O texto denuncia a história do Colônia, considerado o maior hospício existente no Brasil.

Localizado no município de Barbacena, Minas Gerais, a cidade recebeu a unidade hospitalar como prêmio lenitivo por ter perdido a disputa com Belo Horizonte para sediar a capital do estado.

Terminou ganhando a denominação de capital da loucura.

estacao-de-trem-barbacena-1Estação de trem

A exemplo do que ocorria com os judeus nos campos de concentração nazistas de Auschwitz, o Colônia recebia pessoas de todo o país em vagões de trem, ônibus e viaturas policiais, pelos mais diversos motivos.

 

“Os recém-chegados à estação do Colônia eram levados para o setor de triagem. Lá, os novatos viam-se separados por sexo, idade e características físicas. Eram obrigados a entregar seus pertences, mesmo que dispusessem do mínimo, inclusive roupas e sapatos, um constrangimento que levava às lágrimas muitas mulheres que jamais haviam enfrentado a humilhação de ficar nuas em público. Todos passavam pelo banho coletivo, muitas vezes gelado. Os homens tinham ainda o cabelo raspado de maneira semelhante à dos prisioneiros de guerra.”

colonia-barbacena-3A colônia

O Colônia foi criado em 1903 e encerrou suas atividades em 1994.

Nela foram jogadas vítimas do preconceito, da conveniência familiar e do desconhecimento médico.

Pessoas eram levadas ao hospício devido a sinais de tristeza, timidez, homossexualidade, valores familiares equivocados a exemplo da perda da virgindade antes do casamento, arruaça, falta de espaço nas delegacias policiais e outros motivos banais.

Comércio dos corpos

A grande maioria saia de lá para o cemitério ou vendida, como cadáveres, para instituições de ensino, cuja renda era destinada à manutenção da entidade.

O retorno ao convívio familiar era considerado impossível devido à pecha impregnada aos hóspedes daquele inferno, que muito raramente e pequeníssima minoria recebia visitas de familiares.

colonia-barbacena-1

“Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio do Colônia. O objetivo era que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas.”

 

Ações políticas

O presidente Jânio Quadros, em 1961, incomodado com o diagnóstico do tratamento psiquiátrico no país promoveu ações para reverter a situação, mas, apesar dos movimentos opostos aos procedimentos usuais nos manicômios o ‘tiro de misericórdia’, no Colônia, só aconteceu em 1994, com a desativação da última cela, após vitimar aproximadamente 60 mil brasileiros entre 1930 e 1980.

Extinção dos manicômios

“De lá para cá, os discursos ganharam novo viés, como a necessidade de extinção dos leitos de baixa qualidade, com a garantia de contratação de leitos psiquiátricos em hospitais gerais. E apesar dos equívocos e acertos na construção de um novo paradigma para a saúde pública, a loucura ainda é usada como justificativa para a manutenção da violência e da medicalização da vida. É como se a existência pudesse ser reduzida à sua dimensão biológica e para todos os sentimentos existisse um remédio capaz de aliviar sintomas e de transformar realidade em fuga.”

Reforma dos hospícios

Apesar das manifestações no meio acadêmico que instigaram a necessidade de reforma nos tratamentos psiquiátricos a Lei Federal 10.216 só foi sancionada em 2011, com críticas, contundentes, de personalidades intelectualizadas da sociedade brasileira.

O documento, riquíssimo em detalhe, retrata uma realidade vergonhosa e acena à reflexão de outros holocaustos a exemplo dos que ocorrem nos presídios e nos procedimentos públicos relativos a usuários de droga. Nos convida a uma reflexão sobre a ‘lavagem cerebral’ imposta pela mídia preconceituosa, excludente e conveniente.

O texto, atual, é de uma excelência invejável e deve ser lido pelos sociólogos de plantão.

Onde comprar

Holocausto Brasileiro – Livraria Cultura

Holocausto Brasileiro – Livraria da Folha

Holocausto Brasileiro – Extra

Daniela Arbex

daniela-arbex-2Nasceu 19 de abril de 1973 em Juiz de Fora, Minas Gerais. É formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1995, iniciou a carreira no jornal Tribuna de Minas.

Conseguiu reconhecimento para o seu trabalho de repórter investigativa, especialmente a partir da série Cova 312, publicada em 2002.

A investigação sobre a sepultura do guerrilheiro Milton Soares de Castro, dado como desaparecido durante a Ditadura Militar, ganhou o Prêmio Esso, além de menções honrosas no Prêmio Vladimir Herzog e no Prêmio Lorenzo Natali.

Tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série “Holocausto brasileiro”, o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa).

Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa).

Referência bibliográfica

holocausto brasileiroArbex, Daniela, 1973
Holocausto brasileiro / Daniela Arbex. 1. Ed. – São Paulo: Geração Editorial, 2013.
ISBN 978-85-8130-156-3
1. Direitos humanos – Violação 2. Genocídio 3. Hospitais psiquiátricos 4. Hospital Colônia – Barbacena (MG) – História 5. Livro-reportagem 6. Pacientes hospitalizados – Maus-tratos I. Título.

Patrice Mersault conhece a datilógrafa Marthe. Começam um relacionamento e se envolvem em uma relação conveniente revelando-se um amante silencioso e pouco exigente.

No cinema, após uma cena de ciúme, ela revela ter outros relacionamentos e cita Roland Zagreus, que vivia em uma cadeira de roda por ter as pernas cortadas, como um dos amantes preferidos. Patrice Mersault fica curioso e pede a Marthe que o apresente.

Entre amantes

No primeiro encontro entre os dois amantes de Marthe o protagonista mostrou-se desconfortável, contudo, Roland Zagreus consegue suavizar o incomodo do visitante mantendo o foco da conversa em elogios à moça e busca tornar Patrice Mersault um cúmplice.

Atenuado o incomodo Roland Zagreus provoca Patrice Mersault:

“Está com um ar cansado — disse. Por pudor, Mersault responde apenas: — Sim, estou entediado — e depois de algum tempo, reergueu-se, caminhou até a janela e acrescentou, olhando para fora: — Tenho vontade de me casar, de me suicidar, ou de fazer uma assinatura de L’Illustration. Um gesto desesperado, sei lá. O outro sorriu: — Você é pobre, Mersault. Isso explica a metade de seu desgosto. E a outra metade, você a deve à absurda aceitação com relação à pobreza.”

Carta e revólver

bau-1Ao comentar sobre a pobreza Roland Zagreus chamar a atenção do visitante para uma alternativa que o levaria a uma vida melhor e o induz a perceber um cenário cujo contexto remete a um ato questionável:

“Nesse momento, Zagreus abrira o pequeno baú que estava encostado à lareira e mostrara um grande cofre de aço escurecido com a chave. Sobre o cofre, havia uma carta e um grande revólver preto. Ao olhar involuntariamente curioso de Mersault, Zagreus respondera com um sorriso. Era muito simples. Nos dias em que ele sentia demais a tragédia que o privava de sua vida, colocava diante de si essa carta, que não datara, e que fazia parte de seu desejo de morrer. Depois, colocava a arma na mesa, aproximava o revólver e encostava nele a testa, rolava-o pelas têmporas, acalmava sob o frio do aço a febre de suas faces. Ficava assim por um longo momento, deixando vagar os dedos ao longo do gatilho, até que o mundo se calasse à sua volta, quando, já sonolento, todo o seu ser se envolvia na sensação do aço frio e salgado, do qual podia sair a morte”

Assassinato ou suicídio

Albert Camus tira de foco a relação entre Mersault e sua amante e desloca o tema para valores éticos e morais que remetem à busca da felicidade através da riqueza.

Sendo assim, Patrice Mersault é instigado ao crime como forma de livrar-se da pobreza…

“Zagreus, sem se mexer, parecia contemplar toda a beleza desumana da manhã de abril. Quando sentiu o cano do revólver na têmpora direita, não desviou os olhos. Mas Patrice, que o fitava, viu seu olhar encher-se de lágrimas. Foi ele que fechou os olhos. Deu um passo atrás e atirou. (…) Se bem que não se visse mais Zagreus, e sim uma enorme ferida no seu relevo de massa encefálica, de osso e de sangue. Mersault começou a tremer. Passou para o outro lado da poltrona, tomou-lhe a mão direita, fê-lo pegar o revólver, ergueu-o até a altura da têmpora e deixou-o cair novamente. O revólver caiu no braço da poltrona e, daí, foi parar nos joelhos de Zagreus.”

Paixão pela aventura

Após o crime, com dinheiro e muitas aventuras o protagonista se permite a uma reflexão:

“Suas corridas pelo mundo, sua exigência de felicidade, a terrível ferida de Zagreus, cheia de cérebro e de osso, as horas suaves e contidas da Casa Diante do Mundo, sua mulher, suas esperanças e seus deuses, tudo aquilo estava diante dele, mas como uma história que se prefere às outras, sem uma razão válida, ao mesmo tempo estranha e familiar, livro favorito que agrada e confirma o que há de mais profundo em nós, mas escrito por outra pessoa. Pela primeira vez, ele não sentia outra realidade que não a de uma paixão pela aventura, um desejo de seiva, de um relacionamento inteligente e cordial com o mundo. Sem rancor nem ódio, não conhecia o remorso.”

O texto retrata ambientes vividos pelo autor e impõe o entendimento que a felicidade está diretamente relacionada a existência da liberdade e do dinheiro.

A morte aparece – a exemplo das demais obras do autor – como uma realidade concreta, consciente e natural.

Temê-la é negar a vida.

Considerando tratar-se do primeiro livro do autor, só publicado após a sua morte, carece de uma estrutura literária que facilite o entendimento dos objetivos, contudo, em se tratando de Camus deixar de lê-lo é perder oportunidade para uma reflexão filosófica.

Albert Camus

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Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.

A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.

Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.

O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.

Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.

Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.

Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.

Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.

A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.

Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.

Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.

albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.

A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.

Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.

Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.

Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.

albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.

Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.

Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.

Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.

Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.

Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

A morte felizCamus, Albert, 1913-1960
A morte feliz / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek.- 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Record.
Tradução de: La mort heureuse.
1. Romance francês I. Título. II. Ciências Humanas e Sociais. III. Psicologia e Filosofia.

o-silencio-dass-montanhas-1A fábula contada pelo pai dos órfãos Abdullah e Pari tem a aldeia de Maidan Sabz como cenário da vida de devs, jinis e gigantes que perambulavam por terras de um fazendeiro chamado Baba Ayub.

Um dev submete um pai a escolher um dos filhos para entrega-lo em troca da sobrevivência.

A decisão da escolha acarretou sofrimentos, perdas, benefícios e recompensas.

Ao passar do tempo, a fábula se transforma em realidade e o pai de Abdullah e Pari é submetido a conflitos por ceder a filha em troca de recompensa financeira.

A decisão acarretou consequências imprevisíveis e irreparáveis na vida dos irmãos.

Homossexualidade e adoção

O patrão do motorista, Nabi, casa-se com a poeta Nila Wahdati que descobre o interesse do marido, homossexual, por ele.

Nila desperta a admiração de Nabi e, ao conhecer a sua história, o convence a leva-la à aldeia onde morava o pai de Pari.

Convencido por Nila, o pai da garota abdica-se da filha em troca de recompensa financeira.

Cabul e Paris

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Consumado o fato, Nila e Pari vão morar em Paris e deixa o marido, moribundo, aos cuidados do motorista, em Cabul.

Nila, filha de um afegão com uma francesa, embarca no mundo da intelectualidade e experimenta um relacionamento que interfere no convívio com a garota.

 

Realidade sociopolítica

A história contada em vários cenários e por diversos personagens culmina com a morte de Nila e termina por revelar a verdadeira origem de Pari.

De volta ao Afeganistão, a já adulta Pari, reencontra o irão e toma consciência das perdas acarretadas pela realidade sociopolítica do país e das consequências desastrosas do fato.

Perda da autoestima

Fora do tema central que move a narrativa, outros fatos são contextualizados referentes às perdas e dificuldades para recuperação da autoestima.

“Muitos anos depois, quando comecei a estudar para ser cirurgião plástico, entendi uma coisa que não sabia naquele dia na cozinha, enquanto argumentava para que Thalia saísse de Tinos e fosse para o internato. Aprendi que o mundo não via o seu interior, não se importava com as esperanças, os sonhos e as tristezas que pudessem existir sob a pele e os ossos. Era simples assim, absurdo e cruel. Meus pacientes sabiam disso. Percebiam que muito do que eram, do que seriam ou poderiam ser girava em torno da simetria de suas estruturas ósseas, do espaço entre os olhos, do tamanho do queixo, da projeção da ponta do nariz, se tinham ou não o melhor ângulo frontal. A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente.”

“Minha proposta para Thalia continua valendo até hoje. Sei que ela não vai aceitar. Mas agora eu entendo. Porque ela tem razão, isso é quem ela é. Não posso pretender saber como deve ter sido olhar para aquele rosto no espelho todos os dias, fazer um levantamento da horrível ruína, reunir vontade para aceitar. A força gigantesca necessária, o esforço, a paciência. A aceitação tomando forma lentamente, ao longo dos anos, como rochas num penhasco na beira do mar, esculpidas pelas ondas que batem. Foram minutos para o cachorro dar a Thalia aquele rosto, e toda uma vida para transformá-lo numa identidade. Ela não me deixaria desfazer tudo isso com meu bisturi. Seria como infligir um novo ferimento sobre o antigo.”

Busca por mudanças

O que move as pessoas na busca por mudanças não é o que querem, mas, o que não querem, afirma o autor.

“— É uma coisa engraçada, Markos, mas normalmente as pessoas veem a coisa ao contrário. Elas pensam que vivemos pelo que queremos. Mas o que as conduz é o que elas temem. O que elas não querem.”

Em várias oportunidades e por motivos diversos o ser humano é submetido a situações parecidas com a da fábula.

Mães e pais, obrigados ou por opção, se afastam dos filhos e os afastam dos irmãos.

As consequências são as mais diversas e, certamente, cada um de nós já ouviu contar situações parecidas.

O Silêncio das Montanhas é rico no campo das relações humanas e impõe escolhas e decisões, que interferem na vida e bem-estar das pessoas.

Não bastasse a importância do tema, o autor usa uma narrativa que mantem o leitor zelado.

Khaled Hosseini

khaled-hosseini-2É médico nascido em Cabul capital do Afeganistão, com naturalização estadunidense. Formou-se em medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos.

Sua mãe era professora e o seu pai trabalhou no Ministério do Exterior afegão.

Em 1976 mudou-se com a família para Paris por conta do emprego do seu pai.

Enquanto estavam em Paris, os comunistas assumiram o poder.

Escreveu Caçador de Pipas, A Cidade do Sol e O Silêncio das Montanhas.

Referência bibliográfica

O silêncio das montanhasO Silêncio das Montanhas: romance / Khaled Hosseini. – São Paulo: Editora Globo S.A., 2013.
ISBN: 9780986939754.
Título original: And the montains echoed.
Tradução: Claudio Carina.
Apresentação: Livro digital.

(R)

os_contos_de_belazarte-2A obra tem sua origem nas crônicas publicadas pelo autor na revista América Brasileira entre 1923 e 1924.

Por se tratar de um escritor inovador rebelou-se contra a mesmice das normas vigentes à época tornando-se um importante modernista e transformador da linguagem.

Movimento Modernista

Reinventou a linguagem aproximando-se do leitor, ao retratar a expressão popular como ela é, na forma mais comum e real do diálogo.

Participou da Semana de Arte Moderna – o Movimento Modernista ocorrido em 1922 que reformulou as artes visuais e a literatura brasileira -, militou ao lado de Oswaldo de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila de Amaral, Di Cavalcnati entre outros.

Para que se tenha ideia da importância do autor para a literatura brasileira, leia alguns trechos das crônicas do livro.

Túmulo, túmulo, túmulo

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“- Nem que ele estivesse trabalhando pesado, suor corria, ficava o risco da gota feito rastinho de lesma e só. Bastava que lavasse a cara, pronto: voltava o preto opaco outra vez. Era doce, aveludado o preto de Ellis… A gente se punha matutando que havia de ser bom passar a mão naquela cor humilde, mão que andou todo o dia apertando passe-bem de muito branco emproado e filho-da-mãe. Ellis…”

 

Jaburu malandro

“- É assim que o amor se vinga do desinteresse em que a gente deixa ele. A vida corre tão sossegada, ninguém não bota reparo no amor. Ahn… é assim, é!… esperem que hão de ver!… o amor resmunga. E fica desimportante no lugarzinho que lhe deram. De repente a pessoa amada, filho, mulher, qualquer um, sofre, e é então, quando mais a gente carece de força pra combater o mal, é então que o amor reaparece, incomodativo, tapando caminho, atrapalhando tudo, ajuntando mais dores a esta vida já de si tão difícil de ser vivida.”

Besouro e a rosa

besouro-e-rosa-1“- Porém duma feita, quando embrulhava os pães na carrocinha, percebeu Rosa que voltava da venda. Esperou muito naturalmente, não era nenhum malcriado não. O sol dava de chapa no corpo que vinha vindo. Foi então que João pôs reparo na mudança da Rosa, estava outra. Inteiramente mulher com pernas bem delineadas e dois seios agudos se contando na lisura da blusa, que nem rubi de anel dentro da luva. Isto é… João não viu nada disso, estou fantasiando a história. Depois do século dezenove os contadores parecem que se sentem na obrigação de esmiuçar com sem-vergonhice essas coisas. Nem aquela cor de maçã camoesa amorenada limpa… Nem aqueles olhos de esplendor solar… João reparou apenas que tinha um malestar por dentro e concluiu que o malestar vinha da Rosa. Era a Rosa que estava dando aquilo nele não tem dúvida. Alastrou um riso perdido na cara. Foi-se embora tonto, sem nem falar bom-dia direito. Mas daí em diante não jogou mais os pães no passeio. Esperava que a Rosa viesse buscá-los das mãos dele.”

“Piá não sofre? Sofre. – “…Levante! que é isso agora! Como esse menino deve ter sofrido, Margot! Olhe a magreira dele!
– Pudera! com a mãe na gandaia, festando dia e noite, você queria o que, então!
– Margot… você sabe bem certo o que quer dizer puta, hein? Eu acho que a gente pode falar que Paulino é filho-da-puta, não?
Se riram.
– Margot!
– Senhora!
– Mande Paulino aqui pra dar comida pra ele!
– Vá lá dentro, menino!”

“Nízia Figueira, sua criada – Dera pra envelhecer rápido, essa sim, uma coitada que não o mundo porém a vida esquecera, quasi senil, arrastando corpo sofrido, cada nó destamanho no tornozelo, por causa do artritismo. Quando a dor era demais, lá vinha o garrafão pesado:
– Mecê tambem qué, mia fia?
– Me dá um bocadinho pra esquentar.
– Puis é, mia fia, beba mêmo! Mundo tá rúim, cachaça dexa mundo bunito pra nóis.
Era dia de bebedeira. Prima Rufina dava pra falar e chorar alto. Nízia bebia devagar, serenamente. Não perdia a calma, nem os traços se descompunham. A boca ficava mais aberta um pouco, e vinha uma filigrana vermelha debruar a fímbria das narinas e dos olhos embaçados. Punha a mão na cabeça e o bandó do lado esquerdo se arrepiava. Ficava na cadeira, meia recurvada, com as mãos nos joelhos, balanceando o corpo instável, olhar fixo numa visão fora do mundo.”

O texto além de expressar descontentamento social apresenta, para reflexão do leitor, conflitos provocados por preconceitos sociais e raciais.

Os Contos de Belazarte são simplesmente fantásticos!

Mário Raul de Moraes Andrade

mario-de-andrade-2Nasceu em São Paulo, no dia 9 de outubro de 1893, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade. Estudou Ciências, Letras, Filosofia e frequentou o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

Escreveu contos e poemas, colaborou com revistas e jornais como crítico de arte e cronista.

Participou ativamente, em 1922, na Semana de Arte Moderna em São Paulo.

Escreveu: Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922), A escrava que não é Isaura (1925), Losango cáqui (1926), Primeiro andar (1926), A clã do jabuti (1927), Amar, verbo intransitivo (1927), e Ensaios sobra a música brasileira (1928), Macunaíma(1928), Compêndio da história da música(1929), Modinhas imperiais (1930), Remate de males (1930), Música, doce música (1933), Belazarte (1934), O Aleijadinho de Álvares de Azevedo (1935), Lasar Segall (1935), Música do Brasil (1941), Poesias (1941), O movimento modernista(1942), O baile das quatro artes (1943), Os filhos da Candinha (1943), Aspectos da literatura brasileira (1943), O empalhador de passarinhos (1944), Lira paulistana (1945), O carro da miséria (1947), Contos novos (1947), O banquete (1978), Será o Benedito! (1992).

Referência bibliográfica

os contos de belazarteAndrade, Mário de, 1893-1945
Os contos de Belazarte/ Mário de Andrade – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013
Obras completas de Mário de Andrade
ISBN 978 85 209 3346 6
1. Conto brasileiro. I. Título. II. Série.

a-morte-de-ivan-ilitch-2O texto aborda questionamentos sobre o sentido da vida e a busca do entendimento a respeito da fase que a maioria dos humanos rechaça: a morte.

 
A futilidade, a intolerância, o zelo moral e a busca desmedida do reconhecimento, além da valorização profissional são questionados no momento que o homem se depara com o sentimento de finitude e a real proximidade da morte.

A morte como processo

O processo da morte, por ser único e diferente para cada ser humano, não abarca experiências pessoais que possam servir de subsídio para o entendimento do fato.

Ivan Ilitch, personagem escolhido, por Tolstói, para retratar a fase final da vida, busca entender o porquê do sofrimento exacerbado e duradouro que antecede à morte, experimentado por algumas pessoas enquanto outras passam por processos rápidos e menos sofridos.

Há causas que determinem o sofrimento ou a sutileza?

a-morte-de-ivan-ilitch-1A escolha do caminho a ser trilhado pelo homem é decisiva para os acontecimentos que antecedem ao fim?

É possível nos preparar para minimizar os efeitos do sofrimento ou seremos, sempre, pegos de surpresa?

Ignorar, a morte, é uma escolha para fugir da realidade finita ou ela se presta como esperança para postergação à prova final da vida?

O sofrimento se apresenta como um acerto de contas contrapondo-se à futilidade escolhida pelo homem ou ele, o sofrimento, oferece oportunidade para a liberação das amarras que o cercam durante a sua existência?

Os valores contribuem com o processo?

O protagonista se depara com uma realidade entediante: viveu em busca de valores que não ajudaram a suportar os momentos que antecederam à morte e não consegue identificar nada que pudesse auxiliá-lo a concluir como seria a vida que poderia ter experimentado.

A angústia por esta busca cresce no momento que Ivan Ilitch se aproxima da morte e passa a considerar a esposa e a filha com estorvos, capazes de impedirem uma visão realista do processo, sentindo-se mais confortável na companhia de um servo, que se dedica à ele sem exigir nada em troca.

O texto, irretocável e riquíssimo em questionamentos.

Trata-se de um intenso depoimento da perspectiva da morte.

Envolve sentimento de perda e, ao mesmo tempo, de libertação ao tomar consciência dos apegos equivocados.

Leon Nikolaievitch Tolstói

tolstoy-1É considerado um dos maiores escritores de todos os tempos.

Ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza.

Foi um dos melhores escritores da literatura russa do século XIX.

Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, A Morte de Ivan Ilitch e Anna Karenina.

Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples.

Referência bibliográfica

Tostói, Leon, gráf.: 1828-1910
A Morte de Ivan Ilitch/ Leon Nikolaievitch Tostói; tradução Vera Karam. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
122p.; 18 cm. – (Coleção L&PM POCKET; v.16)
ISBN 978-85-254- 0600-2
1. Ficção russa – novelas. I. Título. II. Série
(R)

travessura-da-menina-ma-1De um lado um amor sem limites, do outro uma ambição desmedida e inconsequente. Assim, Mario Vargas Llosa constrói a brilhante história de Ricardo Somocurcio e Otilia.

Camaleoa

A canalhice, normalmente praticada pelos homens nas relações amorosas, é colocada, desta vez, na figura feminina e, ao que parece, apesar das ações desprezíveis recheadas com toque de carinho verbal, leva o leitor a não odiar a personagem.

Otilia muda de nome como camaleoa muda de cor, para praticar as safadezas.

Ricardo não consegue entendê-la.

As aventuras da menina má deixam de ser uma necessidade para transformar-se em aberração de caráter.

Vai ao encontro do risco, por necessidade de sofrimento.

Sofrer era não se aventurar e sujeitar-se ao risco era uma forma de punir-se.

O autor nos remete para a prática da tolerância, do amor desmedido e da aceitação dos diferentes.

Mostra que a opção de vida escolhida por um indivíduo é como uma flecha lançada, na maioria das vezes, não tem volta.

O leitor censura a menina má e, ao mesmo tempo, deseja que alguma coisa de normal aconteça.

A aventura começa com a chilenita Lily, depois veio a camarada Arlete, madame Robert Arnoux, Mrs. Richndson e Kuriko.

Todos elegeriam madame Somocurcio como favorita, mas, a aventura emanava da pele da menina má como nicotina evapora do corpo de um fumante.

Caminho político

travessura-da-menina-ma-5O autor oferecer um cenário sociopolítico, vivido no Peru, através da história.

Migram os personagens para a França, país símbolo da democracia, para Cuba, na busca de justiça social, e, para a Inglaterra, reverenciando os movimentos culturais das décadas 60 a 80.

A tortura sofrida pela menina má, no Japão, serve de alusão ao regime implantado no Peru, pelo ex-presidente Fujimori, que possui cidadania japonesa.

 

 

 

Adoção

A narrativa chama a atenção para a adoção de menores e exalta a prática como uma decisão a ser tomada sem preconceito.

A criança vietnamita, incapaz de falar, adotada por um casal amigo de Ricardo, começa a balbuciar a partir do momento que atende ao telefone da menina má.

Esse tema adoça a carapaça da aventureira, mostra que perdas, carências sociais e afetivas podem ser superadas através da atenção para com o próximo.

Lembra que o bem e o mal estão no mesmo indivíduo e nos compete à escolha por um ou outro.

O texto apresenta uma aventura descomunal e oferece um aprendizado digno da experiência do grande escritor, Mario Vargas Llosa.

A leitura é imperdível!

Mario Vargas Llosa

mario-vargas-llosa-1Jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e escritor consagrado internacionalmente.

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, ganhou notoriedade literária com a publicação do romance A cidade e os cachorros (1961).

Mudou-se para Paris nos anos 60 e lecionou em diversas universidades americanas e europeias, ao longo dos anos.

Publicou Conversa na catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, Quem matou Palomino Molero? Cartas a um jovem escritor.

Recebeu os prêmios Cervantes, Príncipe das Astúrias.

Foi candidato derrotado à presidência do Peru, em 1990, perdendo a eleição para Alberto Fugjimori.

Referência bibliográfica

Vargas Llosa, Mario
Travessuras da menina má / Mario Vargas Llosa; tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht..
302p.
Tradução de: Travessuras de la niña mala.
ISBN 85-7302-808-4
Romance peruano. I. Roitman, Ari, paulina. II. Título.
(R)

a-marca-humana-2Um decano da Faculdade de Athenas, nos Estados Unidos, depois de dedicar a sua vida ao ensino, é acusado de racismo por se referir a dois alunos, que nunca apareceram na classe, como spooks.

A história desse professor de setenta e dois anos teria sido diferente se os alunos citados não fossem negros.

Coleman Silk é pressionado, inclusive por outros professores, e resolve pedir desligamento da faculdade.

Após a morte da esposa, o decano pede ao vizinho, Nathan Zuckerman, para escrever a sua história e decide narrar os acontecimentos e suposições dos fatos.

Na verdade, o professor era filho de pais negros, apesar de possuir características fenotípicas de brancos.

Ao ser discriminado por uma namorada branca, que o rechaçou após conhecer a sua família negra, Silk, decide se passar por um judeu branco, omitindo os antepassados e irmãos.

À sua esposa judia, Iris, segunda namorada banca, nunca foi revelada a sua verdadeira origem, tampouco aos seus quatro filhos que herdaram características parecidas às da mãe.

Preconceito e intolerância

a-marca-humana-1Após a morte da esposa, vitimada devido às injustiças feitas ao marido, Coleman Silk se aproxima de uma jovem faxineira, esposa de um ex-combatente na guerra do Vietnã, que se diz analfabeta.

Este novo relacionamento impõe a quebra de paradigmas morais e sociais, não aceitos por colegas e filhos do protagonista.

A intolerância social imposta ao decano, devido ao relacionamento com a jovem faxineira, que lhe devolveu o prazer de viver, o afastou ainda mais do convívio com os filhos e ex-colegas, e, de presente, ganhou a oposição ferrenha de Les Ferley, ex-marido de Faunia Farley, sua amante.

Les Ferley, não consegue perdoar a ex-esposa pela morte dos filhos e tenta, a todo custo, esquecer dos fatos ocorridos nos combates no Vietnã. Persegue Coleman e Faunia e termina como suspeito da morte dos dois.

Sofrimento e revolta

O escritor convidado a contar a história tende a compreender os motivos que levaram o protagonista a se passar por branco, porém, ao conhecer seu opositor, Les Ferley, enquanto investigava o acidente que vitimou Coleman e Faunia, passa a entender os motivos para o sofrimento e revolta do ex-combatente.

A infeliz Delphine Roux, também, professora da universidade, decide infernizar a vida de Coleman, ao que parece por desprezo do mesmo em relação aos seus sentimentos amorosos.

Crítica às decisões políticas

O texto, rico em conteúdo, agrega críticas contundentes ao governo americano quanto à decisão de gastar uma fortuna para combater o regime comunista vietnamita, submetendo soldados a situações vexatórias, enquanto dirigente político é denunciado por ter relações sexuais, em pleno expediente, com estagiária na Casa Branca.

Não bastassem as divergências morais, a crítica impera sobre a demora da sociedade americana em reparar os erros referentes à discriminação racial.

Coleman e Les Ferley são colocados como personagens centrais de uma história, escrita por Philip Roth, de forma que o leitor possa incorporá-los em momentos diferenciados, sem, contudo, chegar a nenhuma conclusão prática, devido ao contexto social em que eles são atirados.

Imperfeição moral

O autor escancara a Marca Humana como uma pecha a ser extirpada da sociedade moderna e do mundo que defende direitos igualitários, sem se preocupar em abolir a prática imperialista e preconceituosa.

Ao findar o texto o leitor continua fazendo uma releitura, refletindo, remoendo, revendo, remetendo-se a fatos históricos de um mundo corrompido e individualista.

Um mundo cujo discurso afinado impera contrapondo-se com a prática política avalizada por povos desinformados, subservientes e sem foco em ações que possam minorar o sofrimento causado pela discriminação racial, social e regional dos povos.

Philip Milton Roth

philip-milton-roth-1Nasceu em 1933, Nova Jersey, Estados Unidos.

Tem origem judia e é considerado um dos maiores escritores americanos da metade do século XX.

Escreveu Complô contra a América, O Complexo de Portnoy, Teatro de Sabath, O avesso da vida, Professor de desejo, Diário de uma ilusão, Casei com uma comunista, Pastoral Americana, A Mara Humana, O Animal Moribundo, O homem comum, Fantasma sai de cena, Indignação, dentre outros.

Muitas de suas obras tratam de aceitação e identidade dos judeus nos Estados Unidos e explora o desejo sexual e a auto compreensão.

 

Referências bibliográficas

a-marca-humana-3Roth, Philip, 1933.
A marca humana / Phiplip Hoth ; tradução de Paulo Henrique Britto. – São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
454p
Título original: The Human Stain.
ISBN 978-85-359-0198-6
1.Romance norte-americano – I. Título
(R)

a-queda-2O texto traduz o sentimento da ansiedade, próprio de indivíduo angustiado e com necessidade de ser ouvido, devido à falta de atitude que levou Jean-Baptiste Clamence, protagonista da história, a sentir culpa por não ter dado a atenção a um fato que resultou na morte de uma mulher.

Leitor e interlocutor

A impossibilidade de retroceder no tempo e transformar a omissão em ação fez do personagem um indivíduo ansioso e o autor decide estruturar o texto em um monólogo, capaz de colocar o leitor na condição do desconhecido interlocutor, inoperante e absorto.

Hedonismo

Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que se denominou “juiz-penitente”, deixou o glamour da cidade após uma vasta experiência hedonista, na qual a busca do prazer e da satisfação pessoal chegou a extrapolar o sentimento egocentrista.

Instalou o seu escritório, em um botequim conhecido como México-City, na cidade de Amsterdam, onde identificava clientes potenciais.

Quase sempre, divulgava suas ideias às pessoas que conviviam no local, contudo, certo dia, elegeu um cliente do citado botequim como ouvinte da maioria das suas angustias e inquietações.

O monologo é composto de frases provocativas e audaciosas.

Coloca o protagonista no cento da história, expondo-o à avaliação de conceitos e atitudes que evidenciam um estilo existencialista.

Egocentrismo

Diz o protagonista: “Já reparou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabaram de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam mais, que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa homenagem que talvez tivesse esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há mais obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não é o morto recente que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

Ausência de caráter

“Quanto a mim, moro no bairro judeu, ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados – é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”

O monólogo traz um desabafo, sofrido, de um homem que não consegue se desvencilhar do sentimento de culpa e o remete a avaliações que o incorpora no contexto de uma sociedade individualista, pouco preocupada com uma conjuntura mais ampla.

“Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”

O livro é um ensinamento, grandioso, que só pensadores da estirpe de Albert Camus são capazes de levar o leitor à reflexão do comportamento humano, muitos dos quais, seus resultados são irreversíveis para si e para a humanidade.

Recomendadíssima a leitura!

Albert Camus

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Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.

A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.

Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.

O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.

Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.

Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.

Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.

Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.

A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.

Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.

Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.

albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.

A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.

Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.

Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.

Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.

albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.

Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.

Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.

Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.

Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.

Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

Camus, Albert, 1913-1960
A queda / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. – 16ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
114p.
Tradução de: La chute
ISBN 987-85-01-01284-5
Romance francês. I. Rumjanek, Valerie. II.Título

(R)

revolucao-dos-bichos-3O livro faz críticas à Revolução Russa, à sociedade europeia e às castas dominantes inglesas.

Questiona sobre a forma, conveniente, da imprensa tangenciar os julgamentos ao regime.

O autor, de forma inusitada, retrata fatos discordantes das ideologias políticas que vigiam na Europa.

O texto diverte e possibilita o aprofundamento para o entendimento do comportamento social.

George Orwell faz uma analogia entre líderes da Revolução Russa e o comportamento dos porcos da Granja dos Bichos.

A granja com cenário

revolucao-dos-bichos-4Major, um porco que tinha percepção dos motivos que o mantinha vivo, conscientizou os animais da Granja Solar para a necessidade de uma rebelião e implantação de uma revolução que transformasse a sociedade animal, cujos valores decorriam do tratamento equânime.

Major morre, mas, o conceito de poder usufruir o que produz ficou enraizado durante as reuniões que antecederam à Revolução.

Alguns animais se dedicaram, além do que faziam quando eram subordinados ao antigo dono da Granja Solar, enquanto outros, apesar de participarem do movimento, não tiveram a mesma consciência e disposição.

Os animais Napoleão e Bola de Neve tinham conceitos diferentes.

O primeiro achava que deveriam se armar e defender a granja e o segundo defendia estimular reações parecidas em outras granjas, na busca de um mundo socialmente mais justo.

Napoleão expulsou Bola de Neve, exerceu o poder com mãos-de-ferro e implantou notícias infundadas a respeito do antigo companheiro, para justificar a sua decisão.

Com o passar do tempo, tanto o processo produtivo como o de consumo da Granja tornou-se muito parecido com o que acontecia anteriormente.

Quando se questionava sobre os mandamentos que nortearam a Revolução, Garganta, o porta-voz de Napoleão, usava o fato de saber ler e demovia os animais trabalhadores de qualquer reação, dando novas interpretações aos mandamentos.

Privilégios dos regimes políticos

Entre os animais, os porcos assumiram privilégios e com o passar do tempo as prerrogativas foram aumentando até usufruírem de conforto e segurança, diferente dos demais animais.

Essa situação contrariava os mandamentos que deveriam ser seguidos por todos. É certo que os porcos não produziam um só quilo de alimento e demonstravam muito apetite. Quanto aos demais animais trabalhavam e não desfrutavam de nenhum conforto.

A decepção aconteceu quando foi percebido que os líderes se transformam em uma casta dominante, postura parecida com os humanos. Era impossível distinguir quem era homem e quem era porco.

Os mandamentos que serviram para doutrinar os animais foram, aos poucos, distorcidos e a sociedade que lutou por ideais revolucionários ficou desiludida.

A postura como simbologia

Para simbolizar o exercício inadequado do poder, após a existência da revolução, o autor radicaliza e apresenta os animais, líderes da Revolução dos Bichos, caminhando em duas pernas, contrariando um dos sete mandamentos da Revolução: “Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.”

O cavalo

O livro, escrito em 1943, foi criado quando o autor percebeu uma criança de dez anos comandando um imponente cavalo. Cada vez que o animal tentava se desviar do caminho o garoto o chicoteava.

Ao perceber aquela situação imaginou se o animal tomasse consciência da sua força física não teriam o mesmo poder sobre ele, deixando-se explorar pelo garoto a exemplo da opressão exercida pelas classes mais favorecidas em relação aos proletariados.

Trata-se de uma análise da teoria de Karl Marx, de forma independente, criativa e inusitada.

É um texto que apesar de ter sido escrito há mais de cinquenta anos se mostra atual.

Chama a atenção da sociedade para as distorções dos regimes políticos, especialmente os totalitários.

Recomendo a leitura!

George Orwell (Eric Arthur Blair)

george-orwell-2Nasceu em Motihari na Índia, no ano de 1903.

Completou seus estudos na Universidade de Eton.

Aos 19 anos entra para a Polícia Imperial Britânica.

Passou muitos anos entre a Índia e a Birmânia.

Revolta-se com o imperialismo inglês.

Considera seu passado vergonhoso, e por isso muda seu nome.

Seu nome verdadeiro é Eric Arthur Blair.

Trabalha como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres.

Assim, sente pela primeira vez a opressão da classe trabalhadora e passa a escrever neste contexto.

Participa da Guerra Civil Espanhola, em 1936, lutando ao lado do P.O.U.M. (Partido Obrero de Unificación Marxista).

George Orwell era a favor das classes sociais baixas e se decepcionou com os Partidos Comunistas da época, fiéis aos ditames de Moscou.

Era um anti-stalinista, não pelo socialismo, mas contra todo o tipo de totalitarismo.

Escreveu “Na pior em Paris e Londres”, “A flor da Inglaterra”, “Dias na Birmânia”, “O caminho para Wigan Pier”, 1984, A Revolução dos Bichos, entre outros títulos.

Referência bibliográfica

Orwell, George, 1903 – 1950
A revolução dos bichos: um conto de fadas / George Orwell; tradução Heitor Aquino Ferreira; posfácio Christopher Hitchens. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
147p.
Título original: Animal farm : afairy story
INBN 978-85-359-0955-5
1. Ficção inglesa. I. Hitchens, Christipher – II. Título.
(R)

A história de ficção, escrita por Saramago, tem o propósito de instigar o leitor sobre um tema polêmico e de difícil conclusão.

O primeiro criminoso

caim-e-abel-1A autor usa a sua capacidade narrativa e criatividade para desenvolver um drama, baseado no Velho Testamento, que coloca o primeiro criminoso da história, como protagonista e questionador dos desígnios de Deus.

O filho primogênito de Adão e Eva, Caim, matou o irmão, Abel, por ciúme e tornou-se um andarilho a testemunhar acontecimentos, relatados como castigos do Criador.

Sodoma e Gomorra, Torre de Babel, Arca de Noé, e o testemunho de fé de Abraão ao levar o filho, Isaac, para o sacrifício, são alguns das indagações de Saramago.

Destruir Sodoma e Gomorra sem poupar as crianças e os justos; impedir a construção da Torre de Babel sabendo que de nada adiantaria construí-la; e encomendar a Noé uma Arca para boiar no dilúvio e repovoar o mundo são histórias do Velho Testamento, narradas de forma inusitada.

Subjetividade e comunicação

Não bastassem os questionamentos bíblicos, Saramago dá uma pincelada nas relações pessoais.

“Por baixo das palavras que dizes percebo que há outras que calas.”

“Diz-se então que o asno é teimoso como um burro quando afinal do que se trata é de um problema de comunicação, como muitas vezes sucede entre os humanos.”

O castigo

O autor resume parte dos questionamentos em um diálogo entre Caim e Lilith.

sodoma-e-gomorra-1“Ninguém vai acreditar em ti, não penso dizer isto a mais ninguém, o teu mal é que não trazes contigo nenhuma prova, um objeto qualquer deste outro presente. Não foi um presente, mas vários, dá-me um exemplo. Então Caim contou a lilith o caso de um homem chamado Abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu e que o senhor com um sopro deitou abaixo, logo a de uma cidade em que os homens preferiam ir para a cama com outros homens e o castigo de fogo e enxofre que o senhor tinha feito cair sobre eles sem poupar as crianças, que ainda não sabiam o que iam querer no futuro, a seguir o ajuntamento de gente no pé de um monte a que chamavam Sinai e a fabricação de um bezerro que adoraram e por isso morreram muitos, (…)”

Compartilhar ou não com o autor sobre a existência de Deus, não impede a leitura da obra.

A fé é reservada e particular, sua intensidade muda de acordo à necessidade do indivíduo.

Temas polêmicos a exemplo da criação do universo e da existência humana devem perpassar por avaliação interior e individual, sem tentativas de persuasão a quem quer que seja.

Neste sentido, o texto não impõe desvio de conduta, contudo, induz o leitor a refletir sobre a forma de comunicação das religiões.

Leitura recomendadíssima!

José de Souza Saramago

jose-saramago-1O escritor, tradutor, jornalista, poeta, cronista, dramaturgo, contista, romancista, teatrólogo e ensaísta José de Souza Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, Portugal, no dia 16 de novembro de 1922.

Faleceu, aos 87 anos, na sua casa em Tías, Província de Las Palmas, Lanzarote, comunidade autônoma das Ilhas Canárias, no dia 18 de junho de 2010, vítima de leucemia crônica. Foi cremado e as cinzas foram depositadas ao pé de uma oliveira, na cidade de Lisboa no dia 18 de junho de 2011.

Prêmios

Saramago recebeu vários prêmios dentre eles o Nobel de Literatura de 1998 e o Camões de 1995. Foi condecorado com Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 1985, e o Grande-Colar da mesma Ordem, em 1998. Esta última honraria é concedida, normalmente, a chefes de estado.

O prêmio Camões foi instituído, em 1988, pelos governos do Brasil e Portugal outorgado a autores de língua portuguesa, pelo conjunto da sua obra e o Prêmio Nobel de Literatura foi instituído, em 1901, para premiar autores, de qualquer nacionalidade, que a sua obra tenha contribuído para o pensamento coletivo.

José Saramago recebeu, também, os seguintes prêmios: Cidade de Lisboa (1980), Literário Município de Lisboa (1982), P.E.N. Clube Português de Novelística (1983, 1985), D. Dinis (1984), Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1985), Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 1991, Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (1991), Grande Prémio Vida Literária APE/CGD (1993), Gold Medal.svg Prémio Camões 1995 e Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1995).

Linguagem e estilo

José Saramago se caracteriza pela utilização de um estilo oral. Preferiu se expressar na forma escrita com a animação característica dos contos populares de tradição oral. Preferiu a dinâmica da comunicação em detrimento da correta ortográfica formal.

A forma escolhida para desenvolver o raciocínio e exibir argumentos característicos da linguagem oral se impõe no estilo convincente.

Utiliza frases e períodos alongados, com pontuação nada convencional, que resulta em diálogos entre personagens sem a separação tradicional de travessões usuais para distinguir os diálogos de cada um dos interlocutores. Esta forma utilizada pelo autor conserva o leitor atento à história, contudo, em determinados momentos pode confundi-lo.

As citadas características tornam o seu estilo único na literatura moderna, destacando-o como um inovador no tratamento da língua portuguesa.

Relacionamentos

O primeiro casamento foi aos 25 anos com Ilda Reis. Deste relacionamento resultou o nascimento da filha Violante dos Reis Saramago. Durou de 1944 a 1970.

De 1970 a 1986 Saramago viveu com a escritora Isabel da Nóbrega.

O último relacionamento foi com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, que conheceu em 1986. Viveu a seu lado de 1988 até a morte do autor.

Crença, Política e foco literário

jose-saramago-2Saramago se dizia ateu e faz crítica à Igreja por entender encontrar-se a serviço dos tiranos. Fala de religião como um fenômeno de fantasias humanas. E diz que os episódios de violência relatados na Bíblia, como sacrifício de Isaque, a destruição de Sodoma ou a vida de Jó, por exemplo, revelam que “Deus não é de fiar”.

A Igreja Católica criticou a publicação do livro ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, em 1991, devido à releitura que Saramago faz do personagem Jesus. Fez críticas, também, quando da publicação de ‘Caim’, em 2009.

Foi membro do Partido Comunista Português.

Posicionou-se sempre atento às injustiças e vigilante das mais diversas causas sociais. Não se cansava de questionar valores sociais.

Criou, em 2007, a Fundação José Saramago para a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e defesa do meio ambiente. Mais tarde, em 2012, sua mulher Pilar del Río abriu as suas portas da fundação ao público na Casa dos Bicos em Lisboa.

Apesar das crônicas e peças teatrais Saramago se destacou com os temas abordados em seus romances.

Em ‘Levantando do Chão’ o autor retrata as dificuldades da população pobre do Alentejo.

Em ‘Memorial do Convento’ retrata o contraste entre a abastada aristocracia e o povo trabalhador.

Em seguida Saramago publicou livros cujos temas se referem a pessoas, fatos e questionamentos religiosos: ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ (1985), sobre as andanças do heterônimo de Fernando Pessoa por Lisboa; ‘A Jangada de Pedra’ (1986), em que se questiona o papel Ibérico na então CEE através da metáfora da Península Ibérica soltando-se da Europa e encontrando o seu lugar entre a velha Europa e a nova América; ‘História do Cerco de Lisboa’ (1989), onde um revisor é tentado a introduzir um “NÃO” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ (1991), no qual Saramago reescreve o livro sagrado sob a ótica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino.

Saramago deu início a nova fase publicando seis romances com tramas que abordaram os caminhos da sociedade contemporânea: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005).

Obras publicadas

Saramago publicou os romances Terra do Pecado (1947), Manual de Pintura e Caligrafia (1977), Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008), Caim (2009), Claraboia (2011) e Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (2014).

Publicou as crónicas: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opiniões que o DL Teve (1974) e Os Apontamentos (1977).

Produziu as seguintes peças teatrais: A Noite (1979), Que Farei com Este Livro? (1980), A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987), In Nomine Dei (1993) e Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (2005).

Publicou os contos Objeto Quase (1978), Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido (1979) e O Conto da Ilha Desconhecida (1997).

Publicou as poesias: Os Poemas Possíveis (1966), Provavelmente Alegria (1970), O Ano de 1993 (1975).

Diário e Memórias: Cadernos de Lanzarote (1994) e As Pequenas Memórias (2006),

Literatura infantil: A Maior Flor do Mundo (2001), O Silêncio da Água (2011).

Viagens Viagem a Portugal (1983).

Referência bibliográfica

Saramago, José, 1922-2010
Caim: romance / José Saramago. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
172p.
ISBN 978-85-359-1539-6
1. Romance português. I. Título.
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