericórdia’, no Colônia, só aconteceu em 1994, com a desativação da última cela, após vitimar aproximadamente 60 mil brasileiros entre 1930 e 1980.

Extinção dos manicômios

“De lá para cá, os discursos ganharam novo viés, como a necessidade de extinção dos leitos de baixa qualidade, com a garantia de contratação de leitos psiquiátricos em hospitais gerais. E apesar dos equívocos e acertos na construção de um novo paradigma para a saúde pública, a loucura ainda é usada como justificativa para a manutenção da violência e da medicalização da vida. É como se a existência pudesse ser reduzida à sua dimensão biológica e para todos os sentimentos existisse um remédio capaz de aliviar sintomas e de transformar realidade em fuga.”

Reforma dos hospícios

Apesar das manifestações no meio acadêmico que instigaram a necessidade de reforma nos tratamentos psiquiátricos a Lei Federal 10.216 só foi sancionada em 2011, com críticas, contundentes, de personalidades intelectualizadas da sociedade brasileira.

O documento, riquíssimo em detalhe, retrata uma realidade vergonhosa e acena à reflexão de outros holocaustos a exemplo dos que ocorrem nos presídios e nos procedimentos públicos relativos a usuários de droga. Nos convida a uma reflexão sobre a ‘lavagem cerebral’ imposta pela mídia preconceituosa, excludente e conveniente.

O texto, atual, é de uma excelência invejável e deve ser lido pelos sociólogos de plantão.

Onde comprar

Holocausto Brasileiro – Livraria Cultura

Holocausto Brasileiro – Livraria da Folha

Holocausto Brasileiro – Extra

Daniela Arbex

daniela-arbex-2Nasceu 19 de abril de 1973 em Juiz de Fora, Minas Gerais. É formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1995, iniciou a carreira no jornal Tribuna de Minas.

Conseguiu reconhecimento para o seu trabalho de repórter investigativa, especialmente a partir da série Cova 312, publicada em 2002.

A investigação sobre a sepultura do guerrilheiro Milton Soares de Castro, dado como desaparecido durante a Ditadura Militar, ganhou o Prêmio Esso, além de menções honrosas no Prêmio Vladimir Herzog e no Prêmio Lorenzo Natali.

Tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série “Holocausto brasileiro”, o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa).

Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa).

Referência bibliográfica

holocausto brasileiroArbex, Daniela, 1973
Holocausto brasileiro / Daniela Arbex. 1. Ed. – São Paulo: Geração Editorial, 2013.
ISBN 978-85-8130-156-3
1. Direitos humanos – Violação 2. Genocídio 3. Hospitais psiquiátricos 4. Hospital Colônia – Barbacena (MG) – História 5. Livro-reportagem 6. Pacientes hospitalizados – Maus-tratos I. Título.

Patrice Mersault conhece a datilógrafa Marthe. Começam um relacionamento e se envolvem em uma relação conveniente revelando-se um amante silencioso e pouco exigente.

No cinema, após uma cena de ciúme, ela revela ter outros relacionamentos e cita Roland Zagreus, que vivia em uma cadeira de roda por ter as pernas cortadas, como um dos amantes preferidos. Patrice Mersault fica curioso e pede a Marthe que o apresente.

Entre amantes

No primeiro encontro entre os dois amantes de Marthe o protagonista mostrou-se desconfortável, contudo, Roland Zagreus consegue suavizar o incomodo do visitante mantendo o foco da conversa em elogios à moça e busca tornar Patrice Mersault um cúmplice.

Atenuado o incomodo Roland Zagreus provoca Patrice Mersault:

“Está com um ar cansado — disse. Por pudor, Mersault responde apenas: — Sim, estou entediado — e depois de algum tempo, reergueu-se, caminhou até a janela e acrescentou, olhando para fora: — Tenho vontade de me casar, de me suicidar, ou de fazer uma assinatura de L’Illustration. Um gesto desesperado, sei lá. O outro sorriu: — Você é pobre, Mersault. Isso explica a metade de seu desgosto. E a outra metade, você a deve à absurda aceitação com relação à pobreza.”

Carta e revólver

bau-1Ao comentar sobre a pobreza Roland Zagreus chamar a atenção do visitante para uma alternativa que o levaria a uma vida melhor e o induz a perceber um cenário cujo contexto remete a um ato questionável:

“Nesse momento, Zagreus abrira o pequeno baú que estava encostado à lareira e mostrara um grande cofre de aço escurecido com a chave. Sobre o cofre, havia uma carta e um grande revólver preto. Ao olhar involuntariamente curioso de Mersault, Zagreus respondera com um sorriso. Era muito simples. Nos dias em que ele sentia demais a tragédia que o privava de sua vida, colocava diante de si essa carta, que não datara, e que fazia parte de seu desejo de morrer. Depois, colocava a arma na mesa, aproximava o revólver e encostava nele a testa, rolava-o pelas têmporas, acalmava sob o frio do aço a febre de suas faces. Ficava assim por um longo momento, deixando vagar os dedos ao longo do gatilho, até que o mundo se calasse à sua volta, quando, já sonolento, todo o seu ser se envolvia na sensação do aço frio e salgado, do qual podia sair a morte”

Assassinato ou suicídio

Albert Camus tira de foco a relação entre Mersault e sua amante e desloca o tema para valores éticos e morais que remetem à busca da felicidade através da riqueza.

Sendo assim, Patrice Mersault é instigado ao crime como forma de livrar-se da pobreza…

“Zagreus, sem se mexer, parecia contemplar toda a beleza desumana da manhã de abril. Quando sentiu o cano do revólver na têmpora direita, não desviou os olhos. Mas Patrice, que o fitava, viu seu olhar encher-se de lágrimas. Foi ele que fechou os olhos. Deu um passo atrás e atirou. (…) Se bem que não se visse mais Zagreus, e sim uma enorme ferida no seu relevo de massa encefálica, de osso e de sangue. Mersault começou a tremer. Passou para o outro lado da poltrona, tomou-lhe a mão direita, fê-lo pegar o revólver, ergueu-o até a altura da têmpora e deixou-o cair novamente. O revólver caiu no braço da poltrona e, daí, foi parar nos joelhos de Zagreus.”

Paixão pela aventura

Após o crime, com dinheiro e muitas aventuras o protagonista se permite a uma reflexão:

“Suas corridas pelo mundo, sua exigência de felicidade, a terrível ferida de Zagreus, cheia de cérebro e de osso, as horas suaves e contidas da Casa Diante do Mundo, sua mulher, suas esperanças e seus deuses, tudo aquilo estava diante dele, mas como uma história que se prefere às outras, sem uma razão válida, ao mesmo tempo estranha e familiar, livro favorito que agrada e confirma o que há de mais profundo em nós, mas escrito por outra pessoa. Pela primeira vez, ele não sentia outra realidade que não a de uma paixão pela aventura, um desejo de seiva, de um relacionamento inteligente e cordial com o mundo. Sem rancor nem ódio, não conhecia o remorso.”

O texto retrata ambientes vividos pelo autor e impõe o entendimento que a felicidade está diretamente relacionada a existência da liberdade e do dinheiro.

A morte aparece – a exemplo das demais obras do autor – como uma realidade concreta, consciente e natural.

Temê-la é negar a vida.

Considerando tratar-se do primeiro livro do autor, só publicado após a sua morte, carece de uma estrutura literária que facilite o entendimento dos objetivos, contudo, em se tratando de Camus deixar de lê-lo é perder oportunidade para uma reflexão filosófica.

Albert Camus

camur-1

Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.

A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.

Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.

O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.

Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.

Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.

Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.

Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.

A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.

Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.

Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.

albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.

A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.

Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.

Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.

Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.

albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.

Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.

Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.

Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.

Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.

Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

A morte felizCamus, Albert, 1913-1960
A morte feliz / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek.- 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Record.
Tradução de: La mort heureuse.
1. Romance francês I. Título. II. Ciências Humanas e Sociais. III. Psicologia e Filosofia.

o-silencio-dass-montanhas-1A fábula contada pelo pai dos órfãos Abdullah e Pari tem a aldeia de Maidan Sabz como cenário da vida de devs, jinis e gigantes que perambulavam por terras de um fazendeiro chamado Baba Ayub.

Um dev submete um pai a escolher um dos filhos para entrega-lo em troca da sobrevivência.

A decisão da escolha acarretou sofrimentos, perdas, benefícios e recompensas.

Ao passar do tempo, a fábula se transforma em realidade e o pai de Abdullah e Pari é submetido a conflitos por ceder a filha em troca de recompensa financeira.

A decisão acarretou consequências imprevisíveis e irreparáveis na vida dos irmãos.

Homossexualidade e adoção

O patrão do motorista, Nabi, casa-se com a poeta Nila Wahdati que descobre o interesse do marido, homossexual, por ele.

Nila desperta a admiração de Nabi e, ao conhecer a sua história, o convence a leva-la à aldeia onde morava o pai de Pari.

Convencido por Nila, o pai da garota abdica-se da filha em troca de recompensa financeira.

Cabul e Paris

paris-1

Consumado o fato, Nila e Pari vão morar em Paris e deixa o marido, moribundo, aos cuidados do motorista, em Cabul.

Nila, filha de um afegão com uma francesa, embarca no mundo da intelectualidade e experimenta um relacionamento que interfere no convívio com a garota.

 

Realidade sociopolítica

A história contada em vários cenários e por diversos personagens culmina com a morte de Nila e termina por revelar a verdadeira origem de Pari.

De volta ao Afeganistão, a já adulta Pari, reencontra o irão e toma consciência das perdas acarretadas pela realidade sociopolítica do país e das consequências desastrosas do fato.

Perda da autoestima

Fora do tema central que move a narrativa, outros fatos são contextualizados referentes às perdas e dificuldades para recuperação da autoestima.

“Muitos anos depois, quando comecei a estudar para ser cirurgião plástico, entendi uma coisa que não sabia naquele dia na cozinha, enquanto argumentava para que Thalia saísse de Tinos e fosse para o internato. Aprendi que o mundo não via o seu interior, não se importava com as esperanças, os sonhos e as tristezas que pudessem existir sob a pele e os ossos. Era simples assim, absurdo e cruel. Meus pacientes sabiam disso. Percebiam que muito do que eram, do que seriam ou poderiam ser girava em torno da simetria de suas estruturas ósseas, do espaço entre os olhos, do tamanho do queixo, da projeção da ponta do nariz, se tinham ou não o melhor ângulo frontal. A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente.”

“Minha proposta para Thalia continua valendo até hoje. Sei que ela não vai aceitar. Mas agora eu entendo. Porque ela tem razão, isso é quem ela é. Não posso pretender saber como deve ter sido olhar para aquele rosto no espelho todos os dias, fazer um levantamento da horrível ruína, reunir vontade para aceitar. A força gigantesca necessária, o esforço, a paciência. A aceitação tomando forma lentamente, ao longo dos anos, como rochas num penhasco na beira do mar, esculpidas pelas ondas que batem. Foram minutos para o cachorro dar a Thalia aquele rosto, e toda uma vida para transformá-lo numa identidade. Ela não me deixaria desfazer tudo isso com meu bisturi. Seria como infligir um novo ferimento sobre o antigo.”

Busca por mudanças

O que move as pessoas na busca por mudanças não é o que querem, mas, o que não querem, afirma o autor.

“— É uma coisa engraçada, Markos, mas normalmente as pessoas veem a coisa ao contrário. Elas pensam que vivemos pelo que queremos. Mas o que as conduz é o que elas temem. O que elas não querem.”

Em várias oportunidades e por motivos diversos o ser humano é submetido a situações parecidas com a da fábula.

Mães e pais, obrigados ou por opção, se afastam dos filhos e os afastam dos irmãos.

As consequências são as mais diversas e, certamente, cada um de nós já ouviu contar situações parecidas.

O Silêncio das Montanhas é rico no campo das relações humanas e impõe escolhas e decisões, que interferem na vida e bem-estar das pessoas.

Não bastasse a importância do tema, o autor usa uma narrativa que mantem o leitor zelado.

Khaled Hosseini

khaled-hosseini-2É médico nascido em Cabul capital do Afeganistão, com naturalização estadunidense. Formou-se em medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos.

Sua mãe era professora e o seu pai trabalhou no Ministério do Exterior afegão.

Em 1976 mudou-se com a família para Paris por conta do emprego do seu pai.

Enquanto estavam em Paris, os comunistas assumiram o poder.

Escreveu Caçador de Pipas, A Cidade do Sol e O Silêncio das Montanhas.

Referência bibliográfica

O silêncio das montanhasO Silêncio das Montanhas: romance / Khaled Hosseini. – São Paulo: Editora Globo S.A., 2013.
ISBN: 9780986939754.
Título original: And the montains echoed.
Tradução: Claudio Carina.
Apresentação: Livro digital.

(R)