irmaos-karamazov-1Os Irmãos Karamázov é considerada, por muitos estudiosos, uma obra-prima da literatura mundial.

Trata-se do último romance escritor por Dostoiévski.

Há quem afirme que apesar das suas novecentos e noventa e nove páginas (editora 34) é uma obra inacabada.

A história tem como pano de fundo uma cidade russa e aborda os conflitos entre quatro irmãos, filhos do mesmo pai com três mulheres.

Fiódor Pavlovitch Karamázov, o pai de Dmitri, Ivan, Alieksêi e do bastardo Pável, era um homem avarento, egoísta, depravado, sem princípios éticos e morais. Adquiriu a sua fortuna através de dotes de suas esposas Adelaída e Sófia.

Conflitos

Dimitri, único filho de Karamázov com Adelaída, criado por um primo de sua mãe, requereu a sua parte na herança e desencadeou conflitos com o pai.

Em consequência da disputa, Dimitri conhece a jovem Grúchenka, amante do pai, e se apaixona por ela. Termina o noivado com a rica Catierina e resolve disputar, com o pai, o amor da amante.

Negociações

Ivan e Alieksêi, filhos de Karamázov com Sófia, sua segunda esposa, falecida prematuramente, tentaram negociar um acordo com o pai, com a intermediação do respeitado monge Zossima.

A intransigência do velho terminou por contrariar os interesses dos herdeiros.

irmaos-karamazov-3Alieksêi, que tinha uma vida simples no mosteiro e era discípulo dos ensinamentos do monge Zossima, procurou minimizar os efeitos dos conflitos que envolviam os interesses financeiros, os tumultos provocados por atitudes pessoais e os relacionamentos amorosos dos irmãos Dimitri e Ivan.

Pável, o filho bastardo de Karamázov com a demente e perambulante Lizavieta, foi parido no jardim da casa do pai. Devido à morte da mãe terminou sendo adotado pelo casal Grigori e Marfa, empregados do velho.

Devido à adoção, acabou como serviçal na casa do próprio pai e teve a oportunidade de conhecer os irmãos, analisar suas personalidades e arquitetar um crime que envolveu todos eles.

O autor caracteriza Dimitri, como um homem debochado e impulsivo; Ivan, como filósofo e intelectual questionador; Alieksêi, com elevada capacidade de percepção e exacerbada habilidade de relacionamento; e Pável, como um ser humano discreto, invejoso, dissimulado, estrategista e vingativo.

O texto se destaca pela capacidade de discorrer, de forma ficcional, assuntos familiares que contrapõem interesses pessoais capazes de abalar as relações humanas.

irmaos-kararamazov-2A história escancara de forma perversa o comportamento humano e deixa o leitor com a responsabilidade da análise e avaliação dos variados tipos de comportamentos, personalidades e crenças.

Trata-se de uma obra aberta, onde os personagens são caracterizados de forma precisa, sem perder a linguagem própria e característica do nível social e do contexto que cada um se insere, já que os irmãos Karamásov tiveram, apenas, o pai como ponto de confluência.

Devido à ausência de um ambiente familiar acolhedor, o destino proporcionou a cada um dos filhos experiências discrepantes: formação intelectual, construção da personalidade e acessibilidade social.

As diferenças retratadas em cada personagem enriquecem a trama arquitetada pelo autor e alcança o pleno objetivo.

Questionamentos

Dostoiévski nos brinda com questionamentos que incomodam o conforto mental. Expõe cada personagem ao extremo da ética e da moral: “Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante.”

Não bastasse os vários questionamentos familiares que envolvem valores sociais e comportamentais o texto oferece provocações religiosas.

Onde comprar

Os Irmãos Karamázov – Livraria Cultura

Os Irmãos Karamázov – Livraria Saráiva

Os Irmãos Karamázov – Submarino

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

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Nasceu em Moscou, Rússia, no dia 11 de novembro de 1821. Foi o segundo filho do casal Mikhail Dostoiévski e Maria Fiodorovna.

Sua mãe morreu, de tuberculose, quando Dostoiévski tinha 15anos, deixando ele e seis irmãos em companhia do pai. Motivados pela depressão e ao alcoolismo do pai, ele e um dos irmãos foram para a Academia Militar de Engenharia de São Petersburgo.

Existem registros que afirmam que Mikhail foi assassinado por seus servos revoltados com os maus tratos. Outros asseguram que a morte se deu em consequência de um acidente vasculhar.

Fiódor Dostoiévski desejou a morte do pai, por não concordar com o seu jeito autoritário e este fato terminou causando sentimento de culpa e exercendo influência na sua obra.

Morreu em São Petersburgo no dia 9 de fevereiro de 1881, aos 59 anos.

Formação acadêmica

Fiódor Dostoiévski concluiu seus estudos de engenharia em 1843 e obteve a patente de tenente militar. Aprendeu física, matemática e literatura. Estudou as obras do alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, dos franceses Blaise Pascal e Victor Hugo, e do inglês William Shakespeare.

O escritor francês Honoré de Balzac visitou Dostoiévski em São Petersburgo, em 1844, e a visita resultou em uma tradução o primeiro grande romance de Balzac. Com o dinheiro recebido pelo trabalho quitou uma dívida que tinha com um agiota e despertou a sua vocação pela literatura. Fez outras traduções dentre as quais romances de George Sand (pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin) considerada uma das maiores escritoras memorialista francesa e precursoras do feminismo.

Início da obra literária

Em 1844, Dostoiévski deixou o exército e dedicou-se exclusivamente à escrita, iniciando o romance epistolar (na forma de carta) ‘Gente Pobre’, que recebeu elogios de influente crítico literário russo, que o considerou uma obra realista com importante visão social. O livro foi publicado em 1846, quando o autor possuía, apenas, 24 anos.

Ainda em 1846 surge o segundo romance titulado ‘O Duplo’ cujo protagonista se apresenta com dupla personalidade. Possivelmente, fruto das perturbações sofridas por Dostoiévski que forma confundidas, na época, como crises epilépticas. Há quem afirme que o escritor sofria de crise histérica. O escritor inclui a epilepsia nas histórias dos seus personagens, como o príncipe Míchkin (“O Idiota”), Kiríllov (“Os Demônios”) e Smerdiákov (“Os Irmãos Karamázov”).

Dostoiévski sofre um revés da crítica ao escrever, em 1848, ‘Noites Brancas’ e ‘Niétochka Nezvánova’. Essas obras enfatizaram o comportamento psicológico dos personagens.

O escritor volta a surpreender quando do seu retorno da Sibéria, onde estava preso, com o livro ‘Recordações da Casa dos Mortos’, publicado em 1862. O respeitado escritor Levi Tostói fez excelentes elogios à obra.

‘Crime e Castigo’, publicado em 1866 e o seu último romance ‘Os Irmãos Karamazov’, publicado em 1881, consagram o escritor com um dos mais influentes da Rússia. O último romance foi considerado pelo criador da psicanálise Sigismund Schlomo Freud como o romance mais bem escrito.

Foco nos conflitos mentais

Por ser uma obra atemporal, muito do modernismo literário e da escola teológica e psicológica sofreu influência da obra do autor. Versa sobre aspectos do estado de espírito que leva ao homicídio, ao suicídio, à loucura, ao sofrimento e por que não dizer à autodestruição.

Neste contexto a obra que recebe os nomes de ‘Memórias do Subsolo”, publicada em 1864, é vista como um marco existencialista. Segundo o filósofo alemão Walter Arnold Kaufmann trata-se da “melhor proposta para o existencialismo já escrita”.

Expatriação na Sibéria

prisao-russa-1Por participar de reuniões do grupo intelectual Círculo Petrashevski e ter lido em público uma carta aberta do escritor e filósofo russo Vissarion Grigorievich Bielinsk dirigida ao escritor, também russo, Nikolai Gogol criticando-o por suas visões políticas e sociais conservadoras, Dostoiévski foi acusado de conspirar contra o imperador Nicolau I da Rússia e Grão-Duque da Finlândia. O Círculo Petrashevski se dedicava a debater as condições de vida na Rússia.

Em 23 de abril de 1849, o escritor foi preso juntamente com outros membros do Círculo Petrashevski. Passou oito meses na Fortaleza de Pedro e Paulo até que, em 22 de dezembro, houve a sentença de morte por fuzilamento.

Em 23 de dezembro, o escritor foi levado ao lugar da execução juntamente com outros membros do grupo e amarrados aos postes em frente ao pelotão. Antes da execução por fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse substituída por prisão com trabalhos forçados e exílio, na Sibéria.

Após a prisão, Dostoiévski começou a contemplar a vida como um dom extraordinário, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista. Valorando a responsabilidade individual, a integridade física e mental além da liberdade.

Na prisão, o escritor observa que mesmo em um ambiente completamente inóspito as diferenças sociais existiam.

A soltura de Dostoiévski ocorreu em 1854 condicionada à prestação de serviço no Sétimo Batalhão, por quatro anos, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de tornar-se soldado por tempo indefinido.

Casamentos, jogos e dívidas

cassino-4Dostoiévski casou-se em fevereiro de 1857 com Maria Dmitriévna Issáieva, mulher pela qual ele havia se apaixonado quando esposa de um conhecido. Com a morte do marido de Maria a união pode ser concretizada. Ela possuía um filho de oito anos e sofria de tuberculose.

Entre 1862 e 1863, viajou a Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante o período das viagens se relacionou com Paulina Súslova, uma estudante de ideias progressistas. Retornou a Rússia sem recursos por ter perdido todo dinheiro em jogos de azar.

Desanimado pela morte de sua esposa e do irmão, teve que sustentar a viúva do irmão e seus quatro filhos, além do enteado Pável Issáiev e o irmão, alcoólatra, Nikolai.

Conheceu a jovem estenógrafa de vinte e quatro anos, Anna Grigórievna Snítkina, e terminou se casando 15 de fevereiro de 1867.

Herança literária e reconhecimento

Dostoiéviski ao lado de Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Johann Wolfgang von Goethe, Luís de Camões, Victor Hugo são tidos como escritores que influenciaram sobremaneira a literatura do século XX. Particularmente, Dostoiévski influenciou as obras dos escritores Hermann Hesse, Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez.

A obra

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévskié é autor dos romances Gente Pobre (1846), O Duplo (1846), Noites Brancas (1848), Netochka Nezvanova (1849), O Sonho do Tio (1859), Aldeia de Stiepantchikov e seus Habitantes (1859), Humilhados e Ofendidos (1861), Recordações da Casa dos Mortos (1862), Memórias do Subsolo (1864), Crime e Castigo (1866), O Jogador (1867), O Idiota (1869), O Eterno Marido (1870), Os Demônios (1872), O Adolescente (1875) e Os Irmãos Karamazov (1881).

Escreveu as novelas e os contos Senhor Prokhartchin (1846), Romance em Nove Cartas (1847), A Senhoria (1847), Polzunkov (1848), Coração Fraco (1848), O Ladrão Honesto (1848), Uma Árvore de Natal e uma Boda (1848), O Homem Debaixo da Cama (1848), Noites Brancas (1848), O Pequeno Herói (1849), Uma História Lamentável (1862), O Crocodilo (1865), Bóbok (1873), Uma Criatura Gentil (1876), O Mujique Marei (1876), e O Sonho de um Homem Ridículo (1877).

Referência bibliográfica

60cd6-irmc3a3oskDostoiéviski, Fiódor, 1821-1881.
Os Irmãos Karamázov / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Ulysses Bôscolo. – São Paulo: Ed. 34, 2008.
Título
original: Brátya Karamázovy.
ISBN 978-85-7326-411-1.
999p.
1.Ficção russa. I. Bezerra, Paulo. II. Bôscolo, Ulysses. III. Título. IV. Série.
(R)

1984-7A mais renomada obra do inglês George Orwell fala de um presente no futuro.

Para compreendê-la é necessário recorrer a algum fatos histórico dos sistemas políticos, contraditórios e ao mesmo tempo convergentes, quanto ao totalitarismo usado na União Soviética e na Alemanha.

Stalin e Hitler se completavam, apoiados por grande parte da população.

Os que não compartilhavam das suas ideias foram enxotados, executados, deportados, presos ou submetidos a privações.

A obra cujo título seria 1948, ano em que foi escrita, por exigência dos editores, foi alterada para 1984. Ou seja, o presente tornou-se futuro.

As observações a respeito dos acontecimentos, apresentados como ficção, resumem o descontentamento do autor a respeito das formas como os seres humanos eram tratados pelas grandes potências e aceitas, com leniência, pelos blocos geoeconômicos.

Peças de um jogo

O autor critica as práticas utilizadas pelos regimes totalitários, ao tratar o indivíduo como uma peça do jogo criado para servir ao Estado.

Aparência de verdade

Em várias ocasiões, o protagonista da história, Winston Smith, chama a atenção para ações que desmontam fatos reais e os apresentam com características aparentemente verdadeiras, entretanto não passavam de nova roupagem, utilizada para ajudar a consolidar o poder.

“As vantagens imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a razão profunda era misteriosa.”

Teletelas

1984-3O protagonista, membro do Partido, sentia-se constantemente vigiado pelas chamadas teletelas e era colocado à prova da sua concordância quanto às práticas de manipulação, opressão e tortura usadas na manutenção do sistema político.

Para o Partido o que o indivíduo achava ou deixava de achar pouco importava, a norma devia ser seguida sem questionamentos.

“O Partido não está preocupado com a perpetuação de seu sangue, mas com a perpetuação de si mesmo. Não importa quem exerce o poder, conquanto que a estrutura hierárquica permaneça imutável.”

Lavagem cerebral

1984-2Qualquer atitude suspeita, significava o fim do indivíduo. Alguns eram submetidos a lavagem cerebral, outros simplesmente desapareciam.

“Um dia desses, pensou Winston, assaltado por uma convicção profunda, Syme será vaporizado. É inteligente demais. Vê as coisas com excessiva clareza e é franco demais quando fala. O Partido não gosta desse tipo de gente. Um dia ele vai desaparecer. Está escrito na cara dele.”

Romantismo poético

1984-4Apesar da angustia representada no texto, fruto da opressão e do controle exagerado, o autor arrumou espaço para o romantismo poético.

Descreve um ambiente onde, Smith, teve um encontro íntimo com Júlia, contrariando o Partido em relação à prática sexual com prazer.

Winston avançava pelo caminho em meio a um mosqueado de luz e sombra, pisando em poças douradas sempre que os galhos das árvores se distanciavam um dos outros. Sob as árvores à esquerda, o solo era um nevoeiro de jacintos. O ar parecia beijar a pele. Era dia dois de maio. De algum lugar mais para o interior do bosque vinha o arrulho de torcazes.”

A obra, ainda atual, chama a atenção para a vigilância dos fatos, tendências políticas e o uso do poder.

Recomendadíssima a leitura!

Onde comprar

1984 – Livraria Saraiva

1984 – Americanas

1984 – Extra

George Orwell (Eric Arthur Blair)

george-orwell-1Nasceu em Motihari na Índia, no ano de 1903. O seu nome verdadeiro é Eric Arthur Blair.

Completou seus estudos na Universidade de Eton.

Aos 19 anos entra para a Polícia Imperial Britânica. Passou muitos anos entre a Índia e a Birmânia. Revolta-se com o imperialismo inglês. Considera seu passado vergonhoso, e por isso muda seu nome.

Trabalha como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Assim, sente pela primeira vez a opressão da classe trabalhadora. Neste contexto ele começa a escrever.

Participa da Guerra Civil Espanhola, em 1936, lutando ao lado do P.O.U.M. (Partido Obrero de Unificación Marxista).

George Orwell era a favor das classes sociais baixas e se decepcionou com os Partidos Comunistas da época, fiéis aos ditames de Moscou. Considerado um anti-stalinista, não pelo socialismo, mas contra todo o tipo de totalitarismo.

Escreveu Na pior em Paris e Londres, A flor da Inglaterra, Dias na Birmânia, O caminho para Wigan Pier, A Revolução dos Bichos, entre outros títulos.

Referência bibliográfica

Orwell, George, 1903 – 1950
1984 / George Orwell; tradução Alexandre Hubner, Heloisa jahn; posfácio Erich Fromm, Ben Pimlott, Thomas Pynchon. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
414p.
Título original: 1984
INBN 978-85-359-1484-9
1. Romance inglês I. Fromm, Erich, 1900-1980. II. Pemlott, Bem 1945 – 2004. III. Pynchon, Thomas, 1937 – IV. Título.
(R)

 

o-amor-nos-tempos-do-colera-5

O autor transforma a história da vida dos pais em um romance. O cenário da cidade de Cartagena de lás Índias foi o escolhido para enriquecer a narrativa que retrata o sentimento de insatisfação diante do fracasso amoroso, os valores sociais e os efeitos do cólera. Trata, também, da devastação da natureza, das dificuldades nas relações conjugais e da rejeição ao processo de envelhecimento.

A história

o-amor-nos-tempos-do-colera-2Aos dezoito anos, Florentino Azira, filho de uma aliança ocasional entre Trânsito Azira e Pio Quinto, encanta-se por Fermina Daza, filha de um inescrupuloso comerciante. O comerciante tinha planos de casar a filha com uma pessoa de projeção social fato que conflitou com os interesses dos amantes.

 

Apesar das ações do pai de Fermina, Lourenzo Daza, para promover a separação dos amantes, os sentimentos se eternizaram e foram registrados nas inúmeras cartas de amor escritas por Florentino Azira.

Fermina Daza casa-se com o médico Juvenal Urbino, por mero capricho, ao perceber o interesse da prima Hidelbranda por ele. Experimenta uma vida fingida e desprovida de prazer.

Enquanto Fermina se dedicava aos compromissos sociais, Florentino Azira navegava por muitos relacionamentos amorosos, sem se dar o direito de outras paixões.

Florentino adquire o hábito de cadastrar as características das mulheres com as quais se deitou (mais de seiscentas) e envelhece, carcomido, na esperança de só morrer após Juvenal Urbino, marido de Fermina, e poder reencontrar a inesquecível amada.

As lições

O conto traz afirmações sobre o amor, o casamento e a velhice.

o-amor-nos-tempos-do-colera-1“(…) tinha vivido junto o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso fica quando mais perto da morte.”

“O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de fazer amor, e é preciso tornar reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.”

“Os velhos, entre velhos, são menos velhos.”

“Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.”

Longa espera

Esta história singular ultrapassa o imaginário da perseverança. Vence barreiras, refaz conceitos, retrata o contexto poético a ponto de não parecer verdadeira.

É uma narrativa espetacular, rica em detalhes de época e sentimentos humanos.

A espera do reencontro durou cinquenta e três anos, quatro meses e onze dias.

Onde comprar

O amor nos tempos do cólera – Livraria Saraiva

O amor nos tempos do cólera – Americanas

O amor nos tempos do cólera –  Livraia Travessa

Gabriel José García Márquez

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Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, na cidade de Aracataca, Colômbia.

Seus pais, Gabriel Eligio García e Luisa Santiaga Márquez, tiveram ao todo onze filhos.

Logo depois que García Márquez nasceu o seu pai se tornou um farmacêutico.

Dois anos após o nascimento do escritor seus pais se mudaram para Barranquilla. García Márquez permaneceu em Aracataca em companhia dos seus avós maternos, Nicolás Ricardo Márquez Mejía e Tranquilina Iguarán.

Aos oito anos, com a morte do avô, o escritor se mudou para Barranquilla (casa dos pais) e iniciou seus estudos no Liceu Nacional de Zipaquirá.

Em Bogotá cursou direito e ciências políticas na universidade nacional da Colômbia, mas abandonou a universidade antes da conclusão do curso.

Casou-se, em Barranquilha no México, com Mercedes Barcha com quem teve dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Influências na obra do autor

as-mil-e-uma-noites-2Seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias e suas histórias seduziram o neto.

Além dos contos baseados na coleção de histórias ‘As Mil e Uma Noites’ a sua avó Tranquilina, também, influenciou a criatividade do autor.

A adolescência de Gabo, como o autor era conhecido, foi marcada por livros. Um em especial chamou a sua atenção: A Metamorfose, de Franz Kafka.

Gabo se permitiu extrapolar a barreira da forma tradicional de contar histórias depois de ler Kafka.

Ora, se Kafka podia transformar o protagonista Grégor Samsa em um inseto, então, ele, também, poderia usar a ficção como forma impositiva sobre a realidade das suas histórias políticas, sociais e regionais.

Este fato resultou na criação do conhecido ‘Realismo Mágico ou Fantástico’ na literatura latino-americana.

Gabriel Márquez escolheu para sua referência William Faulkner, considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX.

Trabalhos, obras e prêmios

gabriel-garcia-marquez-5Gabriel García Márquez trabalhou como jornalista em vários periódicos da Colômbia e desempenhou trabalhos, como correspondente internacional na Europa e nos Estados Unidos.

É considerado um dos escritores mais importantes do século XX. Seus livros foram traduzidos em 36 idiomas e vendeu mais de 40 milhões de livros.

Escreveu: O enterro do diabo: A revoada (1955), Maria dos prazeres, Relato de um náufrago (1955), A sesta de terça-feira, Ninguém escreve ao coronel (1961), Os funerais da mamãe grande (1962), Má hora: o veneno da madrugada, Cem anos de solidão (1967), A última viagem do navio fantasma, Entre amigos, A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada, Um senhor muito velho com umas asas enormes, Olhos de cão azul, O outono do Patriarca, Como contar um conto (1947-1972), Crônica de uma morte anunciada (1981), Textos do caribe, Cheiro de goiaba, O verão feliz da senhora Forbes, O Amor nos tempos do cólera (1985), A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, O general em seu labirinto, Doze contos peregrinos (1992), Do amor e outros demônios (1994), Notícia de um Sequestro (1996), Memória de minhas putas tristes, dentre outros trabalhos.

Em 2002, após ter sido diagnosticado um câncer linfático, publicou sua autobiografia ‘Viver para contar’.

Recebeu os seguintes prêmios: Prêmio de Novela ESSO por “má hora: o veneno da madrugada” (1961), Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia em Nova Iorque (1971), Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, Medalha da Legião Francesa em Paris (1981), Condecoração Águila Azteca no México (1982), Nobel de Literatura (1982), Prêmio quarenta anos do Círculo de jornalistas de Bogotá (1985), Membro honorário do Instituto Caro y Cuervo em Bogotá (1993), Doutor Honoris Causa da Universidade de Cádiz (1994).

Morte

gabriel-garcia-marquez-6Em 2009 García Márquez declarou que não pretendia escrever mais livros.

A notícia foi confirmada, mais tarde, quando o seu irmão, Jaime Garcia Marquez, anunciou que o escritor foi diagnosticado com uma demência, embora estivesse em bom estado físico, havia perdido a memória.

O autor lutava contra a reincidência de um câncer que atingia seus pulmões, gânglios e fígado. Morreu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, após completar 87 anos.

Referência bibliográfica

García Márquez, Gabriel, 1928 – 2014
O amor no tempo do cólera / Gabriel García Márquez; tradução Antônio Callado. 35ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
429p.
Tradução de: El amoren los tiempos del cólera
INBN 978-85-01-02872-3
1. Romance colombiano. I. Callado, Antônio, 1917 – 1997. II. Título.
(R)

o-mito-de-sisifo-1

Camus utilizou-se de Sísifo, personagem da mitologia grega, para centralizar questionamentos filosóficos na busca da percepção da vida e o determinismo de responsabilidade das ações que possam nortear o caminhar do homem no sentido metafísico e nas relações interpessoais.

 
 

Mitologia grega

Sísifo age de forma talentosa e consegue amenizar a fúria de Zeus, rei dos deuses, quando ordenou Tânatus, deus da morte, a levá-lo ao mundo subterrâneo.

Ele elogia a sua beleza e obtém a concordância de Tânatus para colocar um colar em seu pescoço, com o qual manteve a morte aprisionada.

Hades, que governava o mundo subterrâneo dos mortos, se uniu a Ares, deus das guerras, e fisgou Sísifo, que antes de se afastar da mulher pediu a ela que não o enterrasse após sua morte.

Tão logo se viu no inferno, conseguiu a concordância de Hades para retornar e se vingar da atitude da esposa. Desta forma ele retomou ao corpo e fugiu.

Devido à habilidade de Sísifo, a morte só lhe alcançou na velhice.

Insatisfeitos, os deuses o condenaram, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha e sempre que chegava próximo ao topo uma força poderosa a rolava de volta até o ponto de partida.

Assim, segundo a mitologia grega, a humanidade ficou sabendo que não teria a mesma liberdade divina.

Mais perto da morte

Ao se referir ao raciocínio absurdo, Albert Camus, fala da construção da vida sobre o amparo da esperança. Quanto mais se espera o amanhã mais próximo estamos da morte e conclui que o mundo cruel é estranho.

“Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).”

“Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”

“Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que ficar, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que se pode atribuir às conclusões da filosofia existencial.”

O homem absurdo

camus-2“Pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado.

“(…) Se eu me convencer que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o seu equilíbrio reside na perpétua oposição entre minha revolta consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais.”

Albert Camus aborda as questões do homem absurdo (aquele que não se separa do tempo) referindo-se ao amor, o ator e o conquistador.

Em relação ao amor cita o personagem Don Juan lembrando que quanto mais se ama mais se concretiza o absurdo.

A representação teatral oferece ao homem absurdo a possibilidade de ver além de si mesmo, contudo, não o impõe mudança que possa lhe submeter qualquer angústia.

Sobre as conquistas interpreta como uma escolha do homem em prejuízo da contemplação, como algo necessário a mantê-lo atuante, apesar da percepção que um dia terá que cessar.

O autor aborda a arte como alternativa para expressar o mundo inexplicável. Cita Dostoievski, Kafka, Malraux, Balzac e Sade como romancistas capazes de explorar o suicídio filosófico.

Faz analogia ao trabalho repetitivo dos dias atuais à tarefa determinada pelos deuses a Sísifo. Intui que a busca do homem pelo cotidiano o afasta da tomada de consciência da vida, impondo-se à mediocridade mental conformista.

Conclusão

O Mito de Sísifo é um texto questionador, não só pelas características do ensaio literário, mas, também, pela abordagem filosófica que adiciona incômodo reflexivo diante de um cotidiano e valores morais.

Onde comprar

O Mito de Sísifo – Livraria da Folha

O Mito de Sísifo – Travessa

Albert Camus

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Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.

A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.

Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.

O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.

Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.

Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.

Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.

Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.

A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.

Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.

Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.

albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.

A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.

Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.

Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.

Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.

albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.

Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.

Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.

Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.

Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.

Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

Camus, Albert, 1913-1960
O mito de Sísifo / Albert Camus; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. – Rio de Janeiro: Record, 2010.
138p.
Tradução de: Le mythe de Sisyphe
ISBN 987-85-7799-269-0
Ensaio francês. I. Roitman, Ari. II. Watch, Paulina. III. Título

(R)

laranja-mecanica-3

O texto, escrito em 1962, conta a história de um adolescente que vive em Londres.

O autor cria uma sociedade futurista na qual a violência, sem causa perceptível, atinge proporções gigantescas e passa a ser retratada na prática de roubos, estupros, espancamentos e assassinatos.

Incapacidade e selvageria

O governo, por incapacidade interpretativa, se aparelha para combatê-la de forma totalitária, estimulando, ainda mais, a selvageria.

Anthony Burgess utiliza uma linguagem curiosa, carregada de gírias nadsat, com palavras rimadas, exigindo do leitor o seu aprendizado e o remete ao centro do contexto para vivenciar a história como observador da gangue comandada pelo idiota Alex, que tem a companhia dos não menos retardados Pete, Georgie e Tosko.

Escolha das vítimas

As vítimas da gangue, na maioria, são pessoas idosas e intelectuais.

laranja-mecanica-1As escolhas das vítimas, com essas características, criam ambiente que buscam consagrar frustrações relacionadas à intelectualidade socialista e a ausência de práticas familiares voltadas para a preparação e bem-estar dos jovens.

A solução encontrada pelo governo para combater as ações de Alex não se apresentou menos hostil.

“O diretor olhou para mim com uma cara muito cansada e disse:- Acho que você não sabe quem era aquele hoje de manhã, sabe 6655321? – E, sem esperar que eu dissesse não, ele disse: – Ninguém menos que o Ministro do Interior, o novo Ministro do Interior que eles chamam de reformador. Bem, essas novas ideias ridículas finalmente chegaram e ordens são ordens, embora cá entre nós eu lhe diga que não aprovo.”

Insatisfação social

O texto se firma atualíssimo, haja vista as demonstrações de insatisfação social dos jovens e adolescentes e a resposta do poder para a solução dos conflitos.

laranja-mecanica-2A diferença entre o texto e a atualidade ocorre na diversidade da escolha das ações para possíveis soluções, contudo, o capitalismo se vale da força para amordaçar o discurso proveniente da segregação social e racial, encobertada e distorcida pela imprensa, em vez da prática democrática saudável e construtiva.

O autor, Anthony Burgess, joga, sem piedade, o leitor para conviver com o abestalhado Alex no intento de fazê-lo entender a deformidade de caráter provocada por mentes vazias e desocupadas, cuja sociedade intelectualizada demonstra incapacidade para definir políticas não excludentes.

O texto, aparentemente descomprometido, traduz uma polêmica social que mesmo os países com economias sólidas e estruturadas não conseguem elaborar e implantar políticas voltadas para a inclusão social.

Alex diz: “- Eu, eu, eu. Eu? Onde é que eu entro nisso tudo? Será que eu sou apenas uma espécie de animal ou cão? – E isso fez com que eles começassem a govoretar (falar) ainda mais alto e lançar slovos (palavras) para mim. Então eu krikei (gritei) mais alto, ainda krikando (gritando): – Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?

A leitura é recomendadíssima!

Anthony Burgess

anthony-burgess-1Nasceu em Manchester em 1917, formou-se em Inglês pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1966, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Foi neste período que começou sua carreira literária.

Ao retornar a Inglaterra, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro: os dois médicos lhe deram até um ano de vida.

Mudou-se para a cidade costeira de Hove, no sul da Inglaterra, com a intenção de escrever vários livros para que os direitos autorais pudessem ajudar no sustento de sua esposa após a sua morte. Mas, o diagnóstico estava errado, e Burgess viveu até 76 anos.

Referência bibliográfica

Burgess, Anthony – 1955
Laranja Mecânica / Anthony Burgess; tradução Fábio Fernandes.
-São Paulo: Aleph, 2004.
Título original: A clockwork orange.
199p.
ISBN 978-85-7657-003-5
1. Ficção inglesa – I. Título.

(R)

memorias-de-minhas-putas-tristes-2Um homem que nunca fizera sexo sem pagar decide se presentear ao completar noventa anos.

O presente escolhido foi uma noite de amor com uma mulher virgem.

Queria uma mulher que exalasse pureza, diferentemente das muitas promíscuas que passaram por sua vida.

Juntou parte de suas economias acumuladas da aposentadoria e da remuneração como jornalista de um periódico e saiu em busca do seu objetivo.

Com a colaboração da amiga Rosa Cabarcas – proprietária de um prostíbulo – conseguiu contatar uma jovem de quatorze anos. A jovem terminou por desencadear a paixão do idoso a ponto de influenciar os textos de suas crônicas divulgadas no jornal aos domingos.

Apesar de o tema tangenciar a pedofilia, o texto é escrito de forma arguciosa e o leitor, sem perceber, é levado a desviar a atenção para outro ponto: a carência afetiva de um indivíduo de noventa anos.

Preconceito

A história chama a atenção para o amor e admiração entre parceiros, independentemente da idade, e coloca em discussão a possibilidade de pessoas viverem noventa anos sem experimentarem relações desprovidas de preconceitos e barreiras.

O idoso que sempre pagava pela companhia de mulheres, para não se comprometer, terminou experimentando sentimentos próprios de jovens apaixonadas a ponto de transbordá-los nas crônicas semanais no jornal El Diário de La Paz.

O envolvimento amoroso lhe possibilitou deixar de ser um colunista medíocre e tornar-se um escritor da primeira página, tal era a emoção imposta nos textos. Os leitores, por sua vez, aguardavam, com ansiedade, as edições dominicais.

memorias-de-minhas-putas-tristes-3Com a jovem Delgadina, o jornalista não mantinha relações sexuais. Contemplá-la, ao vê-la dormir em um dos quartos do bordel da cafetina Rosa, era o suficiente para mantê-lo vivo.

Após a ocorrência de um assassinato no bordel os amantes foram separados e o desencontro provocou, no idoso, sentimentos doentios de adolescentes.

Durante meses o velho cronista pôde sentir a intensidade da vida e se permitiu aguardar a morte, satisfeito por ter conseguido amar alguém.

A história apresenta um colorido psicológico contrapondo-se a valores morais e lembra a complexidade do que é envelhecer.

Leitura recomendadíssima!

Onde comprar

Memórias de Minhas Putas Tristes  – Lojas Americanas

Memórias de Minhas Putas Tristes – Livraria da Folha

Gabriel José García Márquez

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Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, na cidade de Aracataca, Colômbia.

Seus pais, Gabriel Eligio García e Luisa Santiaga Márquez, tiveram ao todo onze filhos.

Logo depois que García Márquez nasceu o seu pai se tornou um farmacêutico.

Dois anos após o nascimento do escritor seus pais se mudaram para Barranquilla. García Márquez permaneceu em Aracataca em companhia dos seus avós maternos, Nicolás Ricardo Márquez Mejía e Tranquilina Iguarán.

Aos oito anos, com a morte do avô, o escritor se mudou para Barranquilla (casa dos pais) e iniciou seus estudos no Liceu Nacional de Zipaquirá.

Em Bogotá cursou direito e ciências políticas na universidade nacional da Colômbia, mas abandonou a universidade antes da conclusão do curso.

Casou-se, em Barranquilha no México, com Mercedes Barcha com quem teve dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Influências na obra do autor

as-mil-e-uma-noites-2Seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias e suas histórias seduziram o neto.

Além dos contos baseados na coleção de histórias ‘As Mil e Uma Noites’ a sua avó Tranquilina, também, influenciou a criatividade do autor.

A adolescência de Gabo, como o autor era conhecido, foi marcada por livros. Um em especial chamou a sua atenção: A Metamorfose, de Franz Kafka.

Gabo se permitiu extrapolar a barreira da forma tradicional de contar histórias depois de ler Kafka.

Ora, se Kafka podia transformar o protagonista Grégor Samsa em um inseto, então, ele, também, poderia usar a ficção como forma impositiva sobre a realidade das suas histórias políticas, sociais e regionais.

Este fato resultou na criação do conhecido ‘Realismo Mágico ou Fantástico’ na literatura latino-americana.

Gabriel Márquez escolheu para sua referência William Faulkner, considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX.

Trabalhos, obras e prêmios

gabriel-garcia-marquez-5Gabriel García Márquez trabalhou como jornalista em vários periódicos da Colômbia e desempenhou trabalhos, como correspondente internacional na Europa e nos Estados Unidos.

É considerado um dos escritores mais importantes do século XX. Seus livros foram traduzidos em 36 idiomas e vendeu mais de 40 milhões de livros.

Escreveu: O enterro do diabo: A revoada (1955), Maria dos prazeres, Relato de um náufrago (1955), A sesta de terça-feira, Ninguém escreve ao coronel (1961), Os funerais da mamãe grande (1962), Má hora: o veneno da madrugada, Cem anos de solidão (1967), A última viagem do navio fantasma, Entre amigos, A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada, Um senhor muito velho com umas asas enormes, Olhos de cão azul, O outono do Patriarca, Como contar um conto (1947-1972), Crônica de uma morte anunciada (1981), Textos do caribe, Cheiro de goiaba, O verão feliz da senhora Forbes, O Amor nos tempos do cólera (1985), A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, O general em seu labirinto, Doze contos peregrinos (1992), Do amor e outros demônios (1994), Notícia de um Sequestro (1996), Memória de minhas putas tristes, dentre outros trabalhos.

Em 2002, após ter sido diagnosticado um câncer linfático, publicou sua autobiografia ‘Viver para contar’.

Recebeu os seguintes prêmios: Prêmio de Novela ESSO por “má hora: o veneno da madrugada” (1961), Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia em Nova Iorque (1971), Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, Medalha da Legião Francesa em Paris (1981), Condecoração Águila Azteca no México (1982), Nobel de Literatura (1982), Prêmio quarenta anos do Círculo de jornalistas de Bogotá (1985), Membro honorário do Instituto Caro y Cuervo em Bogotá (1993), Doutor Honoris Causa da Universidade de Cádiz (1994).

Morte

gabriel-garcia-marquez-6Em 2009 García Márquez declarou que não pretendia escrever mais livros.

A notícia foi confirmada, mais tarde, quando o seu irmão, Jaime Garcia Marquez, anunciou que o escritor foi diagnosticado com uma demência, embora estivesse em bom estado físico, havia perdido a memória.

O autor lutava contra a reincidência de um câncer que atingia seus pulmões, gânglios e fígado. Morreu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, após completar 87 anos.

Referência bibliográfica

memorias-de-minhas-putas-tristes-4García Márquez, Gabriel, 1928 – 2014
Memória de minhas putas tristes / Gabriel García Márquez; tradução Eric Nepomuceno. 8ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2005.
127p.
ISBN 85-01-07265-6
Tradução de: Memoria de mis putas tristes
1. Romance colombiano. I. Nepomuceno, Eric, 1948. II. Título.
(R)

caim-e-abel-2Uma criança pobre nasceu em 18 de abril de 1906 em uma floresta de Slonim, na Polônia. Foi encontrada por um garoto ao lado da mãe morta, em consequência do parto. Socorrida por uma família, extremamente pobre, que possuía seis filhos terminou sendo tratada como filho do casal, Jasio Koskiewicz e Helena, que moravam em uma cabana nas terras do poderoso Barão Rosnovski.

Apesar das dificuldades financeiras dos pais adotivos, o franzino Wladeck Koskiewicz foi bem cuidado inclusive por Florentyna, sua irmã adotiva.

Ida para o castelo

Certo dia, tiveram uma grande surpresa: o Barão Rosnovski, patrão de Jasio, se interessou por conhecer o garoto, atraído pela fama de sua inteligência.

Após o encontro, o Barão o convidou a frequentar seu castelo para fazer companhia ao seu filho, Leon, e ajudá-lo nos estudos.

A aceitação do convite foi condicionada, por Wladeck, à companhia de sua irmã, Florentyna, que passou a frequentar outros ambientes no castelo.

A convivência pacífica com Leon permitiu maior aproveitamento do aprendizado de Wladeck, devido à disponibilidade dos capacitados professores que frequentavam o castelo.

Invasão russa

As forças revolucionárias, ao adentrarem no castelo durante a invasão russa na Polônia provocaram a morte de Leon e as prisões de Wladeck e do Barão, na masmorra do castelo, juntamente com alguns serviçais.

O sofrimento pela perda da liberdade, do poder e do filho Leon deprimiu o Barão e estreitou as relações com Wladeck, que lhe dedicou carinhosa atenção.

Os dias se passaram e, por força do acaso, diante do insuportável calor existente no cubículo que habitavam, Wladeck tirou a camisa e o Barão percebeu que o garoto, assim como ele, apresentava o mesmo sinal de nascença.

De pronto o reconheceu com seu filho e decidiu lhe passar, antes de sua morte, uma grossa pulseira de prata símbolo da família Rosnovski.

Depois de aprisionado pelos russos e alemães, durante a primeira guerra mundial, Wladeck fugiu da Sibéria em um trem. Durante o processo de fuga terminou sendo salvo da espada de um carrasco turco. Graças à pulseira recebida do pai, foi identificado por um dos presentes, com membro da importante família e terminou sendo poupado.

Nova York como destino

Com a ajuda de Pawel Zaleski, da embaixada da Polônia, em Constantinopla, embarcou em um navio com destino a Nova York. Durante a viagem conheceu o amigo George e a namorada Zaphia.

Ao desembarcar nos Estados Unidos, devido à dificuldade de comunicação, um policial americano da imigração resolveu trocar o nome de Wladeck para Abel Rosnovski.

Abel trabalhou como ajudante de açougueiro e em restaurante de hotel.

Casou-se com Zaphia, teve uma filha e pôs o nome de Flotentyna, em homenagem à sua irmã.

Destacou-se no que fazia, e foi convidado para trabalhar como subgerente na rede de Hotéis Richmond, do empresário Davis Leroy cuja única filha, Malanice Leroy, se interessou pelo imigrante.

Coincidência

No mesmo dia que Wladeck (Abel) nasceu na Polônia, Ane Kane casada com Roberts tradicional banqueiro americano, deu a luz ao filho William Lawelle Kane (Caim) em uma maternidade na cidade de Boston.

Após o nascimento do filho, o banqueiro Roberts se preocupou em planejar seu futuro e telegrafou para o diretor do respeitado Colégio St. Paul´s School para reservar uma vaga, para o filho, no colégio.

Após a morte do banqueiro, sua esposa Ane casou-se com o jogador Henry Osborne que lhe prometeu negócios fictícios e terminou por lhe roubar a herança de quinhentos mil dólares. Caim mandou investigar Osborne e descobrindo suas falcatruas.

Disputa pelo poder

Como diretor do banco do pai, e conhecedor teórico dos negócios financeiros, Caim, ainda jovem, foi submetido a uma disputa interna até se tronar presidente da instituição, cujo pai havia sido seu maior acionista.

A presença de um amigo de colégio no banco enfraqueceu Caim perante o conselho da instituição, devido à aparente falta de interesse e seu estilo de vida.

A crise de 1929

caim-e-abel-7A dificuldade financeira da rede de Hotéis Richmond provocada pela crise de 1929, época em que se encontrava em ativa expansão nos Estados Unidos, terminou com o endurecimento do crédito, necessário a continuidade do projeto de expansão. O banco resolveu negar apoio ao empresário Davis Leroy e este cometeu suicídio.

Abel tornou-se proprietário da rede de hotéis, disposto a vinga-se da morte do amigo Davis Leroy.

Influente na política foi grande colaborador de governos. Juntou-se a Henry Osborne, ex-marido da mãe de Caim, para destruir aquele que imaginou ter sido o mentor da ruína do seu amigo Davis.

Relacionamento indesejado

A história fica mais intrigante quando o filho de Caim se apaixona por Florentyna, filha de Abel. De um lado, Caim torce pela separação do casal e do outro, com a ajuda de George, seu fiel escudeiro, Abel usa de chantagem na tentativa de trazer de volta a filha para perto dos seus negócios.

O casal resolve mudar-se de cidade para não ser importunado e, anos depois, Florentyna abre uma cadeia de lojas com o seu nome.

Ao inaugurar uma das Lojas Florentyna, Caim e Abel se encontram e uma revelação foi feita.

Conclui-se que o ódio foi inútil, equivocado e carente de fundamento.

A saga de sessenta e cinco anos das vidas de Abel Rosnovski e William Kane é contada de forma extraordinária. Os capítulos alternam as histórias dos personagens até o momento que os interesses se conflitam.

Daí em diante, a emoção, que já abarca o início do texto, cresce como um duelo de titãs.

O enredo e a forma prende o leitor até a conclusão da história.

Recomendadíssima a leitura!

Jeffrey Archer

jeffrey-archer-2Ex-vice-presidente do Partido Conservador britânico e membro da Câmara dos Lordes, é aclamado como um dos mais talentosos escritores. Possui mais de 30 livros publicados, entre eles A filha pródiga e O quarto poder.

 

 

Referência bibliográfica

caim-e-abel-4
Caim & Abel /Jeffrey Archer – tradução de José Antônio Arantes. – Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Tradução de: Kane & Abel
409p.
ISBN 978-85-99296-31-8
1. Ficção inglesa. I. Arantes, José Antonio. II. Título.
(R)

A história coloca três personagens em um inferno hipotético, onde são obrigados a conviverem sem elementos que possam refletir a própria imagem, a não ser os olhos dos habitantes do confuso ambiente.

A filosofia existencialista, defendida por Sartre, responsabiliza o indivíduo na escolha do caminho que melhor lhe agrada e orienta sobre a importância dos sentimentos na vida das pessoas.

O seu carrasco

“Aquele que me olha é sempre o meu carrasco.”

Ou seja, apesar do indivíduo desejar ser refletido na melhor forma, os olhos dos outros ignoram esta aspiração e o enxerga, em profundidade, com o rigor que efetivamente ele, o indivíduo, não gostaria.

Sendo assim, a importância dos outros para cada um de nós gera influências que podem se tornar um inferno, devido à incapacidade humana de compreender nossas fraquezas.

Cita Sartre: “o inferno são os outros” numa alusão à imagem, de cada um de nós, refletida nos olhos de quem nos observam.

O paraíso é possível

A afirmação sobre a vigilância e o julgamento constante aos quais somos submetidos, não elimina a possibilidade de um paraíso.

Nesse caso, cabe ao indivíduo a responsabilidade da escolha do caminho que mais lhe agrada.

Resumidamente: apesar de o inferno ser os outros é possível a conquista do paraíso.

Convivência intensa

entre-quatro-paredes-3Entre quatro paredes, sem janelas, sem pausas para a vida cotidiana e descanso da observação aos olhos dos outros personagens, os três protagonistas foram obrigados a conviverem em plena intensidade.

Cita um dos protagonistas referindo-se ao piscar dos olhos, como fuga ao julgamento dos outros, como se os seus olhos fechados impossibilitassem as críticas de quem o observa.

“A gente abria e fechava; isso se chamava piscar. Um pequeno clarão negro, um pano que cai e se levanta, e aí a interrupção. (…) Quatro mil repousos em uma hora. Quatro mil pequenas fugas”.

O jornalista

Entre as quatro paredes, Garcin, um jornalista pacifista, que pretendia ser herói, mantinha um disfarce e tentava esconder o seu crime.

Sua maior agonia era a possibilidade das duas companheiras, no inferno hipotético, descobrirem a sua fraqueza ou covardia que, naquela situação, não poderia ser alterada.

Mulherengo, péssimo marido, insensível aos sentimentos da esposa, precisava dos olhos de Inês, outra protagonista, para se desculpar.

A funcionária

Inês, uma funcionária dos correios, com atitudes hostis, cujo ódio e a crueldade lhe nutrem, é a única entre os protagonistas que admite a culpa.

Reconhece estar no inferno e mostra o seu caráter, admitindo a situação que se encontram.

Adere ao fato e tenta tirar proveito dele.

Tinha uma reflexão interior profunda e consciência clara do papel a ocupar.

A burguesa

A burguesa Estelle cujo casamento foi realizado com um homem mais velho, por interesse financeiro, esconde o seu crime e tenta convencer Garcin e Inês que havia um engano em mantê-la no inferno.

Fútil, superficial e desorientada, necessitava dos olhos do jornalista, Garcin, para manter-se desejada vez que os valores superficiais a impediam de enxergar na forma mais adequada e consciente.

O inferno

Independente da intensidade, todos os protagonistas se olhavam e essa visão não passava do inferno de cada um. Cada um sabia os motivos de estar ali, conduto, tentavam esconder dos outros os fatos que os levaram à situação, para serem vistos como pessoas boas, exceto Inês, que não tinha esperança de mudança.

Enquanto Estelle e Garcin tentaram esconder os seus crimes, Inês expõe o por ela praticado e chama a atenção dos demais condenados, igualmente a ela, a permanecerem de forma irreversível, no lugar onde um é o espelho do outro. Tenta fazer com que Estelle enxergue Garcin através da avaliação dos seus olhos, como alternativa, já que ela o avaliava de forma superficial.

entre-quatro-paredes-2

A história segue com Inês tentando conquistar Estelle, que por sua vez procura se relacionar com Garcin, e, sabedores de que a consciência é liberdade condenada a existir, sem possibilidade de fuga Garcin se antecipa ao fechamento das cortinas e diz:

“Pois bem, continuemos…”

 

Jean-Paul Charles Aymard Sartre

jean-paul-charles-aymard-sartre-1Filósofo, escritor e crítico francês, conhecido representante do existencialismo.

Era um militante e apoiou causas políticas de esquerda.

Recusou a receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1964.

Dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma essência posterior à existência.

Escreveu Os Dados Estão Lançados, Os Caminhos da Liberdade, O Sequestro de Veneza, As Palavras, A Náusea, e O Muro.

Referência bibliográfica

Sartre, Jean-Paul, 1905 – 1980
Entre quatro paredes / Jean-Paul Sartre; tradução de Alcione Araújo e Pedro Hussak. – 4ª ed.. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
Tradução de: Huis clos
INBN 978-85-200-0559-0
1. teatro francês (Literatura). I. Araújo, Alcione. II Hussak, Pedro. III. Título.
(R)

meditacao-3O texto é desenvolvido com base na afirmação filosófica de que o passado e o futuro não existem.
A clareza como o autor desenvolve o tema permite a reflexão sobre questões que levam o indivíduo a assumir a vida que não é a sua, imaginando retroceder no passado e projetando um futuro inexistente.

Realidade distorcida

As mudanças sugeridas, certamente, influenciarão na percepção de novos valores, responsáveis pela alteração nos relacionamentos e no bem-estar das pessoas.

Este estado de espírito é inibido devido à obscuridade imposta pelo ego.

Quantas vezes já ouvimos das pessoas que nos cercam a citação a respeito do Agora?

São muitas as justificativas para alteração do comportamento a respeito do futuro.

Algumas passaram por situações de risco de vida, outras romperam com relacionamentos duradouros, sobreviveram a crises financeiras ou encontram-se com idades avançadas.

Todas entendem que o Agora é determinante para usufruírem daquilo que construíram no passado.

Vale lembrar, para entendimento da questão, que o passado e o futuro não existem.

O autor chama a atenção para o fato de que a nossa mente psicológica se encarrega de impedir o bem-estar.

Exerce a influência do nosso ego e impede a nossa percepção do Agora.

Em vez do Agora a mente psicológica nos remete ao passado e ao futuro como forma de evitar a percepção do Ser.

Mente psicológica

Para nos precavermos da influência da mente psicológica precisamos observá-la de forma crítica e analítica identificando para onde ela pretende nos levar.

Seria um exercício de distanciamento de algo que nos incomoda.

A destreza dessa percepção permite nos manter no Agora, todas as vezes que a mente psicológica tentar influenciar nas ações baseadas no passado e no futuro, como sempre o faz.

O sucesso está em considerarmos que a mente psicológica não é parte de nós, mas, algo responsável por manter o ego sempre no comando das nossas ações.

O excesso de futuro nos traz como consequências o desconforto, a ansiedade, a tensão, o estresse e a preocupação.

O excesso de passado acarreta o sentimento de culpa, arrependimento, ressentimento, injustiça, tristeza e amargura.

Sendo assim, a convivência com a mente psicológica, atuando nestes dois contextos, impede o bem-estar sentido na convivência com o Agora.

“Por que o Agora é a coisa mais importante que existe? Primeiramente, porque é a única coisa. É tudo o que existe. O eterno presente é o espaço dentro do qual se desenvolve toda a nossa vida, o único fator que permanece constante. A vida é agora. Nunca houve uma época em que a nossa vida não fosse agora, nem haverá. Em segundo lugar, o Agora é o único ponto que pode nos conduzir para além das fronteiras limitadas da mente. É o nosso único ponto de acesso à área atemporal e amorfa do Ser.”

“Nada jamais aconteceu no passado, aconteceu no Agora. Nada jamais irá acontecer no futuro, acontecerá no Agora. O que consideramos como passado é um traço da memória, armazenado na mente, de um Agora anterior. Quando nos lembramos do passado, reativamos um traço da memória e fazemos isso Agora. O futuro é um Agora imaginado, uma projeção da mente. Quando o futuro acontece, acontece como sendo o Agora. Quando pensamos sobre o futuro, fazemos isso no Agora. Obviamente o passado e o futuro não têm realidade própria.”

ego-1

“Enquanto o ego dirige a nossa vida, não conseguimos nos sentir à vontade, em paz ou completos, exceto por breves períodos, quando acabamos de ter um desejo satisfeito. O ego precisa de alimento e proteção o tempo todo. Tem necessidade de se identificar com coisas externas, como propriedades, status social, trabalho, educação, aparência física, habilidades especiais, relacionamentos, história pessoal e familiar, ideais políticos e crenças religiosas. Só que nada disso é você.”

 

O medo

medo-1O autor trata o medo como uma algo fora de um contexto real, até porque ele pode ser resumido a uma projeção mental de algo que não aconteceu e poderá nunca vir a acontecer.

Difere de situações reais nas quais se apresentam dificuldades que requerem atenção específica para gestão.

 

“A doença psicológica do medo não está presa a qualquer perigo imediato concreto e verdadeiro. Manifesta-se de várias formas, tais como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, pavor, fobia, etc. Esse tipo de medo psicológico é sempre de alguma coisa que poderá acontecer, não de alguma coisa que está acontecendo neste momento. Você está aqui e agora, ao passo que a sua mente está no futuro. Essa situação cria um espaço de angústia. E caso estejamos identificados com as nossas mentes e tivermos perdido o contato com o poder e a simplicidade do Agora, essa angústia será a nossa companhia constante. Podemos sempre lidar com uma situação no momento em que ela se apresenta, mas não podemos lidar com algo que é apenas uma projeção mental. Não podemos lidar com o futuro.”

Projeções do futuro

Sobre o tempo psicológico o autor classifica com uma doença mental.

Considera que muitas das projeções feitas a respeito da busca do futuro ideal levam os indivíduos a cometerem atrocidades e manifestações coletivas desastrosas, ao apostarem em um suposto bem maior, no futuro, acreditando que o fim justifica os meios.

“O fim é uma ideia, um ponto na mente projetado no futuro, quando a salvação, sob a forma de felicidade, satisfação, igualdade, libertação, etc., será alcançada. Muitas vezes, os meios para atingir o fim são a escravidão, a tortura e o assassinato de pessoas no presente.
Por exemplo, estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas foram assassinadas para promover a causa do comunismo e levar a um “mundo melhor” na Rússia, na China e em outros países. Esse é um exemplo terrível de como uma crença em um paraíso no futuro cria um inferno no presente.”

Sem padrões

O autor propõe a observância constante da mente psicológica, cujo ego impede o comando da vida, sem padrões e condicionamentos mentais que possam dificultar vivenciar o Agora. Lembra que ao nos aproximarmos da morte renunciamos ao ego e a verdade aparece de forma despojada e leve.

Por que meditar

Para os que ainda não possuem familiaridade com a meditação o autor descreve o processo e sugere a prática durante 10 a 15 minutos. Posso assegurar que a prática libera a mente para as atividades diárias, promove o equilíbrio psicológico e ajuda a manter boas relações interpessoais.
Aventure-se!
Experimente uma, duas, três ou mais vezes até obter, com a prática, facilidade do processo!

Como meditar

meditacao-2“Providencie para que não haja distrações externas, como telefonemas ou pessoas que possam interromper. Sente-se em uma cadeira, mas não encoste. Mantenha a coluna ereta. Isso ajuda a ficar alerta. Você também pode escolher uma posição favorita para meditar.

Certifique-se de que o seu corpo está relaxado. Feche os olhos. Respire profundamente algumas vezes. Sinta a respiração na parte inferior do abdômen. Observe como ele se expande e se contrai levemente, a cada entrada e saída do ar. Depois, tome consciência de todo o campo de energia interior do seu corpo. Não pense a respeito, apenas sinta-o. Ao fazer isso, você retira a consciência do campo da mente. Se ajudar, visualize a “luz” que descrevi anteriormente.

Quando você não encontrar mais obstáculos em sentir o corpo interior como um campo único de energia, descarte, se possível, qualquer imagem visual e se concentre apenas na sensação. Se possível, descarte também qualquer imagem mental que você ainda tenha do corpo físico. O que sobrou é uma abrangente sensação de presença ou “existência” e uma percepção de um corpo interior sem fronteiras. A seguir, concentre sua atenção mais fundo nessa sensação. Forme uma unidade com ela.

Junte-se de tal modo ao campo de energia que você não mais perceba a dualidade entre o observador e o observado, entre você e seu corpo. A separação entre o interior e o exterior também se dissolve nesse momento, e, assim, não existe mais um corpo interior. Ao entrar profundamente no corpo, você transcendeu o corpo.
Permaneça nessa região do puro Ser pelo tempo que você se sentir bem. Depois, retome a consciência do corpo físico, da sua respiração, dos sentidos, e abra os olhos. Observe o que está à sua volta por alguns minutos, em um estado meditativo, isto é, sem dar nome a nada, e continue a sentir o corpo interior enquanto faz isso.”

Eckhart Tolle

eckhart-tolle-1Pseudônimo de Ulrich Leonard Tolle nasceu em Lünen, na Alemanha, em 16 de fevereiro de 1948.

É escritor e conferencista, residente no Canadá.

Depois de se formar pela Universidade de Londres, tornou-se pesquisador e supervisor da Universidade de Cambridge.

Aos 29 anos, depois de vários episódios depressivos, passou por uma profunda transformação espiritual, dissolveu sua antiga identidade e mudou o curso de sua vida de forma radical.

Os anos seguintes foram dedicados ao entendimento, integração e aprofundamento desta transformação, que marcou o início de uma intensa jornada interior.

Escreveu O Poder do Agora (2001), A prática do poder do agora: meditações, exercícios e trechos essenciais (2002), A voz da serenidade (2003), Um novo mundo: despertar para a essência da vida (2007), Guardiões do ser (2009) e O silêncio no mundo: lições do retiro de Findhorn (2011).

Referência bibliográfica

o poder do agoraTolle, Eckhart, 1948-
O poder do agora [recurso eletrônico] / Eckhart Tolle [tradução de Iva Sofia Gonçalves Lima]; Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
Recurso digital
Tradução de: The power of now
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Multiplataforma
Modo de acesso:
ISBN 978-85-7542-631-9 (livro eletrônico)
1. Vida espiritual. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

A história tem como protagonista um elegante dançarino que se especializou em satisfazer os caprichos de mulheres abastardas, solitárias ou afeitas a aventuras sexuais, por opção ou atraídas pelo encanto de Max Costa.

Buenos Aires

buenos-aires-2O compositor Armando de Troeye viajou, em um cruzeiro, à Buenos Aires em companhia da sua esposa, Mecha Inzuanza, com o intuito de compor um tango.

Ao perceber que Max Costa, contratado do navio para animar os salões de baile, era um exímio dançarino de tango, estimulou a aproximação dele à sua companheira.

 

“…Armando de Troeye já havia felicitado Max por sua habilidade na pista de dança e mantinham uma conversa ligeira, adequadamente social, sobre transatlânticos, música e dança profissional. O autor dos “Nocturnos” — além de outras obras famosas, como “Scaramouche” ou o balé “Pasodoble para don Quijote”, que Diaguilev tornara mundialmente conhecido — era um homem seguro de si, constatou o dançarino mundano…”

“O tango, explicou Max, é uma mistura de várias coisas: tango andaluz, habanera, milonga e dança de escravos negros. Os gaúchos crioulos, à medida que foram se aproximando, com seus violões, de mercearias, armazéns e prostíbulos dos arredores de Buenos Aires, chegaram à milonga, e finalmente ao tango, que começou como milonga dançada. A música e a dança negra foram importantes, porque nessa época os casais dançavam enlaçados, não abraçados. Mais soltos que agora, com cortes, recuos e voltas simples ou complicadas.”

A periferia do tango

tango-3Armando revela a Max o seu interesse em conhecer particularidades do ritmo e o convence a leva-lo a ambientes que executem o estilo musical, na sua origem.

Receoso, Max concorda em leva-los para conhecer ambientes promíscuos na periferia da capital Argentina.

A aventura termina revelando segredos entre o casal, envolvendo o protagonista em um contexto inesperado, ao retornarem, bêbados, para o hotel onde o casal estava hospedado.

Sem pudor, o protagonista atua procurando tirar vantagem financeira.

Não fosse a beleza e elegância de Mecha, certamente, a história teria parado por ai: um casal, um dançarino e uma música emblemática.

Max e Mecha se apaixonam sem revelar ao outro o sentimento e Armando, com astúcia, estimula a aproximação entre eles e promove oportunidades para a quebra de convenções morais.

Apesar do protagonista não entender a intenção do casal Mecha conhecia as ideias permissivas do marido, reveladas e praticadas em outras oportunidades.

Enquanto Max procura entender o contexto que havia sido inserido o casal deleitava os prazeres mundanos em companhia do protagonista e cria situações desprovidas de segurança.

Xadrezista

sorrento-italy-1A história é desenvolvida em épocas e locais diferentes.

Começa em 1928 com a viagem do casal para Buenos Aires, Argentina, onde conheceram Max, migra para Nice, França, em 1937 tendo como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola e o envolvimento de Max em aventuras políticas. Termina na cidade de Sorrento, Itália, com o aparecimento do xadrezista Jorge Keller.

Em Sorrento, Mecha revela a Max um segredo e o envolve no roubo das anotações do campeão mundial de xadrez, o russo Mikhail Sokolov, adversário de Keller.

As consequências foram desastrosas.

Salvo, apesar de quase triturado pelos seguranças do Sokolov, Max recebe os cuidados de Mecha e ao deitar-se para descansar ouve a revelação:

“— Toda minha vida se alimentou daquilo, Max. Do nosso tango silencioso no salão das palmeiras do Cap Polonio… Da luva que coloquei em seu bolso naquela noite no La Ferroviaria: a mesma que no dia seguinte fui buscar no seu quarto, na pensão de Buenos Aires.”

Max, por sua vez, destroçado, aproveita para contar a Mecha o início da sua história:

“— Estive pela primeira vez com uma mulher quando tinha 16 anos — lembra, lentamente, em voz baixa — e trabalhava como mensageiro no Ritz de Barcelona… Eu era muito alto para a minha idade, e ela uma hóspede madura, elegante. Finalmente, deu um jeito de me fazer entrar em seu quarto… Ao compreender, fiz o melhor que pude. E quando terminei, enquanto me vestia, ela me deu uma nota de 100 pesetas. Quando estava saindo, aproximei, ingenuamente, o rosto para lhe dar um beijo, mas ela afastou a face, irritada, com expressão de tédio…”

O colar de pérolas

Max revela a Mecha que a sua ida a Sorrento foi estimulada pela devolução do colar de pérolas que certa vez havia lhe roubado. Deixou a entender que a relação já não tinha mais a mesma importância, até porque a idade avançada era um fato limitante.

Ao despertar, Max, percebeu que a sua bagagem estava pronta para a viagem de fuga e no criado mudo a luva branca e o colar de pérolas tinham sido deixados por Mecha.

Com essa cena, o autor brinca com a imaginação do leitor, deixando-o imaginar porquê Max levou consigo apenas um dos objetos depositados por Mecha sobre o criado mudo.

O texto é rico em detalhes e a história envolve amor e aventura.

O leitor passa a imaginar possível o amor de um cafajeste e uma bela mulher, que se deixa usar pelos caprichos de um marido cujo caráter deixa a desejar.

Recomendo a leitura!

Arturo Pérez-Reverte

arturo-perez-reverte-1Nasceu na Espanha, Cartagena, em 24 de novembro de 1951.

É jornalista, escritor e membro da Real Academia Espanhola da língua.

A sua obra está traduzida em vários idiomas.

Antigo repórter de guerra, dedica-se à escrita desde finais dos anos 1980.

Editou os romances “O cemitério dos barcos sem nome”, “Território Comanche”, “O hussardo”, “O pintor de batalhas”, os seis romances da série de aventuras “Capitão Alatriste” e “O tango da velha guarda”.

Referências Bibliográficas

O tango da velha guardaPérez-Reverte, Arturo, 1951-
P516t
O tango da velha guarda [recurso eletrônico] / Arturo Pérez-Reverte tradução Luís Carlos Cabral. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Record, 2013.
Formato: ePub
ISBN 978-85-01-40366-7
Título original – El tango de la Guardia Vieja
1. Romance espanhol 2. Livros eletrônicos. I. Cabral, Luis Carlos. II. Título.